MADAME ZORAIDE
Auto-ajuda,
previsões, amarrações p/amor
Faz e desfaz
qualquer trabalho
Traz a pessoa
amada em 7 dias
Tira encostos de
implantes cerebrais
Alguém entrou
na tenda holográfica de madame Zoraide:
— Olá. Eu
gostaria de encontrar uma pessoa.
—
Quer encontrar um amor, meu bem?
— De certa maneira, sim.
Ela o
observou de soslaio. Raramente recebia a visita de transgênicos (as asas dele
eram lindas e brilhantes) vestidos de preto. Mas logo fez silêncio e fingiu se
concentrar na bola de cristal:
— Vamos lá...
eu vejo que você vai encontrar uma menina... muito bonita... vai casar com ela,
ter filhos, ser feliz e...
Antes que
pudesse completar a previsão, o transgênico de preto a interrompeu:
— Eu só vim
aqui porque sei que lá no fundo, em algum recanto obscuro de sua alma, existe
realmente uma sensibilidade mais acurada. É dela que por hora necessito.
Portanto, poupe-me do resto.
“Que
consulente estranho”, ela pensou já com um certo espanto desconfiado.
— Me desculpe
– ele sorriu – eu sempre serei estranho e as pessoas nunca se acostumarão
com a minha presença; acabo de vir da
casa do prefeito e ele também...
— Você acaba
de vir da casa de quem?! Você o conhece?!
— Bem, no
fundo eu conheço todo mundo. Para mim, todos são iguais – ele informou com
indiferença.
— Você tem
toda razão, meu jovem – ela falou amigavelmente – e dessa vida nada se leva.
Mas como vai o prefeito? Ele continua doente?
— Ele não
está mais doente.
— Que bom!
Mas o que posso fazer por você, querido?
— Já disse o que eu quero. Hum... você
comeu muita porcaria durante sua vida, Zoraide. Carnes gordurosas, doces,
chocolate... – o misterioso homem a informou, distraidamente.
— Como sabe
disso?! Você também é vidente, não é mesmo? Logo percebi. Mas você está certo.
Preciso parar com o exagero senão qualquer dia desses meu coração vai ter um
ataque e vou bater as botas.
O cara de
preto ouviu calado. Tirou uma fotografia do bolso e deu para a vidente.
— Sabe onde
posso achar essa pessoa?
— Hum... é
uma antiga namorada?
— Não.
— Ela está
desaparecida? Por que não vai a polícia?
— Afinal,
mulher, você pode me ajudar ou estou perdendo meu tempo?!
Madame
Zoraide não gostou do tom de voz dele.
— Quem é
você?
O olhar
sinistro dele tornou-se abissal como um buraco negro:
— Quer saber
quem eu sou? Ou talvez queira saber meu nome?... O seu tarô está ao lado da
bola de cristal. Tire uma carta ao acaso e saberá.
Assustada,
Madame Zoraide obedeceu.
O arcano que
tirou foi o mais eloqüente de todos:
arcano 13
A Morte
— O que... o que quer de mim? – ela
perguntou pálida. Ele tirou um cigarro e começou a fumar calmamente:
— Lembra da história do chocolate? Pois
bem, lamento informar que você baterá as botas graças a isso. Você passou
décadas levando uma vida sedentária e
destruindo o seu coração com porcarias – e ao dizer “porcarias”, ele soltou a
fumaça do cigarro de uma maneira elegante, como se não ligasse a mínima para o
que acabara de informar.
— Mas se eu ajudar você o que ganho em
troca?
— Nada.
Só ofereço uma oportunidade de fazer uma boa ação: ajude-me a encontrar o que
procuro e duas pessoas deixarão de sofrer.
— Pensei que
você soubesse onde estão todas as pessoas – a vidente comentou.
— Esse é um
caso especial. E não é atrás de uma pessoa que estou realmente atrás. Mas não
tente compreender.
A vidente
refletiu por um longo tempo de olhos fechados com a fotografia na mão. Depois
falou com segurança:
— Tente procurar na
COHAB.
— Obrigado. Sei que está dizendo a
verdade. Mas terei de levá-la assim mesmo.
(e foi a última previsão dela).
Suas
penas eram muito alvas, sendo que as da ponta das asas possuíam refulgências de
arco-íris quando o sol batia nelas. Por outro lado, a roupa era preta como uma
noite de pesadelo num depósito de asfalto.
Transgênico.
Ultimamente diziam isso quando o
viam.
Adiantaria dizer que era um anjo?
E um dos
piores tipos de anjo: apesar dele não ser propriamente a Morte, era um dos
anjos da Morte.
E agora? Esse era um caso realmente
difícil para ele, que invariavelmente sempre sabia onde encontrar aquilo que
precisava morrer.
As asas bateram furiosamente,
deixando uma nuvem de poeira multicolorida, e ele num instante voou para cima
de um prédio bem velho e coberto de fuligem. A névoa de poluição na cidade
tinha uma tonalidade dourada, mas foi ficando laranja e por fim abóbora.
Observou a paisagem.
Lembrou-se do que disse a uma
viciada, certa vez:
“Sabe aquela história de que as pessoas
morrem na hora certa?”.
“Yes.
Minha mãe sintética sempre me dizia isso”, ela disse.
“É conversa
fiada. Algumas pessoas são estúpidas o suficiente para desafiarem a Morte,
quando poderiam muito bem prolongar sua existência miserável nesse vale de
lágrimas”.
“Ei, cara, eu
me faço e você e quem fica na
nóia?”.
“Gíria
legal, menina – ele sorriu – Nóia é Aion de trás para frente. Isso me faz
lembrar um poema... aquele do corvo,
sabe? Raven... crocitando seu próprio nome ao contrário: never,
never, never. Percebe? Uma besta maldita e alada, como o corvo, anunciando
uma fatalidade que é ele próprio... é algo que deixa qualquer um maluco, mesmo
seres não-humanos como você e eu, muito embora sejamos essencialmente muito
diferentes. Enfim, farei um favor a você: vou beijá-la, e então sentirá o que a aguarda se não largar desse vício
idiota... é claro que estou me referindo à saudade que sente do seu
ex-namorado”.
— Sim, a
COHAB lá adiante é o güeto das
variedades não-humanas... tem todo tipo de lixo genético e outros tipos de
aberrações... sim, sim, muitas putas artificiais também moram por ali... ainda
bem que sou um decente cavalheiro e juro por minha mulher e filhos que nunca...
heim, pode repetir? É, ouvi um boato sobre fantasmas e mortos-vivos por lá, mas
isso é conversa de quem não tem mais o que fazer; francamente... por falar
nisso, viu que o prefeito acabou de morrer doente? Em quem você votou na última
eleição? Não importa, logo se vê que você é um homem de bem. Não é horrível que
homens de verdade baseados em carbono, como nós, tenhamos de conviver com essas
obscenidades existenciais da COHAB? Se eu tenho um bom coração? Claro que
tenho! No meu tempo as coisas eram muito melhores... cof-cof... havia ordem,
decência... cof-cof-cof... tudo era puro, como a moral e o DNA... cof... a
polícia cuidava dos marginais que... cof cof... malditos subversivos... ei,
cof...cof cof cof cof... ei, mas você tem asas cof eu... não... estou... meu
coração... não está bom...
(naquela
manhã encontraram o corpo daquele respeitável senhor num quarto duma prostituta sintética. Bem, mas as pessoas têm de
morrer um dia, foi isso o que comentaram).
— Droga! Como
alguém pode viver num lugar desses? É desumano! – o anjo da Morte opinou depois
de sentir o cheiro de miséria e
exclusão da COHAB, ou Confinamento Obrigatório de Humanóides
e outras Aberrações Biológicas .
O que era essa nova humanidade
não-humana que estava surgindo no mundo? Era vista como um refugo social, mais
nesse caldeirão aos poucos estava sendo misturado o futuro da civilização.
Eram humanos? Com certeza não.
Mas muitos tinham algum DNA humano.
Robôs? Muito menos. Robôs eram
objetos rústicos, com partes mecânicas rígidas. Nesse povo as estruturas
artificiais eram dispostas pelo corpo em camadas flexíveis e maleáveis, com
funções idênticas aos tecidos orgânicos, como por exemplo crescer, se regenerar
e produzir hormônios.
Mutantes? Talvez. O DNA que possuíam
era adulterado.
A propósito, não era só por usarem
coisas adulteradas, contrabandeadas e falsificadas e viverem em COHABS que essa
nova humanidade era muito parecida com as camadas mais pobres da antiga
humanidade: eles estavam quase todos desempregados, sofriam todo tipo de
discriminação, apresentavam graves problemas de saúde física e psicológica e
tinham graves problemas familiares. Não obstante, era neles que a cultura
estava viva e se desenvolvia, enquanto que em outros setores da população a
cultura estava quase que inteiramente exaurida.
O anjo da Morte passou no exato
momento em que gangues de mutantes estavam resolvendo suas diferenças genéticas
e culturais numa briga mortal; depois
passou num lugar em que traficantes de DNA artificial estavam se matando pelos
pontos de fornecimento; depois deu uma xeretada num miserável apartamento em
que a mãe clone com terríveis “gambiarras” genéticas pelo corpo estava batendo
com o quente ferro de passar roupa na cara do seu bebê transgênico que não
parava de chorar (por estar doente); depois sentiu-se na obrigação de ir em
outro apartamento ver o que aquele marido traído, cujos órgãos internos foram
cultivados dentro de animais clonados,
iria fazer com aquela afiada faca de cozinha; e ainda chegou a tempo de
ver um moleque (cheio de próteses
biônicas ultrapassadas) acender um
fósforo e o aproximar da bomba de
fabricação caseira que tinha orgulhosamente feito sozinho com os tentáculos das
costas. Excelente trabalho, o anjo da Morte pensou, mas o pavio é ridiculamente
curto.
— Pelo menos
agora é melhor do que no tempo em que eu andava pela Palestina – comentou em um
bar quando foi tomar uma dose. A verdade é que não ligava a mínima para os
humanos, tinha de ser assim, não podia se apegar às pessoas. Mas na Palestina
ficava deprimido toda vez que tinha que chegar perto da população inocente frações de segundos antes dos mísseis
lançados pelos helicópteros explodirem.
Porém, mesmo sua carreira tinha seus momentos deliciosos. O melhor momento foi
quando chegou perto daquele cara de bigode e falou: “Farei o instante de dor de
seu suicídio durar mil trilhões de anos, senhor Adolf Hitler! ”. Esse anjo da Morte era diferente, e por isso
mesmo foi chamado para aquela missão especial.
O bar foi assaltado e o bêbado para quem o anjo da Morte contou essa
história levou um tiro na cabeça.
— Ora, uma
colega de profissão! – ele disse para um anjo da Morte feminino que
estava numa encruzilhada esfumaçada de mãos na cintura. Eram dez da manhã, hora
em que terríveis entidades apareciam nas encruzilhadas da vida – como vai?
– perguntou.
— Estou cansada. Ultimamente esse
trabalho está me matando. Mas o que faz
por aqui? Afinal, a responsável por levar os seres viventes daqui para o além
sou eu. Se bem que toda ajuda é bem-vinda. Coisas estranhas estão acontecendo
por aqui.
— Vim só bater
um papo amigável com essa pessoa – e
ele tirou a fotografia do bolso – conhece?
— Sim! Mas tem
certeza que quer conversar com ela? Eu pergunto porque faz uma semana que eu
mesma levei a alma dela embora; ela
está morta.
— Hoje em dia isso é cada vez mais
relativo – o anjo da Morte suspirou lacônico – um dia desses ainda vão nos
aposentar.
— Essa menina morreu na cadeia. De
qualquer forma, o cadáver está no cemitério daqui. É só seguir adiante e
dobrar à esquerda quando vir um muro
onde está escrito “a cura de tudo é a reeleição do prefeito”.
— Obrigado
pela informação e até logo, você foi muito gentil. Só mais uma curiosidade: o que faz parada nessa esquina?
Mas ela não
precisou responder:
Dois caras que gostavam da mesma menina
se encontraram exatamente ali, armados e furiosos. Uma rápida discussão e num
piscar de olhos estavam... hã...
— Já entendi –
disse ele, olhando para os recém-defuntos – é como os humanos dizem: “o amor é
uma flor roxa... blá blá blá”.
— E roxo é nossa cor predileta; os
humanos poderiam perceber essa analogia – ela comentou já se aproximando das
duas almas atônitas – bem que o amor
poderia não existir. Assim milhares de idiotas
poderiam levar uma vida mais saudável. O amor só trás sofrimento.
— Mas, tipo, sem amar para quê
viver? Teríamos muito mais trabalho se os humanos não amassem. Todos
resolveriam esticar as canelas ao mesmo tempo.
— Acho que tem razão – ela ponderou,
já levando as duas almas para o além.
Aquele
cemitério era um tormento para todos os anjos da Morte. De vez em quando os muros brancos de cal eram pulados por cadáveres não-humanos em
decomposição que saíam correndo e se esgueirando como marginais, felizes por
voltar a vida ainda que por pouco tempo.
— Ei, voltem
aqui, seus patifes! – o anjo da Morte esbravejou, tirando sua foice das costas
e acenando para eles. Como se atrevem a perambular por aí?!
A sua foice
que a tudo ceifa girou, a vários dos mortos-vivos tombaram.
— Tenha
piedade, Morte! – alguns imploravam -
nos deixe viver!
— Você merecem morrer mil vezes, seus
palhaços – e ele continuou implacável, girando a foice como um mestre de artes
marciais – por profanarem esses corpos não lhes pertencem. Malditas
consciências eletrônicas! Esses pobres cadáveres não são disquetes para vocês baixarem neles a hora que quiserem!
Mas o trabalho do anjo da Morte era
inútil porque assim que ceifava uma consciência de um corpo, ela voltava para
as redes telemáticas até fazer um novo download no sistema de algum cadáver em
boas condições do cemitério. Por fim ele desistiu; afinal, a sua missão ali era
outra.
— São os demônios dos novos tempos – ele
concluiu, vendo mais e mais cadáveres fugindo do cemitério, cada um assombrado
por uma consciência virtual – e é impossível expulsá-los definitivamente. Bem
que poderia aparecer um santo capaz disso...
E era bem peculiar que o ser que
precisava persuadir a morrer se encontrasse em meio a esse lugar onde a morte
aos poucos ia se tornando obsoleta.
O anjo da
Morte procurou e procurou, mas não achou a pessoa. Então resolveu encher a cara
de cachaça numa espelunca para esquecer o seu fracasso. Estava se lembrando que
o seu amigo chamado Acaso costumava atuar quando tudo o mais parecia perdido
quando uma voz lhe chamou:
— E aí, Morte;
beleza?
Ele ficou
surpreso:
— Sabe quem
sou?... ei, é você mesma quem estou procurando!! Que sorte!
— Muita gente me procura desde que trabalhei
por alguns dias como puta. Mas, chega aí, Morte, vamos tomar um negócio – a
menina convidou, como se fosse a coisa
mais normal do mundo convidar o anjo da Morte para tomar uma birita. E ele
aceitou
— As pessoas
têm uma tendência a achar que sou um ser humano transgênico e tal – ele
desabafou, entornando de uma vez só um copo de cachaça ao mesmo tempo que ela
– Mas como sabe quem sou, isso encurta
em muito a conversa que vamos ter.
— Moro nesse corpo não-humano que estava dando sopa
no cemitério da COHAB faz uma semana – ela informou passando a mão no seu corpo
podre –Dizem que é de uma menina sintética que se enforcou na cadeia. Não sei
como pessoas se matam se a existência é tão bonita. Nós, consciências
virtuais, vagamos como almas penadas na
internet; e sabemos muito bem o que é o limbo. Damos qualquer coisa para ter um
corpo de verdade, ainda que seja de alguém que morreu.
— Eu sei muito bem o que você é – ele disse, enigmático.
—Os túmulos são ligados em rede
através de gambiarras pelo pessoal da COHAB... eles fazem negócio com
consciências artificiais como eu encontradas vagando aleatoriamente e que querem “baixar” em corpos reais. É moleza fazer um download de
consciência num corpo não-humano desses, pois sempre possuem alguma
tecnologia que continua em bom estado
mesmo depois do falecimento... pena que só dá para a gente viver nesses
cadáveres por alguns dias no máximo – ela sorriu – acho que por isso você está
aqui, anjo da Morte; deve achar que eu sou uma morta-viva e em parte está
certo... Almas, consciências e arquivos... tudo anda meio misturado...
—
Menina, menina... você não tem mais o direito de existir.
— Claro que tenho direito de existir. Quer
algo mais legítimo a uma consciência do que isso?
— Não finja
que não sabe do que estou falando.
— Escuta,
cérebro de passarinho, o que insinua que eu deva saber?
— Trata-se do
que você é e do que não é.
— Continue, palhaço; está interessante.
— Você não é uma consciência,
menina. Você é um sentimento que acha que não precisa acabar.
ENTRE PARÊNTESIS I
(Pela enésima vez
ele abriu a caixa de correios com uma secreta esperança no coração. Não que
gostasse de entrar na rede; por muitos anos sequer possuiu um maldito e-mail,
muito embora fosse um não-humano com diversos terminais de conexão pelo corpo.
E pela enésima vez sua esperança se entalou na garganta ao ver que a mensagem
que tanto gostaria de receber, que tanto precisava receber... não veio.
Todas as suas horas de folga eram passadas na expectativa
obsessivamente ansiosa de receber esse e-mail... seria bem a contento que
recebesse a pouco provável mensagem de reconciliação com todo o seu corpo e sua
alma. (pouco provável? Totalmente impossível!! E ele sabia disto).
E nessa
expectativa ia vivendo... ou esquecendo de viver...
De tão distante,
acabara perdendo o emprego. Tornara-se tão selvagem e irascível que as pessoas tinham medo até de olhar para ele, e o
comentário é que tinha queimado todos os fusíveis do cérebro – como se em seu
sistema de informática biológica tivesse alguma dessas coisas. As dívidas se
amontoavam e não ligava a mínima para pagá-las.
Há anos que não cortava o cabelo ou a
barba.
Há anos que não tinha absolutamente
nenhuma vida social. Não saía nos fins de semana com os amigos; não ia mais nos
cinemas (coisa que gostou muito em tempos idos) ou nas baladas. Ficava acuado
em seu quarto como uma fera. Já não bebia, pois seu paladar eletrônico e sua
alma perdera o gosto pelas coisas.
Tudo isso aguardando que o e-mail dela viesse à tona de alguma rede
telemática obscura, mas seu discernimento desconfiava de que o que lhe
aguardava submerso nesse mar virtual era o pavoroso monstro da decepção.
Mas agora...
o que importava? Sem ela, sentia que era ninguém.
E acabava
indo dormir mais deprimido ainda.
ENTRE
PARÊNTESIS II
Na boca da menina havia um gosto
amargo desde que ele tinha ido embora.
As ruas,
sempre coloridas, de repente ficaram pretas. As coisas ficaram pretas, todas
elas; um maldito eclipse aconteceu em sua vida. Até mesmo os malditos pombos
pareciam pedaços de escuridão no céu negro.
A amargura de
sua vida tinha pulverizado sua costumeira fortaleza. Ela sempre fora uma menina forte; as pessoas sempre contavam
com ela nos momentos difíceis.
Mas em seu
momento difícil ninguém quis mais saber dela. E sequer seu ex-namorado ligou
para saber como ela estava.
Sentia-se sem
braços.
Mas seu
braços (os quais não sentia mais) estavam cheios de marcas de agulhas. E agora
não estava mais aí com nada...
... bem que
queria que isso fosse verdade. Mas lá no fundo de sua alma brilhava algo que
fazia com que continuasse viva: o amor que ainda sentia por ele. E sentia um
medo enorme, desse seu amor desaparecer para sempre num abismo. Ultimamente
havia muitos abismos no mundo.
— Você fala
demais – a menina morta-viva disse com
voz embargada ao anjo da Morte – eu sou uma... eu sou uma... deixa pra lá. Já
não sei quem sou.
Ela ficou
calada num silêncio mortal, pois apesar de tudo sabia que a Morte nunca mentia.
Depois perguntou:
— Se eu não
sou eu, então quem sou?
—Você é o amor entre dois humanos
que se recusa a morrer. É natural que duas pessoas que se amam intensamente
acabem brigando por um motivo idiota e se separem para sempre, muito embora o
universo ainda se comporte como se eles estivessem unidos, e talvez por esse motivo você ainda exista
perambulando por aí como um fantasma. Mas é necessário que acabe de uma vez, pois eles estão sofrendo.
— Me deixe em paz! Eu não sou um
antigo amor! Eu sou uma consciência eletrônica!
—Não pense que por ser a Morte eu
gosto de ver pessoas sofrendo, pelo contrário: uma existência sofrida para mim
é como um soco na cara. Por isso, Amor,
morra de uma vez para que eles tenham uma nova chance de gostar de
outras pessoas.
— Por que não
vai botar um maldito ovo, anjo idiota? – o Amor tinha os olhos vermelhos – se está pensando que eu vou morrer, é melhor
você ir se foder.
( É assim
que o antigo amor fala. E lágrimas de amor; quem nunca as teve? )
—Convenhamos que sua existência é algo meio doentio – disse
o anjo da Morte.
— Cala a boca cala a boca cala a
boca cala a boca – o Amor que tinha se materializado no sistema operacional do decrépito corpo ciborgue com
forma de menina pôs as mãos nos ouvidos biônicos apodrecidos para não escutar
mais.
— É legítimo que não queira morrer; quem quer? Ainda mais
algo que vive em simbiose com a Vida como o próprio Amor! Infelizmente não posso levar você se não quiser me
acompanhar; é impossível matar o Amor se ele não deixar! Mas, agora que pensa
que é realmente uma consciência que existe... então comece a ter realmente
consciência e faça uma reflexão do que eu falei.
O Amor saiu
correndo, chorando.
A energia que
possuía era tão forte que uma de suas
lágrimas dissolveu a foice dele em três
pedaços como um jato de ácido. Pela
primeira vez em setenta milhões de anos esse anjo da Morte disse um palavrão:
— Merda! Minha
foice favorita!
O anjo da
Morte foi até um orelhão ali na COHAB e discou a cobrar para o Além, expondo suas
dificuldades para fazer com que aquele Amor batesse as botas. Concluiu que precisava de uma estratégia
toda especial e por isso resolveu pedir licença por alguns dias para não matar
ninguém, assim poderia bolar com mais calma um plano para fazer com que aquele
Amor passasse desta para a melhor de uma vez por todas.
Veio encontrar
a menina artificial onde o antigo amor estava incorporado alguns dias depois,
sentada no alto de um prédio da COHAB.
A manhã
recém-nascida deixava uma curiosa tonalidade cor de abóbora na névoa de
poluição que encobria o horizonte enegrecido de prédios.
E a menina
balançava os pés na beirada do prédio, sossegadamente. O anjo da Morte ficou
impressionado ao ver que no lugar onde ela estava sentada havia brotado minúsculas e coloridas flores,
tão coloridas quanto pequenas galáxias.
— Ei, como
você consegue isso? – ele perguntou.
— Isso o quê?
– a menina-Amor perguntou de cabeça baixa, continuando a balançar seus pés de
cadáver cibernético.
— Essas
flores? É impossível nascer flores num lugar tão poluído. E que perfume
gostoso!...
— Do quê está
falando, idiota? Não tem flor nenhuma aqui – ela respondeu.
O anjo da
Morte só então percebeu o óbvio: o Amor deixa tudo mais bonito.
Se sentou do
lado dela.
E sentiu uma
coisa estranha...
— Puxa! –
disse, meio desconcertado – até que ser mortal tem suas vantagens. Então é você
o que eles sentem quando amam?
— Disse “ é
você” com uma entonação de “é isso”... quando vai entender que eu
não sou uma coisa, cara? – ela sussurrou, sentida – mas não o culpo. Você é a
Morte e só entende de sofrimento e coisa e tal. Mas muita gente pensa como você
e me trata como coisa.
— Me desculpe.
Mas, sem querer ofender e já ofendendo... por falar em “coisa”, por que você
encarnou nesse corpo cibernético apodrecido? Há tantos corpos mais agradáveis... um anjo me contou como
essa menina se enforcou numa cadeia...
— Você não
entende nada, Morte. Às vezes as pessoas mais deprimidas são justamente as mais
carentes de amor. Por isso eu senti uma irresistível vontade de encarnar nesse pobre cadáver carente.
— Puxa! Você
devia escrever um livro de auto-ajuda! – o anjo da Morte disse, sorrindo.
— E você devia
tomar no cu – o Amor respondeu.
O anjo da
Morte parou de rir.
Ficou sem
graça.
— Não sabia
que o amor era tão brigão – resmungou, de mau-humor.
— Não tente me
entender. Iria sacudir a poeira de caixão que há sobre os poucos neurônios de
seu cérebro mumificado.
— Sou um
espectro. Não tenho cérebro.
— Hum... isso
explica porque a Morte é uma coisa tão estúpida – e a menina-Amor deu uma
sonora risada que ecoou pela cidade cor de abóbora.
(Naquele mesmo
instante 358 pessoas que ouviram o riso do amor no ar se apaixonaram
inexplicavelmente).
— Como eu
gostaria de fincar minha foice nesse seu olhar pretensioso... – o anjo da Morte
sussurrou de uma maneira sombria – mas infelizmente o Amor se acaba sozinho – e
depois de uma pausa, acrescentou, irônico – e acaba sozinho.
— Acaba de
descobrir qual analogia que me aproxima
desse cadáver não-humano suicida – o Amor exclamou.
— Espero que
também siga o exemplo dele.
O anjo da
Morte ao falar isso estava querendo dizer: “espero que se mate, também”. Mas o
Amor entendeu outra coisa – como aliás, lhe é peculiar; o amor sempre
entende outra coisa. Mande a pessoa chata que gosta de você engolir uma boa
dose de ácido sulfúrico e ela sentirá que você disse “eu te amo”.
— Eu tentei
fazer isso, anjo. Quis imitá-la, pois admirei muito a menina não-humana cujo
cadáver estou usando agora. Ela partia corações; eu resolvi experimentar fazer
o mesmo trabalhando por algum tempo como prostituta. Senti uma certa inveja
intelectual dela, sabe?
— Caramba, é
preciso estômago para ter relações sexuais com uma morta-viva piranha! – o anjo
da Morte fez uma cara de nojo. Depois indagou com interesse – E aí, conseguiu algum freguês?
— Centenas
deles – a menina-Amor comentou lixando as unhas – Mas eu fiquei de saco cheio quando alguns fregueses juraram amor
eterno justamente para mim, o Amor Eterno. E quanto mais eu mandava esse povo
ir se foder mais eles se apaixonavam por mim. É uma coisa para se pensar...
— Como disse
antes, filha, não posso pensar porque não tenho cérebro. Mas para mim basta o
enrosco de agora saber que o amor não
tem nenhuma vergonha na cara.
Ela lhe
sorriu.
— Sabe que
esse cadáver tem a ver com um crítico? Pois é. O melhor de todos os críticos é
o tempo. É como disse Nietzsche: o que não nos mata nos deixa forte, se é que
me entendeu.
— Essa não! – o anjo da Morte disse
visivelmente consternado – O amor gosta de filosofar! Maldita a hora em que eu
aceitei esse caso! Da próxima vez vou é pegar o maldito emprego que recusei na
década de 80, o de ser o arauto da III Guerra Mundial.
ENTRE PAREDES I
— Escute,
quando vai entender que não sou sua ex-namorada?!
A menina
estava deitada nua de braços cruzados, olhando séria para ele, que sentara na borda da cama.
— Me desculpe.
Mas eu só pedi que...
— Ponha-se no
meu lugar, João. É meio deprimente
fazer certas coisas só porque sua “ex”
fazia.
Ele abaixou a
cabeça, abatido.
— Tem razão.
Ela se sentou ao lado dele e o
abraçou.
— Olha, eu entendo. Já tive vários outros namorados antes
de você, e por alguns deles eu quis me matar. Mas a vida continua! A gente pode
fazer várias coisas juntos que não tenham nada a ver com que você fazia com a
puta de sua nam...
— Ei, ei... com a puta de quem?
Repita isso!
A menina dessa vez explodiu de
raiva.
—
Porra, com a puta de sua namorada, João. Seu viado!
E pegou a
roupa e foi embora.
— Ai, João,
assim...
O atual
namorado de Maria parou e exclamou
furioso para ela:
— “João”?!
quem é esse viado? Sua puta!
Um
grupo de jovens arruaceiros tirou um barato do anjo da Morte:
—
Olha lá, galera! Um gótico com asas de
pardal! Que ridículo!
A
juventude adora viver perigosamente... mas, como havia feito um pedido para não fazer hora extra enquanto
não levasse o Amor embora, resolveu deixá-los ir em paz. E foi procurar
novamente o Amor.
— Você de novo?! – por que não me deixa ir em
paz? – o Amor encarnado na menina sintética morta esbravejou.
Ela
estava no parque, lugar favorito dos namorados.
—
Sabe perfeitamente que aqueles dois humanos até tentam amar outras pessoas, mas
em vão. Enquanto você não morrer de uma vez por todas, eles não amarão de
verdade outra vez, e sabe muito bem
disso – disse o anjo da Morte comendo um cachorro-quente.
—
Mas o que tenho a ver com isso? Se eles não querem amar outras pessoas, o
problema é deles. Eu gosto de existir, cara.
—
Olhe só para você – o anjo disse, passando mais mostarda no
cachorro-quente – está perambulando por aí como uma morta-viva. Você já morreu
há muito tempo, Amor, mas ainda não se deu conta disso.
—
Pare de dizer bobagens. Ei, aquele é o banco em que tudo começou! – o Amor
disse com alegria ao reconhecer o banco em que os dois deram o primeiro beijo.
Eles
foram até lá. O banco estava sob a sombra violeta da folhagem de uma velha
árvore.
—
Os dois faltaram na escola nesse dia – comentou baixinho – e olha que era dia
de prova. Mas eles estavam tão a fim um do outro que não ligavam para mais
nada. Quando sentaram aqui não sabiam o que falar; um ignorava totalmente os
assuntos que o outro se interessava. Por isso resolveram encurtar logo a
história e se beijaram sem mais delongas. Passaram a tarde aqui.
—
Como se lembra disso?
—
São essas lembranças que compõem meu silêncio – o Amor disse.
— Isso é
discutível. Aliás, você própria é muito discutível. Sempre achei que o amor não
gostasse de definições, mas você passa o tempo inteiro se definindo. Parece até
uma dessas humanas de quinze anos que compram revistas de fofocas.
— Definir é
envaidecer, e sou muito vaidosa – a menina-Amor retrucou sem se abalar.
— Mais
definições – o anjo da Morte suspirou cansado – acho que vou pedir para outro
anjo da Morte cortar meus pulsos; não agüento mais ouví-la. Como o Amor é
piegas! Por mim podem pegar esse maldito banco e o explodir com bombas
iraquianas que não ligo a mínima. Estou pouco me lixando para os rituais dos
humanos, contanto que você bata logo as botas. Sacou?
— Não, não
saquei.
— De uma vez
por todas: você precisa abotoar o paletó de madeira. Comer capim pela raiz. Ir
para a cidade dos pés juntos. Esticar as canelas. Passar desta para melhor.
— Ainda bem
que você não é humano, anjo da Morte. Jamais conseguiria que alguém o amasse
sendo tão mal-humorado.
— Eu apenas
ceifei a vida de alguns bilhões de seres viventes nos últimos bilhões de anos.
Por que deveria ser mal-humorado?
— Mal-humorado
e cínico – o Amor completou – deve achar que eu não valho nada, não é
mesmo? Acredita que matar é mais
importante que amar? Não precisa me responder. Seu olhar já diz tudo.
— Os seres
viventes precisam morrer. É uma questão de equilíbrio ecológico e tal - o anjo da Morte falou e fez um gesto de
elegante descaso.
— Oh, não!
Provavelmente na Idade Média você diria que a Morte era uma questão de justiça divina. Agora vem com essa conversa
mole ecológica.
— Fale o que
quiser, mas não sairei do seu pé enquanto não bater as botas, seu Amor irresponsável!
EM REDE I
Fazia dias que João se recusava a comer,
jogado num canto.
Estava muito magro. A sua barba e o
seu cabelo desgrenhado eram a medida exata do seu esgotamento.
Trancou-se no quarto e se
conectou on-line o tempo inteiro
em ambiente de realidade virtual 3 D, através de gambiarras assustadoras em que
fios eram ligados diretamente do poste da rua nos nervos dos seus braços, sem
nenhuma anestesia local – geralmente esse tipo de acesso tridimensional era
feito por pessoas ricas através de nano-implantes celulares, mas João era um
filho da puta pobre que morava numa COHAB. Com essa gambiarra feita “nas
coxas”, decerto morreria de infecção generalizada.
Se Maria estivesse conectada em
algum lugar, mesmo com pseudônimo, ele iria encontrá-la. Se recusava a aceitar
que talvez isso nunca aconteceria, e olhava para a internet como quem olha para
uma profecia.
(A inanição
turvava os seus sentidos tanto quanto sua fé).
Maria
desabou num canto, completamente entorpecida. Balbuciava, espumando por entre
os dentes trincados:
— J-j-j...
volta pra mim... J-j...
E sentiu que
conversou com o anjo da Morte e que este a beijou.
— Muito bem,
Amor; Eu desisti de convencê-lo a morrer. Mas venho apenas informar vou fazer
uma visita de trabalho aos nossos dois amigos chamados João e Maria. Graças a
você, Amor idiota que insiste em não acabar, os dois não querem mais viver.
Tanto fizeram que agora irei levá-los. Espero que esteja feliz. Está livre para
perambular por aí como um fantasma. Passar bem.
O anjo da
Morte foi caminhando lentamente para fora da COHAB , com uma assustadora foice
de prata nas mãos e usando sua aparência mais temível, que era a de esqueleto envolto num manto negro. A
menina-Amor acompanhou a marcha com um nó no coração. Não podia fazer nada. Ou
podia?
— Espere!
— Você teve
sua chance, Amor – a Morte disse sem olhar para trás. Um gato preto que ouviu a
voz da morte se arrepiou todo e saiu pela noite espalhando azar.
— Eu vou com
você!
— Sabe que não
posso levá-lo – a Morte agora estava tratando o Amor impessoalmente, pelo
gênero masculino. Ao adquirir a forma de esqueleto perdeu qualquer resquício de simpatia e era tão frio quanto a
justiça pode ser.
— Ei, babaca;
qual é a sua? Acha que vou permitir que mate esse casal? Só passando por cima
do meu cadáver! – a menina-Amor disse e correu furiosa para cima da Morte,
dando-lhe um violento golpe nas costas com o pé. Mas o esqueleto continuou sua
marcha sombria e inabalável porque nada pode deter a Morte. A menina se desesperou.
O que podia fazer? Deveria revelar seu segredo? Mas isso significaria o seu
fim. Pensou em João e Maria. Deveria continuar existindo narcisicamante
enquanto que seus criadores padeciam horrivelmente? Essa sua atitude não era a
própria negação do amor, que tudo dá sem esperar nada?
— Espere!
Olhe, caveira imbecil, eu sei que está doida para me ceifar, mas se realmente
quer isso então precisa fazer com que João e Maria arrumem um novo amor que
seja mais forte que eu; só assim morrerei!
A morte parou
e olhou para trás, como a dizer “como não pensei nisso antes?” Apoiou o cabo da
foice no chão e colocou um dos braços na cintura:
— Como isso
pode ser possível?
— Sei lá,
cara! – a menina-Amor sacudiu as mãos em desespero, com a face contraída pela angústia
– já não basta saber que isso vai me matar?
A morte voltou
a assumir sua forma de anjo de asas multicoloridas.
— O que eles
gostavam de fazer?
— Bem,
basicamente trepar até não poder mais, se beijar, fazer carinho – a menina-Amor
se sentou no meio-fio e foi enumerando as coisas com os dedos enquanto olhava
para cima, procurando se lembrar – ir em baladas, falar mal de professores,
passar a mão na cabeça de gatos sarnentos, tomar sorvete, colocar sugestões
estapafúrdias na caixa de sugestões do
Mac Donald’s e...
— Ir em
baladas? Hum... me parece ser uma boa. Que tal uma rave? – o anjo da Morte
sugeriu.
— Ei, cara,
até que para um anjo da Morte você é bem descolado – ela elogiou friamente. Seu
rosto estava transtornado.
— É que às
vezes eu dou um pulo nesses eventos – o anjo da Morte explicou, e sua
explicação falava por si só.
— Mas não sei
se é um bom plano – ela ponderou –tipo assim: e daí? O que isso tem a ver?
— Não se
preocupe, filhinha - ele disse,
sorrindo – um dos meus amigos é o Acaso. A Morte e o Acaso andam tão juntos que
às vezes não se sabe onde termina um e começa o outro. O Acaso me ensinou
muitos truques. É só fazer com que esses dois panacas do João e da Maria fiquem
com vontade de ir numa rave. Lá farei
com que encontrem outras pessoas legais e que se apaixonem novamente.
— Ultimamente
não tem havido muitas raves por aí – ela disse. O anjo da Morte olhou para
aquele cemitério de robôs biológicos esquisitos que se recusavam a morrer.
— Que tal ali?
— No
cemitério?!
— É um lugar
extremamente cool. Será a rave mais fashion da história, onde a maior parte dos
convidados nem precisará pagar para entrar! Lembre-me de patentear a
idéia – o anjo da Morte exclamou, irreverente.
— E onde entro
nessa história?
— Você irá
também. E é por isso que eles irão sentir uma vontade irresistível de ir nessa
rave; você sabe, não é? Essa meleca básica de reencontro com o antigo
Amor e tal – ele disse piscando o olho.
— Pena que não
posso dar um tiro nessa sua testa de cuzão
do além – ela informou calmamente – afinal, não se pode matar a Morte.
— Ei, pensei
que estivesse feliz por saber que não irei mais levar o João e a Maria.
— Não tente
pensar, filhinho – ela disse com a voz trêmula – você não pode. E não é porque
não tenha cérebro. É porque não tem coração.
A Morte pediu
ao Acaso para fazer com que de repente
as pessoas descoladas da cidade começassem a se interessar por essa história de
mortos voltarem à vida no cemitério da COHAB, e em poucos dias o lugar se
converteu no novo point onde convergiam vários tipos de tribos e
contraculturas, e o fato de ser um morto artificial possuído por uma
consciência virtual passou a ser considerado a coisa mais fashion do universo.
O cemitério
maldito de uma hora para outra fervilhou. Então lá os descolados organizaram o
primeiro evento em que os mortos podiam dançar:
venha sacudir o esqueleto!
numa rave do outro mundo!!
garotas sobrenaturais!!
Vinho grátis!!
Desenterre das tumbas a galera que
você não via mais! Tecno macabro para
você exorcizar seu antigo amor! Dia 31 no cemitério da COHAB, sem número.
Passaram
algumas semanas desde que João e Maria quase esticaram as canelas.
Quem os via atualmente estranhava a
certeza que traziam no semblante desde então. Cada um ao seu jeito, mas o fato
é que, quando se encontraram sozinhos naquele sombrio túnel que conduz ao além,
eles viram a silhueta do outro atrás de si, do lado da vida, e chamando
novamente para a vida. Foi com essa frágil esperança que despertaram dos seus estados
terminais: João, do coma em que entrara por causa da infecção generalizada e
Maria, da overdose.
Estranhamente a frágil esperança que
carregavam foi se convertendo numa inexplicável certeza: não sabiam como, mas
eles iriam voltar a namorar. Foi quando ficaram sabendo da rave “Mortos podem
Dançar”. Quase ao mesmo tempo e nas diferentes regiões da cidade em que
estavam, eles pensaram: “esta é a chance!”. Chance do quê?!, perguntaria
alguém com um mínimo de discernimento. Mas quem ama não está nem aí com essas
perguntas racionais chatas. Simplesmente sabiam que o outro também iria nessa
rave.
O Amor sorria
matreiramente do plano bobo da Morte: sim, falava para si mesmo, João e Maria
seriam atraídos para essa rave, mas não encontrariam um “novo amor” porra
nenhuma! Sim, é verdade que há o Acaso
que é amigo da Morte, mas também há a Certeza que é irmã do Amor, e a Morte
ignora esse fato. João e Maria iriam namorar novamente e aquele amor iria ficar
mais intenso ainda, mas desespero da Morte que voltaria para o além de mãos
abanando.
“Amor da minha vida...”
A misteriosa
lua de abril se derramava pelas trilhas noturnas dos solitários que bebiam a
noite como um alívio para seu desespero e para o seu pavor; ah, esse pavor
básico que nos leva a procurar alguns momentos de diversão... – e para variar muitas trilhas daquela noite
convergiram para aquela rave esquisita no cemitério.
Que
esquisito, pensaram inicialmente. Que lugar mais mórbido para se fazer uma
coisa dessas!
Mas depois
quando o tecno sombrio foi rolando e
eles começaram a dançar com os mortos e como os mortos, sentiram o quanto tudo
aquilo fazia sentido:
Estamos
dançando sobre a arrogância da morte!
A morte é a
única certeza da vida?
Pois então
dancemos a nossa incerteza! – era assim que se dizia, vivos e mortos, humanos e
não-humanos, todos imersos na noite que a tudo fundia como a um sono sem
sonhos, uma ilusão desiludida.
E os que
dançavam sozinhos, completavam, de olhos fechados e coração em chamas: “o que
importa se estamos sozinhos?”. Mas o
Amor que por ali rondava sorria para esses corações ansiosos e suas tolas
pretensões sobre solidão.
E o Amor não
percebia que também ele tinha pretensões tolas.
Encarnado
como estava no cadáver da pobre suicida não-humana, ele na verdade dançava
profanando a si mesmo, ao lado dos viventes que queriam uma nova chance de se
apaixonar e que queriam esquecer de uma vez por todas os fantasmas dos amores
passados.
E, enquanto
dançava, olhava para os lados procurando ansiosamente por João e Maria: onde
será que esses idiotas estavam?
O antigo
Amor, que se divertia sendo um morto-vivo, necessitava urgentemente que aquele
casal o ressuscitasse definitivamente.
Não ligava a
mínima para os dois, para o quanto os dois sofreram por conta dele. Não, o amor
que não quer morrer sobrevive de lembranças, saudades e remorsos. E sorri,
superior, mesmo sabendo que continua existindo à custa da infelicidade alheia.
Mas ele não
contava que, enquanto dançava entre os túmulos coloridos pelos jovens, estava
sendo observado por uma estranha
gárgula chamada Acaso...
No meio da
noite, e justamente quando a rave estava começando a embalar, a menina-Amor foi
se sentindo fraca, fraca, fraca... sentia como se quisesse dormir. Com os olhos
sonolentos, viu o anjo da Morte se aproximar, dançando:
— O que está
acontecendo comigo, cara?
— Advinha! –
o anjo disse. Ela compreendeu o que estava prestes a ocorrer.
— Você dança
pessimamente.
— Você pode
me ensinar? – ele pediu.
— Me conceda
a honra da próxima dança, senhorita – o anjo disse e fez uma reverência
elegante para ela. Ela sorriu e começou a dançar com o rosto colado ao dele,
bem lentamente, apesar do furioso tecno que rolava.
O acaso, que
adora destruir pretensões, estava atuando... e simultaneamente:
| João
A certeza que encontraria Maria era tão profunda que João nem notara que havia horas que estava parado ali, no portão Sul, enchendo a cara num dos quiosques improvisados, apesar da estrita recomendação médica no sentido contrário. Pela sua saúde debilitada, não era sequer para estar ali. Mas que se dane, se havia uma oportunidade do reencontro, era essa! Mas o tempo foi passando e uma agonia insuportável foi se misturando à sua ansiedade. Droga!... e a Lua estava tão bonita... nem parecia se importar com o fato de Maria não estar ao lado dele. Ela era como o amor que não se importa se a outra pessoa está ao seu lado; existe independentemente disso. E se Maria não viesse? Mas ele sentia de maneira intensa e inexplicável que ela estava por perto. E assim passou boa parte da noite: contemplando a Lua. Contemplando aquele amor que o fazia sofrer. Até que se cansou das duas coisas e olhou para frente. Ele viu uma menina que nada tinha a ver com Maria. Ela se chamava Juliana e era professora de história. Foi amor à primeira vista! Casaram-se e viveram felizes para sempre. Mas antes de ir embora com seu novo amor, João deixou uma flor ali, na entrada do portão Norte, pois teve a sensação de que algo definitivamente chegava ao fim naquela noite./ FIM
|
Maria
A certeza que encontraria João era tão profunda que Maria nem notara que havia horas que estava parado ali, no portão Norte, enchendo a cara num dos quiosques improvisados, apesar da estrita recomendação médica no sentido contrário. Pela sua saúde debilitada, não era sequer para estar ali. Mas que se dane, se havia uma oportunidade do reencontro, era essa! Mas o tempo foi passando e uma agonia insuportável foi se misturando à sua ansiedade. Droga!... e a Lua estava tão bonita... nem parecia se importar com o fato de João não estar ao lado dela. Ele era como o amor que não se importa se a outra pessoa está ao seu lado; existe independentemente disso. E se João não viesse? Mas ela sentia de maneira intensa e inexplicável que ele estava por perto. E assim passou boa parte da noite: contemplando a Lua. Contemplando aquele amor que a fazia sofrer. Até que se cansou das duas coisas e olhou para frente. Ela viu um cara que nada tinha a ver com João . Ele se chamava André e era engenheiro de som. Foi amor à primeira vista! Casaram-se e viveram felizes para sempre. Mas antes de ir embora com seu novo amor, Maria deixou uma flor ali, na entrada do portão Sul, pois teve a sensação de que algo definitivamente chegava ao fim naquela noite. FIM
|
POSFÁCIO DO AUTOR:
QUEM É VIVO APARECE;
CONSIDERAÇÕES SOBRE
MORTOS PODEM DANÇAR
Dos textos que fiz, “Mortos Podem
Dançar” é o meu favorito. Agora que vocês já leram, coloquem na vitrola “Bela
Lugosi’s Dead”, do Bauhaus, se vistam de preto e saiam por aí dançando.
Ele reflete bem minhas angústias
íntimas a respeito da morte de um grande amor que, não obstante, insiste em
perambular pelo coração como um zumbi. Acrescente-se a isso à possibilidade do
coração ser uma unidade sintética pseudo-orgância, e então a crise está feita:
eis um texto “cibergótico”.
Ainda que já exista, numa rápida consulta pela internet,
sites “cibergóticos”, esses são
endereços virtuais onde se pode conhecer sobre o Gótico e demais estilos
obscuro. O sentido que dou ao neologismo “cibergótico” é o de ser uma derivação
do ciberpunk, movimento underground de ficção científica que se originou no
início dos anos 80 e que tem em Blade Runner e Neuromancer seu marcos
principais.
Esse posfácio bem que pode ter a pretensão de ser uma
espécie de manifesto cibergótico.
Quem já leu os meus textos “Impressão Digital”, “Maria
Gasolina”, “Jonas Dark”, “Deus Est Machina”, “O Abortado” e “Share Girl” pôde
notar, malgrado a diversidade de assuntos abordados, que há uma intersecção
estética em todos eles.
Os leitores atentos de minha
obra poderão notar uma ponte entre os meus textos e o obscuro início dos anos
80, em que pós-punks e góticos perambulavam por aí, vestidos de preto pelo
inimente funeral da Civilização, que parecia correr irremediavelmente para sua
destruição através de uma III Guerra Mundial entre USA e URSS. Não havia
esperanças naquela época, e as meninas de preto traduziam isso em sua elegância
apocalíptica. O mundo Dark dos meus textos está de luto não necessariamente
porque o planeta vai acabar numa guerra atômica; não vejo mais esse
perigo (muito embora nosso amigo caubói republicano de Washington seja um
entusiasta de um belo inverno nuclear, batendo constantemente o seu próprio recorde
de estupidez, querendo brincar de soltar bombas atômicas em países miseráveis).
Bem, o que ocorre é que o colorido dos shoppings centers globalizados sepultou
o conceito de Identidade, tanto da identidade dos povos quanto da identidade
individual. Não está havendo mais tribos e nem individualidades; há
padrões de comportamento e de sociedade que são reproduzidos em todos os cantos
do mundo. Não há mais diversidade; há clonagem. Aquelas menininhas saradas
coloridas que infestam os shopping centers são muito mais obscuras, com suas
berrantes cores superficiais de menina superpoderosa, do que as góticas de mais
de vinte anos atrás. Há uma crescente não-humanidade em meus textos que não
sabe o que é: as pessoas do meu mundo não são robôs, nem andróides,
nem ciborgues, nem mutantes, nem humanos. Elas só têm certeza que estão
profundamente sozinhas.
É preciso salientar que,
apesar de algumas histórias cibergóticas parecerem ficção científica, faço
absoluta questão de frisar que elas se passam no MOMENTO PRESENTE. É isso aí;
nada de "No ano dois mil e vinte e nove, corporações vão blá blá blá e que
governos autoritários blá blá blá e então naves espaciais blá blá blá".
Com isso quero reforçar a indiferença atual de nossa civilização com relação à
tecnologia. Não há o deslumbramento frente ao tecnológico; há apenas o tédio.
Nada mais nos espanta. Somos como o "Mister M", que sabe todas as
mágicas do universo, mas que, no entanto não sabe mais quem é, é por isso o seu
mundo é escuro.
Por um tempo eu chamei
esse meu estilo de cibergótico, mas também as novas definições servem apenas
para rótulos ao que se é consumido. Morro de medo que o significado do nome
"Jonas Dark" se esvaia e esse nome vire mais uma grife, mais uma
coisa numa coleção de coisas nenhumas.
Lendo
a exposição acima, o leitor deve ter intuído que estou muito mais interessado
pela arte e pela densidade de significados do que com o rigor científico dos
meus textos. Aliás, a ciência em meus textos é usada com funções estéticas
semelhantes a um quadro estilo Pop Art. Muito mais importante são outros
aspectos inseridos na história, como por exemplo a simbologia do TARÔ. Muitos
artistas plásticos fizeram o seu próprio baralho de tarô, como por exemplo
Salvador Dali, Giger, a Nikki, etc. Talvez eu pertença a essa tradição de
artistas, só que estou usando a
literatura para fazer o meu baralho.
Ainda faltam
muitas lâminas-histórias para completá-lo. Mas a Mortos Podem Dançar/arcano 13
é a minha predileta.
Josiel Vieira