O
MINISTÉRIO DO TRABALHO, MINAS & ENERGIA
INCENTIVA A PRODUÇÃO DE ROBÔS
Naquele frio e esfumaçado bar
figuras igualmente frias e esfumaçadas se debruçavam sobre suas canecas e suas
vidas, todas postas sempre em dúvida na madeira ensebada das mesas. Numa delas,
num dos cantos mais vomitados e mijados, uma menina mirava suas mãos trêmulas.
Tentou deixá-las firme sobre a mesa. Em vão.
Nesses lugares sempre tem um palhaço
(só um?) metido a Don Juan. Há tempos ele a observava; não por ela ser bonita,
mas pelo fato de estar sozinha e aparentemente desprotegida. Ele foi até ela:
— Olá, menina. Você quer alguma
coisa?
—... bebida... eu preciso de uma
bebida...
Ele foi até o balcão e trouxe duas
Vodkas com limão; colocou uma delas na frente da menina como se esse fosse o
mais espetacular galanteio desse século. E ficou esperando, sorrindo.
A cabeça da menina continuou baixa.
E suas mãos continuaram tremendo.
— Ei, pode beber. É de graça! – ele
frisou.
Com um violento tapa ela derrubou o
copo no chão:
— Acha que esse maldito “kisuco”
basta para mim?
Os olhos avermelhados da menina
perceberam algo brilhante preso ao cinto do amedrontado Don Juan. Em um
bilionésimo de segundo a inteligência artificial dela checou qual o tipo de
carro aquela chave prateada poderia abrir. Não contente com isso, invadiu pelo
menos três redes ligadas a satélites tipo GPS para verificar que carro seria e
onde estaria estacionado; porém sua invasão foi em vão: o automóvel deveria ser
um desses novos modelos importados à prova de rastreios clandestinos. Então ela
mudou sua tática: um lânguido piscar foi suficiente para transformar seu olhar
transtornado em um olhar sensual:
— Ei, gostosão, desculpe por tê-lo
assustado – ela se levantou e pegou na gravata dele – é que eu quero ir direto
ao assunto: quer dar uma trepadinha comigo?
— Só se for agora! – ele disse todo
animado ao ouvir o “gostosão”.
— Uau, tigrão, acho que você deve
ter uma caranga e tanto... – ela disse pegando na chave dele – quero dar pra
você no banco da frente... sem camisinha e sem cuspe...
“Mas que Maria Gasolina da porra”,
ele pensou todo feliz.
Chegaram ao beco onde estava a
caranga.
— Eu estaciono aqui por causa dessa
violência toda, sabe... – ele disse passando a mão na polpa da bunda dela.
— Deve estar cheio de gasolina... –
ela balbuciou, pálida.
—
Meu carro sempre está
cheio de gasolina, meu bem...
—
“Meu bem?” Acaso acha que eu
sou um “bem” igual ao seu carro?
Ela o encarou. Mas ele não
desviou o olhar. Seria fácil estuprá-la naquele beco, diziam os olhos
possessivos dele.
— E aí, boneca? Vai dar ou não?
— Claro que – antes dela terminar a frase, arremessou a cara
dele contra a guia da calçada – vou dar o que você merece.
Ela foi até o automóvel. Com um soco arregaçou o lugar onde
ficava o tanque de combustível. A gasolina começou a sair, abundante, e foi
avidamente sorvida pela menina; boca e língua bebendo e lambendo todo
combustível que podia; e quando ficou finalmente farta ela fechou os olhos e
chorou, sentindo o resto da gasolina escorrer pelos seus cabelos.
Maria Gasolina começou a caminhar de mãos nos bolsos do
casaco surrado. Da sua boca agora saía um hálito negro de monóxido de carbono,
produto resultante da queima da gasolina pelo seu corpo. Milhares de pessoas como
ela perambulavam pelas calçadas soltando fumaça pela boca e pensando no próximo
trago. Uma civilização inteira estressada e sem soluções para sua existência.
Ela foi ao shopping center tomar um sorvete de milho, um
hábito adquirido com um antigo namorado de tempos dantanho. Aliás, fazia
questão de ir ao shopping center somente para se divertir vendo aquelas
patricinhas do caralho torcer o nariz para o forte cheiro de gasolina que saía
do seu corpo. Naturalmente, suas pernas calçadoras de botas ficavam cruzadas
sobre a mesinha. O que mais poderia desejar da vida?, pensava entre um arroto e
outro, coçando a periquita e soltando fumaça pela boca com a elegância de um
sessentão expert em charutos.
Mas em menos de um mês as últimas reservas de petróleo do mundo
se esgotariam.
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Num dia que Maria Gasolina tinha bebido tanta gasolina que
havia dormido na calçada, completamente bêbada e usando um jornal onde se lia
“poluição já mata mais crianças no terceiro mundo do que a fome”, as ruas
estavam tomadas por um comício do sindicato patronal dos metalúrgicos e dos
petroleiros. Quando um cachorro vira-lata veio lamber sua orelha, ela acordou e
ouviu parte do discurso:
—... e por isso devemos apoiar as montadoras a pressionar o
governo para votar CONTRA o Protocolo Verde, companheiros. Os companheiros
petroleiros também estão com a gente! Temos que defender nossos empregos! Temos
de garantir o pão de nossas crianças! Eles dizem que no futuro a poluição pode
acabar com o planeta. Mas o que interessa pra gente é que não acabem com nosso
emprego!
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“PRESIDENTE GEORGE W.
BUSH”
— Bem, eu sou a Maria Gasolina e reconheço a minha
dependência química... gostaria de largar o vício, mas acho que é mais forte
que eu... vivo dia após dia atrás de uma dose. Tornei-me uma vagaba, saio atrás
do primeiro homem ou mulher que tenha um belo carango. É dose, não é? Puxa, é
legal da parte de vocês, humanos que curtem moral e bons costumes e tal,
tratarem de um robô desumano como eu... um dia ainda pretendo ser boazinha,
decente e votar no Partido Republicano... se importa se eu tomar mais um trago?
É jogo rápido...glub, glub, glub... aaahhh... pronto. Mas me diga uma coisa...
hic... puxa, já tou meio alta... hic... me diga uma coisa, meu filho... hic...
por quê malditos mamíferos que respiram oxigênio como vocês construíram sua
civilização à custa da destruição ambiental? Hic... eu tento entender a moral
humana, mas, toda vez que faço isso, tenho de encher a cara... hic... sabe por
quê? Porque não chego a porra nenhuma de conclusão... hic hic... não que eu
ligue.... robôs movidos a gasolina não respiram... puxa cara, que carrão que
você tem...
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Após estourar o cérebro do psicólogo
freudiano do Centro de Tratamento de Pessoas Perturbadas Pres. George W. Bush e
beber toda a gasolina do carrão dele, Maria Gasolina resolveu procurar ajuda
para sua dependência de gasolina numa religião de um país do Oriente Médio
famoso por suas enormes reservas de petróleo e por tratarem mulheres como gado.
Naturalmente que Maria Gasolina se interessou pelas enormes reservas de
petróleo dessa terra prometida, e por isso
para lá se mandou. Aceitou perder todos os seus direitos políticos (pois
obviamente para a religião dessa terra as mulheres não precisam disso), vestir
um enorme manto e se casar com um comerciante que já tinha quatro esposas. No
entanto as enormes reservas de petróleo dessa terra continuaram bem distantes
de seu apetite voraz, e isso a decepcionou muito. Antes de destroçar o marido e
as quatro esposas dele em milhões de pedacinhos, ela lhes falou:
— Pois é, amiguinhos, eu não entendo
essa civilização de vocês onde as vestes e a maneira de se comportar de uma
mulher têm mais relevância do que a criminosa conivência com que vendem
petróleo ao mundo cada vez mais poluído ao mesmo tempo em que ajudam a barrar,
juntamente com a América, protocolos
ecológicos internacionais e todo o desenvolvimento de fontes de energias limpas
e alternativas.
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Frustrada com sua experiência
religiosa e desiludida quanto às possibilidades de um casamento arranjado e de
saco cheio de passar lições de ética, Maria Gasolina voltou para o inferno
ocidental, esse querido puteiro urbano intercontinental. Ela decidiu que já
estava bastante crescidinha e que precisava arrumar um emprego e prestar
vestibular. Fez as duas coisas: após destruir quatro robôs iguais a ela e
alguns humanos que queriam o mesmo emprego, Maria Gasolina descolou um trampo
de frentista (uêba!) num posto podre e passou no vestibular para química
orgânica. Após roubar os livros da biblioteca que continham fotos de alta
qualidade de cadeias de moléculas de gasolina e óleo diesel, ela abandonou a
droga da faculdade. Depois de encher o
bucho de gasosa na mangueira do posto, ela se trancava no imundo banheiro para
ver aquelas excitantes moléculas orgânicas que lhe davam tanto prazer e tanta
dor.
Certo dia chegou ao posto um rapaz
limpinho e bonitinho, e assim que pôs os olhos nele Maria Gasolina sentiu que
era o amor de sua vida. Ele estacionou o seu automóvel elétrico ao lado do
posto e entrou no restaurante para comer uma salada. Pela primeira vez Maria
Gasolina enrubesceu tentando criar coragem para sentar ao lado de alguém.
— O-o-olá... – ela balbuciou sem
graça.
Ele a olhou com indiferença. E
continuou a comer em silêncio. Com sua visão infravermelha ela viu um cartão de
uma ong ecológica no bolso da camisa dele:
— Eu sou capaz de apostar que você
luta por alguma causa ecológica, não é? Puxa, é legal ver pessoas que se
importam com o futuro de nosso planeta e...
— Em primeiro lugar, não aposte,
pois apostar é um vício e eu simplesmente tenho horror a qualquer tipo de vício
e alergia a todo e qualqer viciado... em segundo lugar fale para a droga do
cozinheiro que esse alface está murcho.
Maria olhou para ele em silêncio por
um longo tempo.
Resolveu insistir:
— Mas, como eu ia dizendo, é legal
que existam ong’s que se preocupem com...
— Que mané ong’s! Todas elas são
corruptas, e somente a minha é que presta. Para mim, ecologista que não
pertence ao meu grupo não passa de um monte de lixo.
Ela viu o carro elétrico dele lá
fora.
— Você deve ser um cara legal. É o
único daqui que tem um carro elétrico...
— O futuro, meu bem, são as baterias
– e o cara começou a fuçar num PDA; pelo reflexo da tela nos óculos dele ela
percebeu que estava checando a cotação da bolsa de valores, e pelos campos da
tela selecionados Maria Gasolina percebeu que ele tinha ações nas indústrias
pesadas de baterias para carros.
Ao perceber tudo isso, Maria
Gasolina deu um sorriso triste para si mesma. Ela, que com seu vício se achava
o câncer do mundo à espera de algo que pudesse enfim extirpá-la da existência
para que em seu lugar surgisse algo mais útil,
aos poucos percebia que pessoas como ela eram o que o mundo tinha de
melhor num mar de ideologias hipócritas, soluções cínicas e homens movidos
pelos mais baixos interesses.
Ela voltou ao seu lugar ao lado da
bomba de gasolina. Tomou um trago e soltou fumaça preta pela boca ao ver o
carro do seu amor ir embora. Deveria contar que o sensor de seu corpo acusou
que a bateria daquele carro era mortalmente radioativa?
Maria soltou fumaça preta pela boca
vendo o carro se distanciar, braços displiscentemente cruzados sobre a bomba de
gasolina.
Era melhor não.
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Os últimos dias de petróleo no mundo
trouxeram um caos nunca antes visto. A bolsa caía incenssantemente, as gigantes
do petróleo faliram e surgiram outras enormes corporações da noite para o dia,
carros eram abandonados nas ruas sem valor e sem gasolina, pessoas se
suicidavam, o preço dos alimentos subia a todo instante.
Os robôs movidos a combustíveis
fósseis começaram a parar.
Aquele posto à beira da solitária
rodovia fora abandonado depois que os seus donos fugiram e ninguém mais
aparecia para abastecer.
Quanto tempo de vida Maria Gasolina
tinha antes que consumisse todo o suprimento de combustível dali? Ela não sabia
e não fazia a mínima questão de saber.
Mas os raros caminhoneiros que
passavam por ali de noite ouviam
músicas da Siouxsie & the Banshees cantadas por uma voz bela,
misteriosa, noturna e distante, como a própria estrada à noite: sem passado,
sem futuro e sem ilusões.
FIM
Josiel Vieira de Araújo 14/10/02
POSFÁCIO:
GOVERNAR É CONSTRUIR ESTRADAS:
Naquele inacreditavelmente longínquo
ano de 1987 eu era um moleque do caralho (alguns dos meus amigos agora devem
estar rindo; eles sabem a história por trás do termo “moleque do caralho”)
apaixonado por aviões de guerra e robôs. A minha paixão de então era o
bombardeiro norte-americano Rockwell B-1B e as linhas dessa máquina agradavam
tanto meus olhos que imaginei uma história em que a Terra seria invadida por
robôs poluidores que destruiriam tudo, e a última esperança terrestre seria
justamente as indústrias Rockwell. Se eles foram capazes de construir um tal
bombarbeiro nuclear, pensava eu, provavelmente saberiam construir armas para
enfrentar os tais robôs movidos a gasolina. Bem, eu cresci, mudei o meu gosto
para os aviões soviéticos (estranho comunismo tecnológico!), a Rockwell
atualmente faz parte da Boeing e deixei essa história para lá. Mas eis que
nesse corrente ano de 2002 começo a ouvir as jactâncias delirantes do nosso
amigo caubói de Washington, o George W. Bush. Ele, antes de mais nada, é o
símbolo do norte-americano médio, que só se interessa pelo seu emprego, seu
carro e sua família. A isso ele chama de pátria, e tudo o que não se enquadra
nesse mundo acaba sendo jogado num “eixo do mal”. Bem, eu ouvir uma reportagem numa rádio de notícias que dizia que
o senhor presidente do império americano não sabia que existiam negros no Brasil
(!!!). E é com esse preparo que os norte-americanos querem participar de
decisões internacionais, ou melhor, nem isso: querem já impor ao resto do mundo
o que eles desejam. Bin Laden para os norte-americanos não é um sintoma de que
a política imperialista deles está equivocada. Ele é apenas mais um vilão
esperando para ser destruído pelo Rambo (em tempo; lembram de Rambo III? “Esse
filme é dedicado ao valente povo do Afeganistão...”). Mas eles não percebem que
a história não é uma sucessão de fatos desconexos e pontuais; o Paralamas do
Sucesso já disseram que “a vida não é filme, você não entendeu”. Sendo
assim, ainda é digno de nota, na
sucessão de trapalhadas e equívocos grosseiros do governo norte-americano, todas
as barreiras que ele impõe à real substituição do petróleo por novas
tecnologias ecologicamente corretas. É bem verdade que possuem o conivente aval
dos países exportadores de petróleo, e tudo orquestrado pelas multinacionais do
setor. Enquanto isso nosso planeta segue agonizando; quem respira o “saudável”
ar do centro da cidade de São Paulo entende do que eu estou dizendo.
Tendo em vista protestar contra tudo
isso que eu desenterrei a idéia dos robôs movidos a gasolina. Com isso eu
queria ilustrar a ganância do mundo capitalista: já não bastassem os carros,
ainda vem os robôs!
A personagem Maria Gasolina foi
construída ao redor desse nome, mais ou menos do mesmo jeito que o “Jonas Dark”
foi criado em torno do nome dele. Apesar dela parecer a versão feminina do
Ranxerox, gostaria que percebessem que ela também é uma metáfora dos fumantes e
alcoolatras que, embora poluam o seu próprio corpo, contam eu suas fileiras com
várias das personalidades mais lúcidas e brilhantes da humanidade... um
paradoxo com os naturebas como eu, cujas fileiras encerram os caras mais chatos
da história... vejam o personagem sem nome por quem a Maria Gasolina se
apaixona...
Bem, é isso aí. Finalizo esse
posfácio aqui senão ele ficará maior do que a história da Maria Gasolina! J