Eu não sabia muito bem o que fazer. Algumas coisas me deixam meio desconcertado. Olho para o branco que a janela emoldura; é uma tarde branca e fria. Meus olhos se voltam para a minha cama fria e branca onde ela está sentada. Jamais, em um milhão de anos, eu iria pensar que isso poderia ser possível. Mas ela está lá, sentada na minha cama, e um leão dentro de mim diz algumas coisas. Naturalmente, eu penso nessa possibilidade.
Puxa, que legal que você tenha essas revistas.
É...
Girando, minha cabeça deixa de lado o instinto e curte o fato real dela está ali, comigo, naquela tarde sem graça. Eu sinto prazer só de saber disso, ou melhor, de fazer parte disso. Olha só ela. Tão concentrada na leitura... folheia os meus gibis velhos como se fossem raridades. Parece não saber o que eu quero.
Eu sou um selvagem.
Não...
Não vou fazer isso.
Sou um selvagem que, apesar de tudo, jamais faria alguma coisa com ela. Não assim, à queima-roupa. Tudo está perfeito; ela está ali do meu lado. Para que estragar tudo? Talvez nunca você saiba dessas coisas, meu amor, mas silenciosamente eu já te chamo assim. Eu amo seu jeito, amo seu corpo, amo seu vestido esquisito; amo suas botas pretas, amo seus anéis espalhafatosos e coloridos, amo os seus cabelos estranhos e suas orelhas; sou capaz de caminhar de joelhos até o fim do mundo só pela sua boca, e isso para não falar dos seus olhos. Desculpe por lhe amar dessa maneira fragmentada, mas meu retalhador leão interno faz questão de dar uma de açougueiro e lhe ver dessa maneira. Tudo em você é maravilhoso; tivesse eu escrito alguma vez sobre a garota mais legal do mundo, provavelmente a minha descrição não chegaria aos pés do que você é realmente. Isso me deixa eufórico como uma criança na véspera de natal que sabe de antemão que vai ganhar um presente melhor do que o esperado. Com mil demônios, eu vou ganhar você! Toda a minha poesia escorre pelo ralo e sinto uma necessidade física de você. Não basta saber que você existe e que me está dando atenção. Eu quero mais. Muito mais!
Vamos andando?
Claro. Mas, tipo, você não quer tomar um cafezinho? Está frio pra cacete... eu digo, voltando a mim.
Não.
Depois de um tempo ela acrescentou:
Seu quarto é legal.
Quer dizer que gostou dessa espelunca? Ele parece um velho porão.
É... logo se vê que é o quarto de um menino ela comenta, vendo as teias de aranha no teto, as revistas de garotas peladas que tentei inutilmente esconder embaixo da cama, as velhas fitas vhs de animes, os discos de bandas sinistras, as meias e as cuecas espalhadas pelos cantos, algumas em cima de gibis, outras sobre uma garrafa de vinho pela metade. Ao ver a garrafa, ela tirou as cuecas de cima:
Bem, já que você disse pra eu tomar alguma coisa... e ela deu vários goles de olhos fechados, num estilo que causaria admiração a um cachaceiro profissional. Depois limpou, imperturbável, a boca com as costas da mão esquerda. Eu sacudi a cabeça, arrepiado, com a graça de um pangaré cheio de carrapatos que sacode a crina para uma potranca bem cuidada. Quando é que eu deixarei de me atrair por meninas esquisitas? É um enigma. Eu também tomei uns goles, naquele vinho batizado em que eu tinha misturado vodka e outros líqüidos. Fiz uma careta e disse, meio tonto:
Beleza. Vamos.
E saímos da minha casa. A tarde estava uma merda; nublada da maneira que eu odeio. Um céu branco como o fim do mundo, uma longa e estreita calçada de concreto escuro, fileiras de finos galhos pretos de árvores sem folhas, vento gelado como uma geladeira escangalhada. Odeio tardes frias, e tardes que esfriam mais e mais eu odeio ainda mais. No mais, eu estava vestindo uma camisa grossa de tecido xadrez que me fazia parecer um caipira. E minha barba estava para fazer. Por incrível que possa parecer, não gosto de sair de casa desarrumado. Ainda mais numa ocasião como aquela! Sentia-me horrível de estar assim. Enquanto caminho, eu me recordo de uns versos sobre portas que se abrem.
Eu? Bem... nunca participei de uma coisa assim antes eu menti estou com um pouco de medo.
Você pode até morrer.
Jura? eu falo com um tom de voz com um grau de despreocupação semelhante a quem é informado de que hoje é terça-feira..
Você é muito legal ela retruca. Maldito cabeça de bagre eu sou; mesmo quando tomo um vinho batizado capaz de embriagar um gorila e transformar um mudo na pessoa mais eloqüente do mundo, eu não consigo me soltar para falar como gostaria. E o pior é que eu sinto a coisa toda crescendo na minha garganta como uma bola cancerígena. Mas eu engulo esse câncer, e espero calmamente pelo colapso que ele sempre me causa. Sabe...
Bem, não se preocupe; daqui pra frente as coisas tenderão a esquentar.
Animo-me ao ver a casa dela, um sobrado de aparência aconchegante; uma luz amarela vinha de suas janelas junto com um aroma de bolo que está assando no forno; apesar disso, há um certo ar sinistro exalado pela construção antiga que casava muito bem com o clima da tarde. Demos a volta e fomos parar no fundo quintal de grama alta e algo desleixada. Há entulho aqui e ali; alguns pneus velhos. Vendo tudo aquilo sou acometido de uma certa desolação. A grama já era mato alto e frio coberto por gotas de orvalho mais frias ainda que, quando roçavam meus braços, provocavam um calafrio muito desconfortável. De algum quintal vizinho vem o sufocante cheiro de fumaça, apesar dela não ser imediatamente visível, talvez por se fundir à cor branca do céu nublado. Atrás da casa, já aberta, está a porta que conduz ao porão, e diante dele eu me detenho. Algo, uma coisa invisível, me faz parar como se tivesse me chocado contra uma parede de concreto. Aqui estou eu, parado diante da entrada daquele porão escuro. Parado como um animal diante do abatedouro. Algo está para acontecer, e isso está tão presente no ar que chega a ser respirável, como o ar úmido e abafado que precede uma maldita tempestade. Algo está para acontecer, e chega a ser palpável tal um corpo.
O que foi? ela diz num tom de voz entre o bem desagradável e o bem sedutor.
Eu resmungo nem sei o quê, só sei que foi inaudível. Mas continuo parado. Meu medo repentino parece se materializar em volta do meu ser como uma capa com cheiro e sabor.
Ah, meu benzinho, é só por isso? Não tenha medo, não... e ela me puxa, bruscamente, contra o seu corpo, e me abraça forte, e me beija, enquanto caminha de costas em direção ao porão escuro, e meu corpo sente a textura e o calor do corpo dela através do tecido do seu vestido, e o meu coração dispara e minha visão se turva, e o porão se aproxima mais e mais, e eu tento falar que nunca participei de um ritual de magia daquele antes, e ela tampa meus argumentos com mais um beijo que parece sugar a minha alma e a minha razão, e por isso tudo se distorce e se escurece cada vez mais, e eu gosto disso, e me deixo beijar, e me deixo conduzir e me deixo seduzir e me deixo... e tudo se escurece e se escurece de uma ponta a outra do mundo até onde ele termina e começa a minha razão que está terminando, turvando-se num torvelinho que vai apagando todas as luzes que me iluminam até que a perdição total se fez no momento em que acordo com um gosto estranho de sangue na boca. Está tudo escuro e abafado, por isso suspeito que ainda estou dentro do porão. Mas é estranho. Realmente estranho. Sei que estou dentro do porão da casa da menina, mas parece que o lugar é enorme. Enorme não seria a palavra certa; o lugar parece ser gigantesco. Caminho um pouco e, ai. Porra, meti a cabeça num poste. Num poste?! Sinto o cheiro de calçada de rua. Totalmente imerso na escuridão, eu me abaixo, sento e tateio o chão, e sinto a friagem de pedra de guia de calçada. Eu raspo a borracha da sola dos meus sapatos na superfície enrugada e inconfundível de asfalto de rua. Ouço os sons distantes do trânsito urbano. Meus sentidos entram num carrossel enlouquecido, pois se um momento antes eu estava entorpecido de prazer e pavor, agora estou completamente transtornado de pavor e pânico. Onde estou? Onde estou?? Eu estou ofegante, e o suor escorre pelo meu corpo, abundantemente. Mas isso é o meu suor ou é mesmo chuva, ou foi mesmo o choro de alguém? Nada sei, e nada enxergo. Procuro raciocinar. Merda. O fato de não poder enxergar talvez seja uma seqüela do ritual feito no porão. Sim, a menina sempre me falava em portas que se abrem para que a percepção possa por elas passar. Minha cabeça lateja diante de toda essa escuridão. Merda, eu acho que estou em transe, fora do meu corpo. Mas se isso for verdade, pode significar que ainda estou, de fato, no porão, e que tudo isso aqui não passe de um sonho de mau gosto... maldita menina. Essa é mais uma bela encrenca em que eu me meti, e tudo isso graças a ela. Pelo menos tenho a sensação de ter comido aquela gostosa. Sou um selvagem. Que gosto horrível de sangue na boca... Merda, puta que me pariu, onde é que estou? Afinal de contas, em que fria eu me meti?? Tudo escuro, mas um escuro gigantesco. Tento relaxar e esperar o tempo passar, pois se eu estiver dormindo ou em transe, certamente com o passar do tempo acordarei. O tempo passa. Não estou com relógio, e nesse breu tenho a impressão que cada minuto demora horas. Me levanto, tento caminhar um pouco. Bato a testa em alguma coisa e caio e respiro o pó do chão. O tempo se arrasta. Eu levanto e urino. O tempo não quer, de jeito nenhum, passar. Fico com fome. O tempo parece não existir mais. Tenho sede e pânico. Me aninho no chão e tento dormir. Reles engano. Tanto faz ficar com o olho aberto ou fechado, a escuridão é a mesma. Ainda assim, fico com os olhos fechados por um tempo, e finalmente caio no sono. Durmo profundamente, por umas seis horas. Acordo. Tudo ainda continua escuro. Dou então um berro de pavor e loucura, um berro nunca antes dado por nenhum ser humano, um uivo atormentado que ecoa por todo o universo. Estranha menina, por que fizeste isso comigo? Por que pegaste a minha mão e me conduziste ao inferno? Você nada me trouxe de bom, apenas me levou a regiões escuras das quais eu nunca ouvi falar. Eu desci, desci muito, e tua silhueta sumiu na escuridão do fundo do poço em que me jogaste. Agora eu me vejo perdido aqui. Procuro achar a saída. Procuro te esquecer. Procuro fugir de todo esse pesadelo perpétuo. Mas não há fuga, por isso eu grito com todas as forças dos meus pulmões; grito até que eles estourem, grito com todo o meu pavor e meu medo, que me estilhaçam, e os meus estilhaços parecem rasgar algo que eu desconheço, e por esse rasgo eu vou escorrendo, escorrendo, fluido e necessário, até desabar sobre mim mesmo. Me levanto de súbito, com os olhos ainda em pânico. Sim, em pânico vejo que estou na escuridão, mas pelo menos agora sei que é noite e estou caído na calçada da cidade...
Levanto-me. Vejo que estou vestindo um estranho casaco negro como petróleo reluzente, e suas bordas possuem refulgências brilhantes como se fossem feitas por pó de estrelas e galáxias azuis, amarelas, vermelhas, verdes. Legal... mas muito sinistro. Parece que minha roupa é feita com um pedaço do céu noturno. Por isso tento tirar o casaco. E tiro. Mas no momento em que eu faço isso, tudo se torna escuro como antes! Em desespero, tateio o chão em busca do casaco de céu noturno. Visto ele. A cidade novamente se torna visível e vem misturada com o cheiro de fumaça de ônibus, cheiro de pipoca, perfume barato de puta e odores de esgoto. Mas que merda é essa que tá me acontecendo? Perguntei as horas a alguém, mas eu não consegui escutar. Perguntei novamente, e também não ouvi. Perguntei mais umas duas vezes, e a pessoa, irritada, me mandou fazer um exame na porra da minha orelha. Desesperado, tentei ver a hora da catedral, mas não consegui ver os ponteiros; então fui para parto de um relógio público digital, mas esse também parecia quebrado, pois o marcador digital era um borrão incompreensível. Fui para a frente da maior loja de relógios da cidade. Nenhum dos milhares de relógios parecia ter ponteiros ou estar funcionando direito. Alguns inclusive estavam derretendo.
Minha garganta não agüentava mais berrar de pavor. Eu próprio não suportava mais o peso desse pavor que estava crescendo sobre mim e aos poucos me esmagando. Exausto, suado como um filho da puta e com os cabelos embaralhados pelo suor, pelo pavor, pelo espanto, pela poeira da calçada e pelas um milhão de coisas desesperantes, eu resolvi desistir daquela loucura toda e ir para casa. Primeiro peguei um ônibus que, depois de rodar por umas duas horas, não me levou a lugar nenhum. Depois segui a pé, e caminhei por mais umas quatro longas horas. Eu desabei num banco de praça e dormi como um cadáver por umas oito horas, sentido o meu rosto suado ser confortado pelo beijo da brisa noturna. Assim que acordei, olhei o céu estrelado. Ainda era noite.
Então eu chorei, respirando aquele sereno que me atingia como um soco. E agora, para onde ir? O tempo estava meio frio, e a minha respiração deixava um vapor que era visível toda vez que eu passava por baixo da luz pálida dos postes. Por quanto tempo caminhei? Umas duas horas, mas a caminhada não me fora cansativa, pelo contrário; ela até ajudou a aliviar o peso dos meus pensamentos esses sim, pesavam uma tonelada. Cheguei num bar desabei, numa cadeira e suspirei profundo. Muito fatigado, olhei o meu estranho casaco negro salpicado de pequeninas e variadas luminosidades, feito do tecido do céu noturno, com o qual eu podia movimentar-me por aquela noite sem fim. Fechei os olhos e a imagem da menina que me meteu naquela fria veio a mim como um relâmpago. O que seria feito dela? Também ela estava perdida por aí? Algo porém me estremeceu: será que ela estava... estava realmente bem? Isso fez o meu coração dar um sobressalto. Aquele estranho ritual no porão...
Droga!... eu praguejei. Não devia ter aceitado participar daquilo. Minha vida já era um lixo em bom tamanho; não precisava de mais aquela merda toda para me infernizar. Chutei uma lata, de raiva, mas o barulho rasgante da lata contra o asfalto ermo tinha muito do quanto de sinistro estava havendo naquela fase de minha vida, e isso me atingiu como o aço frio de uma punhalada certeira. O meu medo era coberto pelos pêlos do escuro dessa mais desoladora prisão. Preciso urgentemente da companhia de outras pessoas, por isso entro num bar. Fecho os olhos e suspiro um praguejo: daria tudo para que o dia amanhecesse logo.
Um pessoal que está sentado na mesa ao lado pergunta se não quero me juntar a eles. Aceito, agradecido.
De onde você é? pergunta uma menina muito jovem de óculos fundo de garrafa. Ah, de muito longe, eu falo, e a minha resposta parece divertir a todos. Vejo as pessoas ao meu redor como um carrossel indistinto de rostos novos, mas aos poucos vou discernindo um ou outro.
Também sou de longe uma moça com cabelos pretos, curtos e com a face de linhas duras e embrutecidas falou, dando a entender que de alguma forma me entendia. Ela vestia um macacão jeans desbotado e uma camisa branca. Seu nome ela me disse assim como quem cospe algo com desprezo: Leonor.
Beba o que quiser, amigo. Eu pago um cara de aparência legal me disse. Tinha uma garota grudada no braço dele, com jeito de quem está terrivelmente apaixonada ou melhor, a minha namorada psicótica rica está pagando tudo. Meu maior prazer é gastar a grana dessa débil mental para ver se ela larga do meu pé.
Todos riram. E o pior é que esse cara parecia não estar brincando. Parecia que nada do que ele dissesse ou fizesse faria com que sua namorada desgrudasse dele. Isso era um pouco perturbador, pois o rapaz de aparência legal falava com ganas de torturador, e a namorada dele tinha ares de menina que está apanhando, mas de qualquer maneira uma tal estória servia ao menos para me distrair. Eu passei os olhos sobre o grupo. Tinha uma menina realmente linda entre eles. Uma menina de beleza estonteante, dessas que a gente acha improvável encontrar no dia a dia. Eu evitava olhá-la, até porque ela estava com seu namorado, um tipo que exalava uma profunda solidão e que me era bastante familiar. Muito familiar. Mas como não podia deixar de olhar espantado para ela, o namorado dela me perguntou:
Você parece conhecer a minha Anja ou a mim de algum lugar.
Eu? Eu acho que estou perdido...
A menina de óculos fundo de garrafa me olhou espantada, e foi só; parece que ninguém fez muito caso das minhas palavras, pois logo troçaram e conversaram outras coisas. Além da menina, havia um cara de óculos escuros que também me pareceu interessado com o que eu falei, pois me disse:
Deixe-me adivinhar. Tem uma garota nessa sua história? E você se perdeu somente por causa de uma menina? É o tipo de história bonita, mas que me provoca indigestão.
Aí é que está. O amor é indigesto. E, sem poder digerí-lo, o coração sangra sua gastrite sem sentido Leonor retrucou, sombria. Através dos óculos fundo de garrafa a menina ao lado de Leonor lançou-lhe um olhar de censura e deu-lhe uma palmadinha de desaprovação. Mas eu ergui as mãos para o grupo e disse:
Deixa pra lá, gente. Vocês não têm nada a ver com o meu problema. Acho que já vou andando.
Mas como? Já quer se afastar da gente? Tão rápido? o desconhecido de óculos escuros riu num tom quase conciliador olha só você, querendo ver o dia amanhecer logo. A noite é uma criança!
Crianças cagam até não poder mais eu disse. Eu fui me levantando da cadeira, mas todos se levantaram ao mesmo tempo, bem contentes, porque começou a rolar um som eletrônico do qual todos gostavam. Senti alguém me pegar na mão e me conduzir para a pista de dança avermelhada com detalhes numa espécie de preto luminoso. Vi, para meu espanto, que era aquela menina de beleza estonteante chamada Anja. Sua outra mão segurava a do namorado e esse, por sua vez, pegava na mão do cara de óculos escuros. A luz forte despejava sobre todos uma pesada cor vermelha e todos, pintados assim, dançavam numa euforia agoniante de quem dança de uma maneira atropelada a fim de extrair o máximo de diversão que a noite pode proporcionar; dançava-se de cabeça baixa e olhos fechados, todos procurando se fundir no mesmo gosto que tocava as línguas de perturbadoras sensações que só que se descortinam para quem se entrega aos prazeres que sobrevém ao mundo com a morte do sol, ele próprio o assassino desse mundo obscuro, misterioso e tão necessário das coisas impossibilitantes e do qual eu quero fugir como um criminoso que luta por manter o bom senso, mas um sem-número de coisas me atormentam: será que a menina que eu amo também está por aí, perdida e solitária na noite? Será que ela ainda pensa em mim? Será que está bem? Será que eu represento alguma coisa para ela, será que ela também se preocupa comigo? Mas as palavras se desmancham em meu cérebro conforme a dança continua em marcha! Sinto alguém me beijar, mas não sei quem é. Agora são dois; Agora são três. Eu não sei o que pensar, o meu pensamento pesa e se arrasta em vermelho que se torna mais intenso, e o desejo percorre os corpos famintos de outros corpos que há muito não se alimentam da sorte e de vertigens; vertigens quentes, líqüidas, atingem minha pele e minha boca almeja beber um pouco de vida ou ainda lamber gotas de alegria suada ou chorada que diferença faz? Penso no meu amor do qual tão pouco senti o gosto e mergulho mais ainda nas vermelhidões com reflexos negros tal e qual um olho insone com a maquiagem preta e borrada. Mas os reflexos pretos vão aumentando ao mesmo tempo em que as vermelhidões se tornam cada vez mais quentes e líqüidas. Meus olhos se apagam de uma vez e eu me sinto novamente tomado pelo escuro. Respiro ofegante; até quando agüentarei essa tortura? Tateio o lugar onde estou; parece um piso de madeira empoeirado. Não acho que estou jogado no meio duma calçada desconhecida, conforme me aconteceu antes, mas sim que estou num cômodo de uma casa. Tento enxergar alguma coisa, mas, conforme minhas experiências anteriores, não enxergo um palmo diante do meu nariz. Sempre fui míope para uma série de coisas, coisas que seriam muito melhor percebidas por quem tem um pouco mais de bom senso. Mas os meus apetites me tornam cego! Cego como um rinoceronte perseguindo um leão que também sou eu, e esse lampejo ilumina o ambiente em que me encontro. Engraçado. Por um instante imaginei que estava num porão. Mas acho que estou dentro de um construção abandonada, em cujos destroços a luz do luar entra com raios poderosos, tornando todo o entulho claro e pálido como eu e a noite que estou vestindo em forma de carapuça-casaco. Cena realmente linda, sentir o luar penetrar por entre as janelas e paredes inacabadas. Há algo inacabado a mais por ali, e por isso caminho com dificuldade por todo aquele monturo até me aproximar de um cômodo sem teto que era atingido em cheio pela suavemente poderosa luz lunar. Ambiente fantasmagórico em que duas meninas conversavam:
Não, não adianta. Eu não volto mais para casa, Leonor. Eu quero ser que nem você!...
Deixa de falar merda.
As duas estavam sentadas num monte de entulho, e não sei bem se pela luz da lua cheia ou outro motivo pareciam ao mesmo tempo estarem sentadas à beira de um precipício. Leonor soltava estranha fumaça pela boca e a outra menina de óculos fundo de garrafa tinha os olhos tomados por tal pavor e angústia que eu diria que o meu tormento perto do dela era apenas diversão de criança.
Eu não agüento mais! Eu não agüento mais!!...
Tomada pelo terror, ela pousou a cabeça no colo de Leonor.
Minha vida é uma merda, Leonor. Ninguém gosta de mim. Sou horrorosa.
Escuta, Eglantine, você está começando a sentir o gosto do mundo. Acostume-se a isso, filha, porque a tendência é piorar.
Que vontade de me matar...
Entre na fila, amiga. Mas um dia você também vai compreender que até o suicídio é idiota demais. Não resta nada pra gente se agarrar. Não resta nada.
Você já pensou em se matar, Leonor?
Eglan, eu nem sei por que deixo você me seguir. Olhe só para mim! Olhe!!!... dê uma boa olhada, veja bem no fundo dos meus olhos todo o meu fracasso! Eu abandonei a escola faz uns cinco anos. Não tenho mais sonhos, não tenho mais nada, meu trabalho é uma bosta e ganho mal pra caralho. Sou viciada em três tipos diferentes de drogas, já abortei, ando com marginais... vivo jogada por aí que nem uma mendiga vagabunda. Minha vida são escombros. Aceite esse conselho, minha amiga: volte pra casa, ponha alguma meta em sua vida, estude bastante, entre pra faculdade, monte seu consultório, case e tenha uma casa, um carro, um cachorro e dois ou três filhos. E me deixe em paz!
Não. Leonor, você é minha ídola. Eu quero ser como você!
Puta que pariu, piveta, parece que não ouviu merda nenhuma do que eu disse.
Eu gosto de você, Leonor.
O pior é eu também gosto de você, menina. Eu gosto do seu gosto. Seu gosto é uma coisa assim... meio inocente sabe? Você tem bom gosto. Ele é doce.
Acho você bonita, Leonor.
Acho que é por causa da luz da lua.
Talvez. Mas cuidado, menina. De noite os vampiros estão à solta.
Engraçado, eu me lembro de ter gostado de uma menina de óculos fundo de garrafa chamada Eglantine, mas isso foi a tanto tempo atrás que me parece mera coincidência que essa menina também tenha esse nome. Ademais, se fosse a mesma pessoa, ela deveria estar bem mais velha. Quem sabe com dois ou três filhos, um marido e um cachorro adoráveis, um consultório e uma casa maneira. Além do mais, acho improvável que a Eglantine, uma cdf da porra, uma nerd irritantemente certinha, andasse noite afora com uma drogada perdida como a Leonor, conversando sobre o sentido da vida em escombros ou talvez eu a tenha subestimado, como fiz a tantas pessoas ao longo da minha longa existência. Mas o que estou eu a falar? Se bem me lembro sou um moleque de dezesseis anos que deve estar muito chapado por pensar que já é um senhor respeitável perdido na noite. Olhando para a pálida luz lançada sobre aquelas distantes coisas tão próximas de mim que me chegam a ser siamesas, creio que de fato subestimei a Eglantine. Confesso que ela foi o primeiro amor sincero da minha vida, mas não fiquei com ela justamente pela sua aparência de nerd afinal eu era um moleque com uma reputação a zelar, e o que o pessoal iria achar de mim se namorasse aquela menina horrível, tão esquisita que tinha fama de ser sapatão? Era melhor que eu cortasse os pulsos, ou cortasse de uma vez a minha relação com ela. Mas foi um corte que feriu o meu coração de uma maneira honesta. Foi a primeira vez que eu gostei de uma menina não por sua beleza física, mas pela do seu interior. Cicatrizes. Definitivamente a noite não é uma criança; é nela que nos tornamos adultos à força, e pensamos em coisas que de dia nem nos incomodariam. Mas os incomodados que se mudem: preciso arrumar uma luz. Carros luminosos e pessoas obscuras iam e vinham, mas não me diziam o mínimo respeito. Eu estava cansado de procurar uma saída em direção ao nascer do Sol. Eu preciso de luz. De alguma luz.
Ah, então você está aí!...
Olho e eis que vejo aquela menina linda, chamada Anja. Fico meio desconcertado e pergunto:
Oi Anja. Cadê o seu namorado?
Ela me olha como se eu estivesse brincando:
Meu amor, que brincadeira é essa?
Amor? Ela vem e me abraça, e isso dissipa qualquer dúvida: ela realmente pensa que sou o namorado dela! Um pouco atônito, tenho meu corpo retesado quando o abraço dela me envolve, e tento desviar dos seus lábios e esclarecer o que ocorre, mas toda aquela doçura a me envolver como um doce que cai sobre uma formiga faminta por fim me fizeram abandonar àquela correnteza de ternura e abraçar Anja.
Senti saudades...
Eu... sinceramente não sei o que fazer... eu lhe respondi, ainda besta por ter uma menina tão linda ao meu lado. Alguma coisa me diz que tirei a sorte grande.
Obrigada por seu incentivo. Sabe, não sei o que seria de mim sem um cara como você. Foi simplesmente SORTE ter te encontrado.
E então ela me abraçou mais forte assim com uma certa ponta de medo de me perder, e eu me senti um tanto quanto embasbacado.
Ora, não exagere, Anja eu disse tentando ser minimamente razoável.
Oh, e além de tudo você é tão modesto...
Apesar de estar me sentindo assim como um multimilionário ao seu lado, eu preciso tentar saber qual é a dela.
Anja... pode especificamente me dizer o que eu tenho assim de tão especial? Afinal você é uma menina absurdamente linda e não vejo nada demais em mim mesmo. Eu não consigo imaginar o que um cara como eu pode ter que possa atrair uma menina como você. Bem... talvez você já tenha me dito isso um milhão de vezes, mas... é sempre bom ouvir... novamente.
Fiz um esforço tremendo para que minha voz não soasse falso, o que acabou ocorrendo e ela me olhou com um ponto de interrogação. Uma interrogação entremeada com uma certa dose de pânico, e o assunto ficou por isso mesmo. Passeamos então abraçados pela noite que nos abraçava, e passamos em frente a uma banca de jornal. De relance vi o a manchete de um jornal sensacionalista: "jovem é encontrada morta dentro de um porão". Antes que eu pudesse ver direito, Anja me puxou para um bar. Ela pediu uma bebida com chocolate, e eu, vinho. Ah, bolas, adoro café preto, e que pena que ele não pode me embriagar, por isso pedi um vinho, pois estou precisando mesmo encher a cara. A moça do bar me trouxe uma garrafa, e olhei para ela, e ela olhou para mim de uma maneira como se nós já nos conhecêssemos. A Anja parece ter ficado um pouco enciumada com isso.
Nossa, que casaco bonito esse seu! ela disse num tom um pouco desagradável. Eu coloquei um pouco do vinho no copo rústico e tentei ver novamente a menina do bar. Ela havia sumido. Ela era bonita. Não tanto quanto a Anja, mas era bonita. Acho que essa moça ficaria melhor com um vestido esquisito, botas pretas, anéis espalhafatosos e coloridos. Tenho a impressão de ter ouvido uma risada de bruxa, mas acho que foi só o barulho do trânsito do lado de fora do bar.
Eu nunca tinha visto um casaco igual a esse a Anja insistiu ele tem um excelente tecido. Combina muito com você.
Você gostou? É a primeira pessoa que gosta desse meu casaco. Na verdade, você é a primeira pessoa que nota esse casaco. Esse maldito casaco.
Com isso o quê? O casaco ou você?
Comigo. Não se preocupe comigo.
Olhei-a de soslaio. Cabelo longo e loiro natural. Um corpo de boneca. Um rosto delicado, de uma delicadeza até certo ponto irritante, pois lembrava shopping center, lugares badalados, essas coisas em que as meninas lindas se metem e que me causam pânico. Mas a roupa atual dela não estava combinando; estava muito diferente da vez em que a vi com um cara naquele bar. Agora ela usava um pesado suéter preto, bem grosseiro e meio descosturado, e um jeans preto desbotado. Tornei a me recordar dela, naquele bar com os outros; lá ela estava vestindo uma roupa mais condizente com o que se espera de uma menina bonita igual a ela, algo assim como uma roupa colorida de patricinha metida a besta e inatingível para os mortais comuns. Eu franzi a testa:
Tipo... acho que essa roupa é meio obscura para uma menina igual a você.
Ela me lançou um sorriso enigmático:
Que bom...
Sabe... sabe aquela vez em que estávamos no bar que tinha uma pista de dança toda avermelhada? Lá você estava com um cara parecido comigo. Quem era ele?
Como assim? Que brincadeira é essa? O "cara" que estava comigo naquele bar só poderia ser parecido com você porque era você!
Eu suspirei fundo. Naquela ocasião do bar eu estava sentado à mesa com várias pessoas, incluindo a Leonor e a Eglantine, duas pessoas do meu passado, e também estavam a Anja comigo mesmo, no futuro, e tudo simultaneamente. Prefiro evitar pensar muito nisso, por isso olho ao redor, tentando me distrair; o lugar é agradável. Meio vazio. Com boa iluminação; claro, limpo, e em tons de pastel. Nas mesas dos cantos, alguns estudantes silenciosos, a maioria de óculos, comendo enquanto folheiam apostilas. Uma música instrumental sai de alguns alto-falantes embutidos no teto. Me sinto bem. Acho que já estive aqui antes, com aquela menina bruxa... e ao me lembrar dela, uma nova nuvem desce no meu humor. Eu baixo os olhos para a escuridão do meu vinho, e vejo nela refletida toda aquela noite sem começo e sem previsão de acabar.
Já se indagou porque tanta coisa na vida escapa ao nosso controle, e vem e vão, vem e vão, e às vezes vem e vão simultaneamente? perguntei a Anja, e sem esperar resposta murmurei num dia a gente tá a fim de uma menina e só quer comê-la. E de repente isso lhe joga numa confusão infernal.
Ao menos vejo que você é sincero. Não é todo mundo que usa dessa linguagem direta diante de uma garota.
Ops, desculpe.
Não, não se preocupe. Eu acho que a coisa toda passa por aí mesmo.
Pelo quê?
Pelo comer alguém. Estamos sempre comendo alguém, sejamos homens ou mulheres, ou então estamos de olho em alguém para sugar, para explorar, para espremer até a última seiva até essa pessoa virar um bagaço vazio e inútil; momento então que abandonamos essa pessoa e tratamos de achar outra. Algumas vezes esse processo é enfeitado por cretinices hipócritas românticas; outras vezes ele se dá de maneira mais direta e honesta possível. Igual àqueles versos: "como tubarões vamos vivendo; como tubarões/ somos canibais". Por que me olha assim espantado? Tudo isso eu aprendi com você.
Eu te ensinei? Realmente não me lembro disso. Onde fica o amor nessa história idiota de canibalismo?
Aí é que está. O amor é indigesto. E, sem conseguir digerí-lo, o coração sangra a sua gastrite sentimental de morte.
Leonor? Os escombros. Eglantine. A menina Bruxa. O amor é indigesto. Simultâneo. Noturno.
Começo a achar que o amor é uma merda, e como tal precisa ser expelido do nosso corpo digo.
Precisamente isso é o que você está me ensinando, meu amor.
Cara... desculpe, Anja, eu bebi muito menti, ou acho que assim procedi e por isso não me recordo de algumas coisas. Oh, maldição, sabe o que me ocorre? Não sei, mas o amor que as meninas criam dentro delas por mim é algo assim como um filho que já espero que nasça defeituoso. Monstruoso. Puta merda, meu Deus, como eu me odeio! Que vontade de dar um tiro nessa minha cabeça nojenta, nessa cabeça de bagre que pensa coisas que só servem para me atormentar, e que vontade de enfiar um punhal nesse meu coração amaldiçoado que só sabe sofrer... mas não... tenho a impressão que vou durar um trilhão de anos somente para experimentar novas variedades de sofrimento que ainda vão ser inventadas, pois ao que parece, uma existência normal e medíocre não basta para mim. Tenho a vívida impressão de que sou eterno. E sabe do que mais? Que vinho maravilhoso esse o que se bebe na taça de nossa desgraça.
É por isso que estou com você, meu anjo disse Anja você é a pessoa mais solitária que eu conheci, e no entanto sabe fazer poesia disso. Eu preciso aprender como ser sozinha. O mundo de moda, dinheiro e consumo agora apenas me deixa entediada. Eu estou buscando novas belezas. E o que vi em você foi uma beleza estranha e perigosa. E eu estou atraída por essa beleza que eu nunca tive.
Ah, caralho, vá ver se eu estou na esquina. Eu pensei que você estivesse comigo porque me curtia e tals eu disse aborrecido e bebi um pouco mais. Estranho vinho.
Talvez, talvez... mas você mesmo precisa reconhecer que não tem muitos atrativos para uma menina, e muito menos para uma menina igual a mim.
Ah, droga, minha vida é um pesadelo cada vez pior e não posso acordar.
Está vendo? Esse é um dos poucos atrativos que vejo em você. Sempre resmungando, sempre dizendo que a sua vida é uma noite só, sempre falando coisas sem muito sentido.... por exemplo, aquela velha história de que namorou uma menina bruxa que te enfeitiçou. Eu sinto uma coisa bonita vindo disso, mesmo sabendo que ela é completamente imbecil num grau que nem o mundo dos shopping centers podem ser.
Não tente me entender, queridinha eu disse com a voz mais sombria que alguém pode ter enquanto procura acender um cigarro fundiria a pouca merda de neurônio que você tem nessa cabeça loira. Mas me diga, o que aprendeu com alguém tão sem atrativos?
Não é problema seu ela disse.
Está aprendendo rápido eu matei o copo de vinho numa tragada só, olhei para ela furioso, a peguei no braço com força, a puxei para perto de mim e a beijei na boca. Surpreendentemente, ela retribuiu o beijo com fúria apaixonada. Fúria e paixão, fúria, paixão e cor de vinho, a cor de vinho que escorre pela pele, provocando arrepios... cor de vinho num pescoço que é sugado, um corpo que é sugado com prazer, sugado como uma fruta de quem a gente tira todo o sumo com a boca, e depois, exausto, o corpo ainda pede para ser comido, devorado, mastigado com todo ódio que um coração palpitante de amor é capaz de sentir, e por fim, satisfeito, jogo fora o bagaço e limpo minha boca com as costas das mãos. Olho ao redor; estou no alto de um prédio, e o vento tremula violentamente meu casaco noturno como se ele fosse uma capa. Nuvens baixas são iluminadas intensamente pelo esplendor lunar que derrama sua palidez sobre a penumbra dos prédios de onde outras coisas são derramadas; olho para baixo e vejo algo caindo; é a fruta que acabo de chupar. Meu casaco balança; minhas mãos estão encrespadas como garras e meus dentes, entrecerrados, me parecem mais pontiagudos do que o normal pois estão ferindo meus lábios, dos quais escorre a seiva do fruto proibido do jardim das delícias e a luz da lua. Respiro fortemente todo um poder que aos poucos vou me dando conta. Como vim parar aqui em cima? Pouco importa. Sinto-me ainda furioso ainda que um tanto saciado e levo a mão à minha testa e me pergunto se eu ainda teria coragem de me olhar no espelho pois creio que nenhuma superfície do mundo seria suficiente para refletir o que sinto, e o que sinto é que sou um inútil, um fantasma na vida de muita gente, e ao mesmo tempo fervo em ódio por saber que pessoas me usam, exploram-me, sugam-me o sangue, e depois se vão. Foi assim com a Anja. Foi assim com a menina bruxa, e parece que isso não vai mudar nunca; mas o tempo está mudando; bem sei disso. Bate um vento forte e carregado de umidade. Nuvens horríveis começam a esconder a lua. Preciso mudar. Mas como posso falar em mudança, se ao menos sei compreendê-la? A todo momento o que fui e o que serei acaba interferindo simultaneamente no que sou. A menina bruxa, a garota nerd Eglantine e Anja, a top Model, todas elas são passado e futuro cruzando o meu caminho de maneira inevitável.
O vento que traz as pesadas e horrendas nuvens noturnas negras e contorcidas, com as bordas num tom marrom escuro enferrujado me traz também os sons de algo que não sei atinar bem o que é. Parece ser de sinos. Como a chuva não demora a vir, levanto o colarinho de minha capa e desço para a rua. Na rua encontro dois conhecidos daquele bar, o cara de aparência legal e a mina podre de rica. Estão bem arrumados.
Ora, salve! digo onde vão tão arrumados assim? Parece até que estão indo a um casamento!
Como adivinhou? a menina podre de rica disse.
Quem mandou você falar? o cara legal disse, e ela sorriu, aprovando a grosseria dele Então, meu bom amigo, não recebeu o convite?
Não... eu disse, mas ao apalpar o meu casaco para conferir, misteriosamente encontrei um papel. Tirei do bolso. Era um convite. Eu quase cai para trás. A menina bruxa vai casar. Com outro.
Um papel cai no escuro.
Um pingo cai.
Não sei se do céu.
Não sei se do meu olho.
E aí, vamos lá? o rapaz legal me diz.
Não posso.
Por quê, menino? a menina podre de rica pergunta, e recebe um empurrão mal-humorado do cara legal.
Eu... não posso. Simplesmente não posso. É porque... eu... na verdade... sou um vampiro. É isso. Isso mesmo. Sou um vampiro. E simplesmente não posso entrar em igrejas com todas aquelas cruzes.
Os dois me olharam por um longo tempo. Os olhos deles brilharam.
Ei, camarada, nós também não gostamos de igrejas. Na verdade, que se foda o casamento. Que tal a gente ir num local mais agradável?
Não sei... digo.
Vamos ao nosso apartamento a menina podre de rica diz, e pela primeira vez não recebe objeções rudes do seu namorado.
Fui com eles ao tal apartamento. Talvez tenha sido o apartamento mais gigantesco e luxuoso em que eu entrei na vida. Fiquei com o cara legal no sofá, bebendo como se eu já não tivesse bebido o suficiente naquela maldita noite! enquanto a menina podre de rica saiu e voltou em um minuto.
E voltou só de langerie preta e meias dessas que tem uma cinta liga.
O cara legal disse:
Ei, fica frio, irmão. Vamos traçar nós dois juntos essa vagabunda. Meu maior prazer é comê-la com um outro cara, de preferência um cara esquisito. E você é um dos caras mais esquisitos que encontrei! Todo esse lance de vampiro que você falou... enfim, tenha a honra de comer a minha namorada! Eu ataco pelo outro lado.
Mas que porra de conversa é essa? - Eu protesto, mas ao me lembrar de toda a história do casamento da menina bruxa, sou tomado por um ódio mortal, e fico com vontade de violar alguma coisa bonita e pura. Essa menina podre de rica não é tão bonita quanto a Anja, mas a cara de inocente que tem prazer em sofrer injustiças que ela possui acaba por atiçar o meu instinto. Sou tomado por uma violência apavorante, quero foder todas as esposas do mundo que não casaram comigo, todas as esposas, seus maridos e os porras dos seus filhos imbecis; avanço no corpo daquela menina e vejo o sangue inocente jorrando como se fosse inocência líqüida escorrendo pelo cano de um esgoto, aumento ainda mais minha violência e o meu prazer chafurda como um porco em tanto sangue, que agora bebo como se fosse vinho destilado dentro de carne humana submissa. Sangue, sangue e sangue! Sangue por todos os lados, dentro e fora da minha boca, dentro e fora daquela menina que sente prazer em sentir dor, a menina podre de rica, que antes de ser rica é podre, como nunca antes vi alguém ser. Menina podre de rica, como se submete a tais abusos? Eu sei muito bem que você é. Sei quem gostava de você, e sei o que você fez para ele. Você preferiu o espancamento à gentileza, e agora leva essa vida inútil de violência a qual estou contribuindo agora com todo o prazer, sabe por quê? Por que você merece. Não sei por quanto tempo aquilo durou e nem sei ao certo o que fiz , mas pareceu-me estranho quando, ao ir embora pensando ouvir agradecimentos, a chuva desabou em mim como se eu fosse um árvore seca e desprovida de luz. Árvore seca, árvore seca, nunca saciada, parada eternamente no mesmo erro chamado noite; sento-me no meio fio, e vejo os reflexos vermelhos das lanternas dos carros nas poças, mas por um instante são o reflexo dos meus olhos. Olhos que brilham no escuro, vermelhos como estrelas, furiosos como as chamas das velas usadas em rituais de magia negra. Vejo o sangue escorrer pelas minhas mãos e aos poucos me convenço de algo que não quero pensar: Acho que já sei porque a noite nunca termina para mim.
Eu disse que não queria ver o casamento da menina bruxa porque sou um vampiro. Certamente foi verdadeiro o meu sentimento de não querer vê-la casada com outro e usar da desculpa de ser um vampiro para não entrar na igreja. Mas isso não afasta a única possibilidade que está se descortinando para mim: sou um vampiro. Sou uma espécie de mal ambulante, e essa constatação só me fez sentir pior, pois não quero que a essência perdida e sem esperança que reside em mim se espalhe; não quero outros caminhantes noturnos amargurados. As pessoas precisam ir para a igreja, para se casarem e verem os outros se casando.
Meu casaco cada vez mais se assemelha a uma capa, principalmente quando o vento o balança, mas talvez a minha consciência se assemelhe ainda mais: flamejante e vazia. Meus dentes estão fortes e duros como a minha alma e o meu coração seco num corpo tão encharcado de sangue que a chuva escorre. Finalmente acho que estou chegando a algum lugar. Resolvo caminhar um pouco, e perdido em meus pensamentos como estava, acabo indo parar na praça que há diante do fórum; há várias árvores retorcidas que se projetam como rabiscos em carvão contra o cinza do meu olhar que, não obstante, tem um certo prazer de se sentir assim como um quadro em que são riscadas criações impossíveis, e criaturas mais impossíveis ainda mas que são elas, senão um reflexo do que há de eterno em mim mesmo? Pequenas gotas de eternidade aparecem entre os rabiscos grosseiros das árvores, pequenas luzes, como vaga-lumes, passeiam silenciosamente pelo bosque negro. Vejo algo de feminino e infantil nessas luzes, há algo de familiar nelas, como se eu as tivesse conhecido em outro lugar, em outra ocasião. Elas, que passeiam entre árvores secas, se aproximam. Duas das luzes param perto de mim, na altura de uma pessoa; eu estremeço um pouco e ao fixar o olhar vejo reflexos nas lentes escuras dos óculos daquele desconhecido que encontrei naquele bar maldito, o mesmo bar onde estavam Leonor, Eglantine, a Anja e os outros.
Oh, olá! O que faz aqui?
O mais espantoso dessa seqüência de diálogo é que eu não sei quem é que disse o quê; se fui eu que iniciei, o se foi o desconhecido. De qualquer maneira, o resultado foi o mesmo. Olho para ele; tem chapéu preto de abas largas e enormes óculos escuros, mas o rosto dele é surpreendentemente bonito. Nós sentamos na guia da rua, iluminada pela luz alaranjada de um poste no qual algumas luzes voadoras dançavam.
e você?
Não sei ao certo. Eu sou um modelo, sabe? Desses que participam de desfiles de moda.
Eu não agüentei e soltei uma risada:
Você não riria se tivesse na minha pele, preso a algo que não entende. As pessoas me desejam, desejam o meu corpo o tempo inteiro, e eu não consigo escapar disso... é por isso que tenho de sair por aí com esses malditos óculos escuros.
Tem medo de ser reconhecido na rua?
Não, não é isso... que dizer, também é isso... mas eu uso esses óculos escuros para que as pessoas não vejam que estou chorando.
Fico em silêncio.
As estrelas dançam ao redor da luz laranja.
Bem... é realmente triste a sua história, amigo. Mas não vejo em que isso lhe torna um monstro.
Sabe o que eu choro? Você quer saber que PORRA é que eu choro?
Ele tirou os óculos e mostrou os olhos vermelhos, de onde escorria um líqüido grosso. Eu fiquei curioso, e com os dedos aparei algumas lágrimas dele. Levei ao nariz para ver se identificava o que era. Fiz uma careta de nojo:
Mas que merda é essa? Você chora porra!!!
Sim, meu amiguinho; eu choro porra. A porra é a lágrima do meu corpo cansado de ser usado como um objeto, cansado de ser desejado... nunca ninguém se interessou de verdade por mim, nunca ninguém quis saber mais da minha pessoa do que o que havia no limite do meu corpo. Homens e mulheres vão e vem na minha cama, homens e mulheres me usam e se saciam no meu corpo, e têm isso como um troféu, um prêmio para contarem para os outros. Quem... me diga quem... alguma vez se interessou de saber dos meus sonhos e sentimentos? Quem alguma vez prestou atenção nos meus defeitos, que tenho aos milhares? Não... o que querem é o expoente do corpo, do qual a minha porra, que lambem com tanta sofreguidão, é a coroação das virtudes da minha maldita carne. Se soubessem o quanto me fazem mal me desejando dessa maneira tão baixa e tão monstruosa! Como eu queria ser feio, pobre e anônimo... ao menos assim eu teria certeza que a pessoa que estivesse ao meu lado porque realmente se interessou pelo que meu coração pode dizer a ela. Mas, como isso não acontece, sigo chorando lágrimas de porra pelos meus olhos transtornados... e no fim, todos os motivos pelos quais o olho pode chorar não passam de uma porra, mesmo.
Ele calou-se e colocou novamente os óculos escuros, e abaixou a aba do chapéu sobre a testa, como se quisesse se proteger. Eu quis tranqüilizá-lo:
Sossegue, irmão. Você é uma criatura fantástica. Mas não um monstro.
Certamente ele disse você também não é nenhum monstro. Diz que é um vampiro, mas duvido. Monstro é esse cara que está nos jornais ele apontou uma folha de jornal no chão, parcialmente encoberto pelos respingos da chuva na terra que matou uma jovem no porão e a devorou parcialmente. Esse, sim, é um monstro.
Dito isso, ele se foi, com sua silhueta envolvida numa névoa. Ele, seus óculos e seu chapéu de coveiro me fizeram lembrar o vocalista de uma antiga banda. Eu ouvi essa banda pela primeira vez com a menina bruxa, dentro da garagem da casa dela. Passamos a manhã inteira conversando sobre bandas naquela garagem numa paz que nunca mais eu tive na minha vida; era uma manhã de segunda-feira, distante e bela, com céu muito azul, poucas nuvens altas em forma de espinha de peixe. Tudo era tranqüilo e calmo, e de tarde, quando ela ligou no meu serviço, conclui que aquele era o dia mais perfeito da minha vida. Dia maldito, antes você nunca tivesse existido, pois foi nele que eu tive a sensação fulminante de estar apaixonado por ela. E desde então ela se tornou uma obsessão para mim. Sempre foi mais esperta, mais segura, mas sensível... enfim, ela estava anos-luz à minha frente. Não sei realmente se era amor ou inveja o que eu sentia por ela; com certeza uma mescla das duas coisas. No início, tal um vampiro, eu suguei tudo quanto poderia extrair dela; seus gostos e manias. Mas só isso não bastava para mim; eu precisava comê-la. Sou um selvagem. Sou um leão. Sou eu.
Eu dou um suspiro. Eu a matei.
Estou cansado disso. Tudo. Arranco com força, raiva e fúria o meu casaco feito da noite, a casca que me protege e me permite enxergar nas trevas, e a arremesso longe. Tudo fica escuro tal qual era dantes; mas não faz mal; eu mereço realmente a escuridão como um morcego cego que sou. Vou caminhando, dando tropeçadas e caindo no chão, tateando no escuro, perdido, solitário e triste.
Escuro.
Escuro total.
Nenhuma luz.
Medo.
Tristeza.
Profunda... tristeza.
Nunca mais a luz.
Tateando no escuro.
Por horas.
Por dias.
Aflição.
Batendo a cabeça.
Caindo.
Sofrendo.
Chorando.
No escuro.
Dançando.
Lembrando.
Em silêncio.
Cheiros.
Cheiro de poeira.
De tábuas.
De porão.
Mãos trêmulas tateiam.
Um interruptor.
Ligo.
Lâmpada se acende.
Estou no porão.
Estou no porão!
Olho para o chão; sinais mágicos, círculos desenhados em vermelho. Mas parece que estão ali faz tempo. Olho para minhas mãos; vejo uma aliança dourada na mão esquerda; será? Tiro para conferir o nome que está nele; não, não será. O nome é outro. Maldição. Sinto que tenho mulher e filhos. Olho em volta; a luz amarelenta da lâmpada revela um baú num canto, coberto de teias de aranhas.
Abro-o.
Vejo o seu conteúdo, o que restou da menina bruxa.
Fecho os olhos e choro. Choro uma dor insuportável.
Ali estão velhos discos, fotografias de nós dois juntos, momentos felizes, cartas de amor, bilhetes reveladores, pequenos presentes, pedaços de galhos lembranças dos parques em que passeamos papel de bala, guardanapos amarelados com corações borrados, desenhados por uma caneta preta, enfim, todos os restos mortais de um amor esquecido, o amor que eu senti pela menina bruxa, sepultado naquele baú como um esqueleto num esquife.
Não, menina bruxa. Não foi você quem me levou ao maldito porão de sua casa. Fui eu quem levou você ao porão do esquecimento, depois que nós terminamos o namoro. Você entrou no meu porão reduzida nessas pequenas lembranças. Eu quis esconder tudo o que lembrasse você. "Matei", realmente, qualquer vestígio de que um dia nós estivemos juntos, pois me era vergonhoso admitir que fui eu o único responsável pela morte do nosso amor, um amor que vinha dos tempos de nossa adolescência. Mas uma parte de você continua vivendo dentro de mim, como se eu a tivesse devorado. Somos todos canibais, meu amor, e aposto que uma parte minha continua dentro de você.
Minha respiração está ofegante, e meus dedos tremem com aquele baú nas mãos. Olho meu relógio ainda um presente seu, que preservo cinco e meia da madrugada. O sol está para nascer. Lembro-me de uma viagem que nós fizemos juntos e vimos o sol, com todo o seu esplendor dourado, se levantar diante de nossa janela.
Mas é melhor dar um fim em todas essas coisas.
Saio do porão como uma criança que deixa um útero escuro mas de certa maneira confortável. Viver perdido em lembranças obscuras é cômodo. Mas é preciso dar um jeito nisso. Olho o céu noturno, vejo o olho vermelho do grande deus Marte. Respiro fundo o sereno, ponho o baú que estava embaixo do meu braço no chão. Abro a tampa. Tiro um isqueiro de dentro dele; ainda têm carga. E começo a tocar fogo em todas as minhas lembranças.
Nesse momento uma explosão de luz começa a se fazer no horizonte leste; é o Sol nascendo. O baú em chamas amarelas, o horizonte em chamas amarelas, as cinzas que sobem, e as que descem. Vejo o Sol, um esplendor de poder, e as cinzas sobem, e sobem entre chispas e fagulhas, e as que descem, cinzas por todos os lados, lembro de algo sobre os vampiros não poderem ver o Sol, e acho uma pena, vendo um Sol como nunca vi na minha vida, mas essas cinzas, oh, essas cinzas que estão me cobrindo... cinzas, cinzas, cinzas.... minhas mãos, meus pés.... cinzas, cinzas, cinzas.... minha cabeça, meus olhos, meus pensamentos.... cinzas, cinzas, cinzas... meu coração, meu amor, minhas lembranças... cinzas, cinzas, cinzas...
FIM
03/06/2005
Josiel Vieira, ao som de Ariadne
Alice
(by Kid Abelha)
"Tantos sonhos morrem
em poucas palavras
Um bilhete curto
e já não há nada!...
Alice, não se esqueça
do nosso amor!
Será que eu tenho sempre
que te lembrar? Todo dia,
toda hora,
eu te imploro, por favor!"
(...)