A
porta se abriu.
A
mulher de óculos que entrou sentou-se.
—
As pessoas já estão apavoradas. A cidade está enfrentado uma epidemia de vírus.
Sua tarefa, doutor, é eliminar o surto antes que o medo se espalhe, pois ele
pode ser pior do que a contaminação em si. Uma população em pânico é
imprevisível.
—
Ok.
Havia
uma névoa no ar.
—
Na verdade, doutor, tenho de confessar que estou preocupada. Muito preocupada.
Ouvi falar em infestações parecidas em cidades vizinhas. Algo está escapando do
controle.
Uma
palavra indecifrável em néon aparecia no vidro embaçado da janela.
—
Não – o doutor falou e deu um gole no café sem muita
convicção – está tudo sob controle.
A
mulher de óculos ficou calada por uns instantes, tentando ler a palavra em
néon.
—
Bom... boa sorte, doutor Jonas Dark.
A
mulher saiu. Jonas bebeu mais um gole de café. Sorte?
Não
existia no universo nada mais negro do que aquele conglomerado urbano. A
obscura crosta de fuligem que encobria tudo era sinal de que as indústrias de
química pesada estavam funcionando a todo vapor, para orgulho da economia
metropolitana. E todo o vapor do mundo saía das chaminés, criando um nevoeiro
permanente de onde nunca se sabia ao certo quando era dia ou noite - e esse
deserto cinza só era quebrado pelos jorros alaranjados de fogo puro que
brotavam de várias torres escuras, e pelas luzes vermelhas colocadas nas
cúpulas mais altas. Por toda parte complexos industriais misturados a prédios
residenciais poluídos. Cilindros gigantescos de armazenagem de produtos tóxicos
ao lado de bares e escolas. Enquanto passeava lentamente com seu automóvel,
Jonas Dark ia observando. Operários que não acabavam mais nas calçadas, com
seus monótonos uniformes monocromáticos. Arranha-céus monstruosos. Barulhos de
tráfego intenso. De algum lugar vem o cheiro nauseante de rio poluído, como se
não bastasse o insuportável fedor de enxofre ou algo parecido que as fábricas
tossem. A cidade está enfrentando uma epidemia.
—
Rápido, doutor Dark, tem uma infestação acontecendo lá na frente!!
O
velho automóvel de Jonas saiu cantando pneu. Atrás dele seguiram três outros
furgões da sua equipe de descontaminação.
—
Sorte estarmos com nosso equipamento...
O comboio ia a mais de
cem, cortando sinais. O caos ia se espalhando; carros batiam e pessoas fugiam
apavoradas. Clarões brotavam no meio dos edifícios escuros, iluminando a
carroceria dos furgões onde se lia NOTION ANTIVIRUS.
—
Peguem o equipamento e me sigam!
Jonas
Dark saiu e começou a correr sobre os carros batidos no meio da avenida e seu
exemplo foi seguido por sua equipe.
—
Lá estão eles! Preparem o equipamento!
No
fim da avenida havia um grupo de jovens se divertindo; à distância que estavam
eram pouco discerníveis, porém era notório o quanto suas roupas e cabelos eram
coloridos. Enquanto pulava sobre os capôs dos carros Jonas Dark foi tirando seu
estranho “equipamento” debaixo do seu sobretudo: uma pistola automática.
—
Fogo!
Ao
pipoco ininterrupto das armas os jovens começaram a se movimentar de maneira
acrobática, saltando de um lado para outro.
—
Continuem atirando!
A
saraivada de fogo continuava. Os jovens saíram correndo, com incrível
velocidade.
—
Fogo!
Jonas viu quando três deles caíram no
chão. Os outros se dispersaram,
entrando cada qual numa rua escura. Depois de uns vinte segundos correndo por
escombros a equipe chegou até os três que estavam caídos numa imensa poça de
sangue.
—
Um deles ainda está se mexendo, fogo!
Enquanto
via a equipe descarregar seus “equipamentos” sobre o moribundo, Jonas Dark,
completamente sem fôlego, se escorou num poste e limpou o suor da testa com as
costas da mão que empunhava a arma, depois falou ao seu telefone celular:
—
Infestação parcialmente controlada, senhora. Pegamos três, mas infelizmente
alguns “vírus” conseguiram escapar e já estão fora de alcance.
—
Mas não irão muito longe – disse um membro da equipe ao olhar com interesse
para o visual dos vírus – e esses aqui não mais contaminarão nossa cidade com
seu maldito... a sua maldita... quero dizer...
—
A sua maldita notion, você quer dizer. Mas se não houvesse notions,
opiniões que ameaçassem o Sistema, também não haveria a Notion Antivirus, e,
por conseguinte os nossos empregos – Jonas se aproximou dos mortos e pegou uma
revista em quadrinhos que um segurava - Portanto cale sua boca e agradeça a
proliferação desses marginais esquisitos de roupas estranhas e cabelos
coloridos a quem chamamos de vírus.
Com
o cigarro preso entre os dentes e as mãos nos bolsos do sobretudo ele ficou
olhando desinteressadamente para os vírus na semi-escuridão, e a fumaça que
saía das suas narinas era tão perturbadora quanto a que uma chaminé duma
fábrica ali por perto soltava escondendo a Lua, que assim encoberta era como um
Sol Negro.
Uma bela caçada para uma
noite, Jonas Dark resmungou amargo se dirigindo para o velho bar de sempre. Ao
menos a noite com suas luzes artificiais conseguia ser mais viva que o dia.
Encher a cara pode ser uma solução para uma situação. E que situação, a sua!
Havia se transformado no doutor Dark, especializado na eliminação de vírus que
querem anarquizar o Sistema. No começo até que ele e sua equipe de
descontaminação lograram conseguir resultados mais eficazes; porém, nos últimos
tempos, quem estava levando a melhor eram os vírus, que sabiam driblar todas as
medidas de segurança e estavam conseguindo infectar o Sistema às vezes de
maneira arrasadora com suas maneiras arrasadoras, seus costumes debochados e
irritantes. Como lidar com essa batalha perdida? Com a lógica ao qual estão
acostumados e inseridos sendo tão facilmente reformatada por esses vírus
coloridos, os trabalhadores do Sistema se vêem num imenso mal-estar, que pode
ser traduzido pela seguinte pergunta: por que não ser como os vírus? Era também
o que o doutor Jonas Dark se perguntava enquanto tomava uma dose. Mas sabia que
não era só isso. Sentia que havia algo mais, mas não sabia como abrir essa
barra de ferramentas oculta na tela abstrata da sua cabeça e esse fato
provocava nele tanta aflição quanto ouvir as músicas da década passada que
estavam tocando no salão, sempre a mesma porra de música da década passada que
tocou até furar o disco. Por falar nisso, todas as pessoas dali tinham mais ou
menos a mesma idade que ele, trinta e poucos. Todos de roupas escuras e
dançando na desesperada tentativa de resgatarem algo há muito perdido e
morto. Com uma garrafa de uísque na mão
Jonas se aproximou de uma mulher que dançava ao som do Joy Division.
—
Ei, alguém já lhe disse que você é pálida como a Branca de Neve?
Ela lhe tomou a garrafa;
bebeu tudo de uma vez e continuou dançando, indiferente à pergunta feita. Ele
insistiu na conversa (já estava mesmo alterado depois de várias doses):
—
Onde estão seus anões?
Ao
que ela parou de dançar e falou com ódio:
—
Meus anões, cara, meus malditos anões são duendes negros, demônios, que usam
meu crânio como caverna para se esconder. Quer saber de quem? De mim, de você
que nem sei quem é, do tempo que não pára de transformar essa Branca de Neve
aqui na Madrasta velha e feia, executiva de carreira que justamente odeia a
Branca de Neve, a menina despreocupada que eu estou deixando de ser.
Sem
olhar mais para ele, ela perguntou dançando:
—
Como se chama?
—
Jonas Dark.
—
Jonas, hein? Cuidado, meu amor. Jonas era
um profeta que foi engolido por uma baleia. Talvez você já esteja na barriga
escura do monstro e ainda não tenha se dado conta disso. Mas não fique bravo
comigo. Ao invés disso me agradeça por esse conselho: Dê uma olhada no que tem
consigo mesmo; terá uma resposta parcial ao que procura. É assim que as coisas
funcionam algumas vezes.
Malditas
mulheres encontradas ao acaso. Algumas delas tinham o dom de fazê-lo se sentir
em carne viva, como se houvesse sido queimado vivo numa fogueira da Inquisição;
fumaça e fogo brotavam do seu corpo. Um cavaleiro terrivelmente sensível ao que
lhe acontecia ao redor, mas ainda assim cavaleiro a serviço do Sistema.
Entretanto resolveu seguir o conselho dela e prestar atenção no que trazia
consigo mesmo: a revista em quadrinhos confiscada do vírus morto. Parecia uma antiga edição do Batman.
Estranho. O Batman aparecia com um sobretudo parecido ao que ele, Jonas Dark,
estava usando. E o Cavaleiro das Trevas corria atrás de um colorido Coringa,
sem, contudo alcançá-lo.
—
A desordem está se espalhando em progressão geométrica e tudo o que conseguimos
saber sobre a cultura dos vírus é que eles gostam de gibis!...
—
Não é tão simples assim.
—
O que disse? Em nome de Deus Todo poderoso!
A
mulher de óculos levantou-se de uma das cabeceiras da longa mesa retangular e
foi até a janela abrir as persianas. Do andar em que estavam um cenário de
devastação surgiu: prédios poluídos, rios arruinados, espessas colunas de
fumaça negra e gordurosa expelidas por fábricas decadentes. Tudo embalado pelo
brilho metálico de um Sol entre nuvens.
—
E quer que o Sistema seja simples?
—
Um momento – disse em voz alta Jonas Dark – estamos fazendo tudo o que está ao
nosso alcance.
—
Então qual é o problema?
Na
cabeceira oposta Jonas cruzou os braços (e atrás dele havia duas lâmpadas):
—
O problema é que talvez estejamos numa encruzilhada e não sabemos ainda qual
caminho escolher.
—
Como assim?
— Os vírus estão ficando muito mais difíceis de deter. Isso mostra que a
maneira como estamos lidando com o problema está equivocado. Mas a mim ainda
não está muito claro onde esteja o equívoco. Entretanto, a falha existe.
—
Quero resultados práticos para a segurança do Sistema, e não embates teóricos
sobre aquilo que nem ao menos sabemos direito o que é. O nosso Sistema está
sofrendo uma ameaça sem precedentes que está destruindo tudo aquilo em que
acreditamos e no qual depositamos as nossas mais elevadas esperanças. O
ambiente de trabalho em que uma toda uma geração de cidadãos respeitáveis depositou
suas esperanças e seu labor está sendo contaminado como se fosse um paciente
terminal por esses verdadeiros “cavalos de Tróia”, que se infiltram entre nós
como quem não quer nada, e quando menos se espera eles abrem seu interior e
soltam sua carga nociva contra o mundo, que está se alterando alucinadamente
como se tivesse bebendo latas e latas dessas novas bebidas energéticas!
Ultimamente um desespero
ia tomando conta de Jonas Dark. Algumas coisas as quais ele dava pouca ou
nenhuma importância agora iam e vinham em seu cérebro como tubarões presos num
aquário; e talvez já estivesse dentro da barriga de um desses monstros enquanto
tinha a ilusão de que eles é que estavam presos em sua cabeça.
Era
hora de almoço, e ele foi comer um cachorro-quente e tomar uma garrafa de vinho
ao lado da pequena caverna no Parque do Sol Negro. De repente, de dentro da
ravina sai uma freira. Por um momento ele ficou com vontade de dizer alguma
imbecilidade do tipo “lugar estranho para uma freira, hein?” Mas se conteve.
Deu mais um gole no vinho e chamou a freira.
—
Posso ser útil em alguma coisa, meu filho?
Só
podia ser efeito de sua semi-embriaguez, mas o rosto da freira era muito
estranho. Às vezes era o de uma velha de mais de noventa anos e às vezes era de
uma jovem de dezesseis. Os dois rostos sobrepostos.
—
Sim, irmã, eu preciso de ajuda.
—
Pode falar.
Jonas
escorou os braços na pequena mureta de madeira e olhou o nada.
—
Eu não sei mais o que está acontecendo com o mundo!
A
voz dele era a própria angústia.
A
freira também escorou os braços na mureta:
—
Não sabe o que está acontecendo com o mundo... ou não sabe o que está
acontecendo com você?
Jonas
Dark:
—
O que quer dizer?
—
Dê uma boa olhada em si mesmo! Veja o seu cabelo: usa costeletas e um topete certamente
inspirado no do Morrissey do tempo dos Smiths. Sua barba malfeita e seu
sobretudo com certeza foram tirados do personagem John Constantine, que também
já tem um bom tempo de estrada. Bebe vinho na garrafa, um gesto em memória dos
bons e velhos tempos em que saía com sua turma da escola para se divertir.
Vocês saíam pela noite felizes e, num mundo corrompido pela Guerra Fria e pela
negra ausência de esperança, conseguiam ser os Cavaleiros naquelas Trevas,
demolindo todo o edifício de normas criadas por seus pais. Se lembra daquele
tempo de punks e góticos? Se lembra daquele tempo em que aquela menininha com
cara de vampira “pagava um pau” para você? Dos fanzines rodados em mimeógrafos?
Você e seus amigos eram os reis do mundo!!
Jonas
Dark olhava espantado para freira de cara mutante.
—
Mas então o impensável aconteceu: vocês cresceram!! Vocês viraram adultos!! De
repente, Jonas Dark, o seu mundo ficou para trás e a sua contracultura
envelheceu e já não serve para o mundo que ora desponta. E o que você e seus
amigos fazem? Ao invés de tentarem se reciclar, afinal, não é o mundo que tem
de se adaptar a vocês e sim o contrário, vocês acabaram cedendo ao veneno fácil
de ficar falando: “Esses moleques de hoje só gostam de bosta; no meu tempo é
que a música era boa; tudo hoje é comercial”. Resumindo: vocês se transformaram
nos velhos que criaram o mundo da Guerra Fria, da poluição e do Sistema! Vocês,
que um dia tiveram a coragem de estar na vanguarda das coisas, hoje dão uma de
fodidões em suas cadeiras de rodas da preguiça mental e refutam o novo,
preferindo viver num passado que não voltará jamais, pois nesse passado vocês
sabiam quem eram e o que queriam, e hoje, apesar de já serem adultos e muitas
vezes já terem filhos, vocês já não sabem quem são e muito menos o que querem.
Mas eu sei o que vocês são. Vocês são ultrapassados! Vocês são o Sistema!
Dito
isso, a freira voltou para dentro da caverna do parque do Sol Negro. Uma menina
que passeava com sua avó perguntou: “Vó, a Bela Adormecida passou cem anos
sonhando com o quê?”.
A
manhã poluída no centro urbano é uma correria. Só que aquela era diferente.
—
Esse não me escapa...
Jonas
Dark perseguia em alta velocidade um vírus. Carros batiam, pessoas fugiam, a
anarquia ia se alastrando pela rua estreita.
—
Saiam da frente!
Totalmente
sem fôlego ele tentava fazer mira, mas a multidão atrapalhava e enquanto isso o
vírus ia ganhando terreno, se movendo com uma leveza e precisão inacreditáveis.
O Vírus praticamente voava sobre as coisas. Jonas Dark subiu num contêiner de
lixo. Parou. Segurou sua arma com as duas mãos. Fez mira com um olho só. Cerrou
os dentes. E disparou.
—
Acertei!
O
vulto voador caiu pesadamente sobre umas caixas de papelão de um beco sem
saída. Mais do que depressa ele pulou do contêiner e correu até lá. Vapores
sujos saíam dos esgotos. Poças de água imunda e alguns ratos gigantes se
esgueirando. Respirando descompassadamente e segurando seu “equipamento de
descontaminação” ele procurou nas caixas de papelão. Nada. Tomou então um
susto: onde o maldito estava? Virou-se rapidamente e mirou a esmo em torno de
si. A cada segundo sentia mais medo. Um rato passou correndo e acabou levando
um tiro por engano.
—
Calma, calma – repetiu para si mesmo ao ver os pedaços do infeliz roedor – afinal
o maldito não pôde sair voando...
Ao
dizer isso, se lembrou de olhar para cima. E assim o fez.
Tudo
foi muito rápido. A última coisa que sentiu foi quando levou um golpe na cara;
daí as coisas escureceram por uns cinco segundos. Ao abrir os olhos novamente
viu um vulto colorido com o pé sobre seu peito, segurando sua arma.
—
E agora, homenzinho?
Apesar
de ter dito isso, ela tinha quase a metade da estatura de Jonas que,
sentindo o sangue escorrer pelo canto da boca, foi seguindo com os olhos as linhas
da sua inimiga. A roupa colorida com motivos pós-psicodélicos se colava ao
corpo, realçando contornos femininos no auge da juventude. O rosto de menina
não revelava preocupação nenhuma. Coisa que o cabelo verde e o batom
vermelhíssimo só realçavam.
—
Pensa que é fácil deter a Verdade?
Agora
ele sentia o leve peso de Verdade sobre seu coração, que batia acelerado
enquanto ele olhava aquela menininha bonita. Mas mesmo assim ainda quis dar uma
de valente:
—
Vamos, acabe logo com isso. Atire.
Verdade
começou a observar a arma distraída.
—
Eu sou um vírus e você um antivírus. Somos inimigos. O meu destino é invadir o
Sistema e provocar o caos. É subverter a ordem. O seu destino é impedir que
isso aconteça. É. Eu devia mesmo matá-lo.
Em
menos de uma fração de segundo ela mirou e disparou. Jonas fechou os olhos só a
tempo de ouvir a bala ricochetear a pouca distância de sua cabeça. Ficou com os
olhos fechados por uns instantes, esperando um outro disparo, dessa vez
certeiro. Depois abriu só um olho.
Verdade
riu e sentou-se sobre o peito ofegante dele. Depois alisou-lhe os cabelos e
beijou sua boca ferida. Deixou a arma perto da cabeça dele e saiu correndo e
pulando de maneira acrobática, sumindo.
Já
tinha perdido a noção das horas sentado na sacada do apartamento onde morava.
Lá embaixo o trânsito pesado se arrastava e o barulho era intenso, mas
inacreditavelmente só havia o silêncio ao redor dos pensamentos de Jonas Dark.
Ao seu lado uma montanha de guimbas de cigarro. Estendeu a mão para pegar a garrafa
de cerveja escura; ela veio com algo colado em sua base; aquela revista
em quadrinhos. Notou como o ar ia ficando com cheiro de chuva e desgrudou a
revista da garrafa, mas não a tempo de impedir que a capa ficasse borrada com
um círculo. Ele ajeitou-se no chão da pequena sacada e ficou olhando para
aquele borrão que ganhava forma entre as figuras do Batman e a do Coringa. E a
forma foi ganhando forma, foi ganhando forma, foi ganhando... e ganhou a forma
de um homem nu de braços cruzados e olhos fechados entre os dois arquiinimigos.
Os primeiros pingos começaram a cair rasgando o ar urbano e ele abriu a
revista:
SENSACIONAL RAVE NO CIRCO COMETA
REDE!
VOCÊ VAI PULAR ATÉ NÃO PODER MAIS!
VENHA E TRAGA SUA GALERA!
DIA
18 DE FEVEREIRO, ÀS 10h15min.
(esse
anúncio dá direito a uma bebida energética)
Jonas
Dark pulou do furgão. O ar lunar da noite estrelada vinha misturado com cheiro
de mato e com o som distante de música eletrônica. Tudo isso reverberou em seus
pulmões como um soco de juventude. Conferiu a entrada para a rave que achou
dentro da revista do Batman. Tirou seu sobretudo, e por baixo dele apareceu as
cores vibrantes de uma roupa de vírus. Deu uma última olhada no espelho
retrovisor; apesar da escuridão seu cabelo estava tão cor de abóbora que
chegava a ser fosforescente.
—
Se a barra começar a pesar pode deixar que a gente vai correndo ajudar ao
senhor, Doutor Dark. Mas esse é o maior download de vírus que se tem notícia;
parece que todos resolveram baixar de uma vez!
Jonas
começou a caminhar na estreita trilha iluminada pela Lua. A noite estava uma
delícia. Sentia-se bem. Os grilos davam seu concerto invisível. Mas o que
impressionava mesmo era o som tecno que ecoava pelo céu noturno. Logo o clarão
laser no horizonte revelou as lonas de um imenso circo de cores luminosas. Era
estranho. Parecia mais um templo, por mais perturbador que isso pudesse parecer
para Jonas Dark, que começava a sentir uma enorme ansiedade. Queria fugir, e ao
mesmo tempo queria correr em direção àquela festa. Mas se fugisse, teria uma
desagradável surpresa: o som da música abafou o barulho do furgão da sua equipe
de descontaminação indo embora. Ordens da mulher de óculos: deixem o doutor
Jonas entregue à sua própria sorte.
Finalmente
chegou; resolveu colocar também os óculos de lentes amarelo-limão e nelas se
refletiu o letreiro em néon piscante que anunciava o circo rave Cometa Rede. Lá
estavam centenas de vírus na porta do circo com suas roupas psicodélicas (no
seu tempo diria que aquelas roupas tinham cor de rodinha de skate). Formavam
uma fila na entrada para deixar o folheto e pegar uma bebida energética. Ao
entrar na fila, julgou que o pessoal o encarava desconfiado.
—
Ei, de onde você vem?
Jonas:
—
Eu? Eu... sou... novo por aqui.
—
~!@#$%^&*()_+ ?
Só
faltava essa agora, pensou Jonas. Que linguagem da porra era essa? Não entendia
essas linguagens novíssimas, não sabia navegar ainda nesses sistemas. O que ele
quis dizer com aquilo? O Vírus insistiu: “~!@#$%^&*()_+?” Jonas Dark fez um
“Hang Loose” ; o Vírus exclamou: “Ah, sim...” e os amigos dele concordaram. Uma
grossa gota de suor escorreu da testa de Jonas. Ainda bem que ninguém mais
perguntou nada, já que o som da música fazia tremer o chão. Jonas deixou o
folheto na entrada e pegou uma lata prateada de bebida energética chamada Ecstay
Viruscan.
Ele
se embrenhou no meio da galera e começou a pular. Canhões de luz e raios laser
piscavam sobre a multidão luminosa que dançava de forma contagiante. No começo
meio sem jeito, mas depois com entusiasmo ao beber o poderoso energético, Jonas
Dark entrou no clima. E perdeu a noção do tempo. E do espaço. O mantra
eletrônico fundia a todos num só delírio. Só voltou a si quando percebeu que a
multidão gritava:
—
Verdade! Verdade! Verdade!
Com
os canhões de luz piscando de forma estroboscópica em sua direção, uma acrobata
apareceu no balanço lá no alto do picadeiro. A acrobata começou a pular
rapidamente de um balanço para outro, em sincronia com o pulsar das luzes. Ela
por fim saltou na Rede e dela, num pulo sensacional, no chão. Vários cones de luz
focalizaram-na. Era a Verdade. Ela abriu os braços e gritou, com sua voz de
menina:
—
Respeitável público, bem-vindos ao maior espetáculo da Terra!
A
galera vibrou.
—
Nessa noite maravilhosa teremos mágicos, malabaristas, engolidores de fogo...
Estranho,
Jonas pensou. O rosto da menina parecia diferente. E familiar. Pertubadoramente
familiar.
—
... E a reconstituição da fogueira em que Joana D’Arc foi martirizada. Eu peço
agora ao Light Jóquei para iluminar uma pessoa que fará o flamejante papel de Joana
D’Arc, e quem melhor para isso senão um penetra de nome parecido? LJ, luz no
antivírus Jonas Dark, cortesia da Notion Antivirus!
Seis
cones de luz branca focalizaram a atônita figura de Jonas.
—
Amarrem esse imbecil no mastro principal!
Completamente
surpreso Jonas Dark foi dominado e levado para o centro do picadeiro, onde foi
amarrado num poste. Respirava sofregamente enquanto via seus algozes juntando
todos os folhetos da rave aos seus pés e depois jogando gasolina.
—
“...now I know Joan of Arc felt / as the flames rose to her roman nose / ande
her Walkman started to melt” - Verdade cantarolava alegremente enquanto jogava
mais folhetos ao redor de Jonas – Espero que eu não esteja cantando errada essa
música do seu tempo, Doutor Dark. Sim, seu tempo, que já passou. O senhor fuma,
não? Claro que fuma. Até seus vícios são obsoletos e não estão com nada. Assim,
creio não se importar se eu pegar emprestado o seu isqueiro. Bem, aqui está
ele; obrigada!
O
fogo começou a subir.
—
Malditas mulheres encontradas ao acaso, não é, Doutor Dark? Algumas de nós têm
o péssimo dom de fazê-lo se sentir em carne viva! Mas o que você não percebeu é
que todas as mulheres malditas na verdade são uma só: EU!
Fumaça
e fogo brotavam dos quilos de folhetos nos pés de Jonas.
—
O que... o que você quer dizer? O que você quer?
— Queremos ver o circo
pegar fogo. Não é, galera?
A
multidão colorida concordou numa gritaria infernal. O som tecno voltou a rolar.
— Dê uma boa olhada
naquela cidade poluída e decadente e sua sociedade estressada, doutor Jonas
Dark. Talvez o problema não seja tanto o Sistema, e sim o modo de vida dos
cidadãos respeitáveis e caretas que o fazem! Diz um ditado que as pessoas que
não conseguem achar tempo para a diversão são obrigadas mais cedo ou mais tarde
a achar tempo para a doença. Pois bem, doutor, talvez um rápido diagnóstico seu
sirva para confirmar que nós somos a doença do mundo. Para o Sistema somos
simples vírus problemáticos. O que todos se esquecem é que foram os pais
de família trabalhadores quem nos geraram nas horas de ócio e agora tremem pelo
nosso poder! De repente o Criador viu que a Criatura se revelou rebelde e então
criou o inferno para castigá-la, porém a Criatura achou o inferno o lugar mais
cool do mundo! Galera, vamos pular em homenagem ao inferno!
Os D.J.’s aceleraram o
som sampleando o Prodigy, e os vírus voltaram a dançar com todo o gás, sob a
luz pulsante de uma teia de lasers vermelhos. Jonas, malgrado sua situação,
passou a agitar a cabeça ao ritmo da percussão eletrônica, de olhos fechados e
dentes entrecerrados. Verdade, dançando vertiginosamente, se aproximou da
fogueira recém-nascida, que iluminou o baralho de tarô que ela tirou de dentro
da calcinha:
— Escolha uma.
Com
a boca Jonas puxou uma carta.
— Vejam só! Você tirou a
carta número seis, Os Enamorados. Um jovem de braços cruzados entre duas
garotas, uma sendo o vício e a outra, a virtude. É a carta da escolha: o jovem
tem que escolher uma delas, dois caminhos distintos: o caminho novo e o velho.
No caso do jovem punk Jonas Dark de mais de uma década atrás, ele sentiu
indiferença quando se viu diante de algumas escolhas.
As
solas dos tênis de Jonas começavam a derreter e isso no seu desespero o lembrou
duma música da Siouxsie, embora não fizesse muito o seu gosto; mas, gostasse ou
não, talvez os banshees estivessem pulando alegremente por ali ao ritmo da rave
e anunciando o seu fim. Os cabelos estavam totalmente encharcados do suor que
removia a tinta cor de abóbora deles e, conforme escorria em bicas, ia pintando
o rosto de Dark como o de um guerreiro celta. Ele voltou a fechar os olhos por
um tempo – como quem faz uma prece. Em seguida os abriu determinado e encarou a
sua carrasca:
— Espere! Agora é minha
vez de falar. Você acha que eu não fiz nenhuma escolha, mas está equivocada.
Todos vocês estão. Sim, vocês que se acham
“As exceções”. Toda essa pose,
toda essa onda, mas vocês não estão com nada, seus idiotas! Ou se esquecem que as
exceções servem para confirmar a regra? Quem mais lucra com a existência de vocês
é o Sistema; vejam a Notion Antivirus, vejam os políticos ladrões que se elegem
com o velho discurso de segurança pública. O Sistema precisa de inimigos para
poder funcionar e graças a vocês ele está funcionando muito bem!
— Não venha com essa
conversa cínica, doutor Jonas Dark! Seu salário também vem de quantos de nós
consegue apagar na calada da noite! Você já foi como nós, o underground já
correu por suas veias, sabe o que se passa num coração rebelde e ávido por
diversão. Mas como todos os outros que vão envelhecendo, finge não saber
dessas coisas. Você traiu a si mesmo; não tem suficientes reservas morais para
nos dizer que estamos errados! Logo o
Sistema perceberá que a repressão pura e simples não adiantará mais, pois todas
as pessoas começarão a se questionar por que deveriam viver a vida toda de um
jeito que não gostam e nesse momento voltarão seus olhos para a maneira como
vivemos: nos divertindo.
— Pensa que me
impressiona com seu discurso, Verdade? Nããão! Você está esquecendo do
principal, e que justamente é a escolha que fiz para minha vida. Aquela carta
que eu tirei representa a escolha entre dois caminhos, conforme você disse. O
velho e o novo, o vício e a virtude, o Sistema e o underground. Mas, diante
desses dois caminhos eu optei pelo não-escolher, muito embora para vocês pareça
que eu tenha escolhido pelo Sistema e, para as pessoas do Sistema, eu pareça
underground demais. E sabe por que eu escolhi o não-escolher? Pelo mesmo motivo
que essa carta se chama Os Enamorados. O que é a revolta ou qualquer outra
coisa diante do amor? Nada!! Sim, com o tempo eu fiquei amargo e cínico, devo
reconhecer. Como também é verdade que não houve um dia sequer, ouviu bem? Um
dia sequer nessa última década cretina em que eu não tenha pensado “naquela” resposta
que eu fiquei de dar outro dia a certa pessoa que acabou fugindo. Pois o dia
chegou, já que tornei a encontrar essa pessoa: Vera, menininha com cara de
vampira, eu te amo!
Verdade
olhou para ele espantada. Ela fechou os olhos, como que sorvendo aquelas
palavras há tanto tempo esperadas. Em seguida pôs as mãos no rosto e soltou um
pavoroso grito enquanto se transformava na mulher de óculos para quem Jonas
trabalhava; o seu grito foi tão forte que rachou as lentes dos óculos e pelos
aros vazios saiu um pano escuro que a encobriu transformando-a na freira de
cara mutante do parque do Sol Negro; em seguida se jogou no ar, como um
enorme corvo e quando caiu no chão havia mudado a cara para a mulher gótica tão
pálida quanto a Branca de Neve, por fim a palidez da mulher foi aumentando e se
cristalizando até que ela virou uma gigantesca crisálida, que rachou em mil
pedaços, de onde saiu uma linda borboleta, cujas asas se dissolveram num
pólen de luz e então foi Vera quem surgiu, envolta em vapores, com a mesma
camisa branca e o mesmo jeans desbotado com os quais Jonas a viu no shopping
center no início da década passada.
— Jonas... eu achei que
você nunca viria...
Ela foi até a fogueira,
abraçou Jonas e beijou sua boca. O fogo estava tanto fora quanto dentro de seu
coração, e a dor e a alegria se fundiram num só. Os cones de luz cegaram-no e
em torno dos seus olhos fechados como os de um recém-nascido havia um
mundo feito de luz branca e ventos que sacudiam violentamente seus cabelos,
onde não havia nem o novo e nem o velho. Diziam que aquele deserto – que
em breve iria florescer de novo - era
tudo o que restava do Sistema, que finalmente foi quebrado por um hacker
e tudo o que ele precisou fazer foi amar a Verdade do mundo, que pelo menos
para ele tinha a forma de uma garota com cara de vampira.
Notas
sobre Jonas Dark:
Dançando
dentro da barriga da baleia...
Jonas Dark foi o primeiro texto
importante que criei desde a obra The Box Man.
A idéia original era assim: o mundo
ainda estaria na década de 80, e tudo seria poluído e cinza; das cidades às
pessoas. Aí apareceriam jovens coloridos que colocariam em xeque a normalidade
monocromática dessa realidade; posteriormente se descobriria que essa realidade
estilo anos 80 seria inteiramente gerada em computador, e os tais jovens
coloridos eram na verdade vírus jogados no sistema para que as pessoas
abandonassem o emprego virtual alienante para então viver a vida real. Haveria
uma espécie de “chefona” dos vírus virtuais humanóides, tratada por eles como a
rainha, mais poderosa de todos. Um policial seria designado para matá-la, mas
então ele teria a impressão que essa menina-vírus seria uma antiga namorada,
tão humana quanto ele.
Por que década de 80? Na minha opinião essa década foi a última em
que as pessoas tinham certeza de algumas coisas. A década de 90 trouxe o fim da
certeza e da segurança que se tinha com relação à estabilidade do emprego, do
casamento, da política, da cultura, de economia, enfim. Tudo isso ficou
extremamente instável e está a todo instante mudando. As pessoas não sabem
quanto tempo seu emprego vai durar, nem seu casamento e assim por diante. Cada
vez mais a certeza do ser humano é virtual, e isso vem ocorrendo de maneira
análoga ao impacto das novas tecnologias na sociedade. Dessa forma o emprego, os relacionamentos
amorosos, etc, também estão se tornando virtuais, quer porque estão sumindo da
realidade real, quer porque o virtual recria ilusoriamente (?) a felicidade que
eles um dia proporcionaram ao ser humano.
As pessoas estão buscando empregos
virtuais porque paradoxalmente eles proporcionam (por enquanto) uma certeza que
o emprego real já não pode dar. Assim, pensei que, para combinar com essa
sensação de estabilidade, nada melhor do que se mover virtualmente pelo mundo
dos tempos em que ainda havia certezas duradouras.
Essa
é uma das idéias iniciais de Jonas Dark. Nele, as pessoas trabalhariam
virtualmente inseridas na recriação virtual dos anos 80.
“’Virtualmente’ inseridas?...” Os
leitores devem estar pensando: ”Xiii, já vi essa história antes...” Pois é,
qual também não foi a minha surpresa, naquela noite de 1999, quando fui ao
finado cine Olido, ao lado da Galeria do Rock, para assistir Matrix... apesar
do desenvolvimento diferente, era exatamente a mesma idéia!
É evidente que agora eu teria que dar
um novo desenvolvimento à história. Mas eu ainda não sabia por onde começar.
Na época, ou melhor, um pouco depois, eu entrei em profundo desgosto existencial devido ao fim do meu noivado – fato que é citado no meu texto “Deus Est Machina”. Eu então ia me sentar ao lado da pequena caverna que existe dentro do Parque da Luz, em São Paulo, para sentir com toda intensidade o opressivo silêncio que de repente se abateu em minha vida. Era outono, e a luminosidade envelhecida do dia tornava tudo ainda mais distante. Eu, então com 24 anos, começava sentir com uma intensidade singular a pior distância que nos separa das coisas: o tempo cronológico. As minhas bandas, as músicas que eu gostava, a minha maneira de amar, enfim, tudo estava envelhecendo como outono que a tudo amadurece para em seguida matar e apodrecer. A contracultura que eu tanto gostava agora só aparecia em flash-backs, e os meus ídolos estavam todos gordos e carecas. Eu via uma nova contracultura surgir no mundo, uma molecada colorida de15-19 anos que contrastava com o pessoal vestido de preto da “minha” época. Eu senti uma certa raiva desse novo pessoal; achei todos eles fúteis, superficiais, sua música eletrônica repetitiva e sem criatividade, achei que todos eles eram uns vendidos e sem nada na cabeça, pareciam subprodutos de shoppings centers.
Então um estalo aconteceu em minha
cabeça: ei! Espera aí!... Eu estava começando a falar mal dos novos! Eu estava
agindo exatamente igual aos velhos da época em que eu era moleque! Eu estava me
tornando um “deles”!
Não, isso não poderia acontecer. Como diria Renato Russo em
uma de suas músicas, “Não vou me deixar embrutecer/ eu acredito nos meus
ideais/ Podem até maltratar meu coração/ que meu espírito ninguém vai conseguir
quebrar”. Sim, meu coração estava em ruínas. Mas nesses escombros eu ainda
manteria a chama do idealismo que incendeia todo coração jovem. Não, essa chama
não se apagaria em mim, apesar da passagem inexorável dos anos. Não quero me
tornar um desses cidadãos de meia-idade que têm medo de tudo o que é novo e por
isso nunca fazem nada diferente e que se casam com uma perua materialista que
adora sentir inveja dos corpos das meninas mais jovens. A história de Jonas
seria uma espécie de manifesto de sobrevivência (o episódio da pequena caverna
no parque da luz foi incorporada ao texto de Jonas como a parte em que a freira
sai da caverna do parque do sol negro).
Assim,
pouco a pouco a história deixaria de ser somente uma ficção científica para ser
uma antena captadora dos anseios, medos e ilusões de um adulto que deixa de ser
adolescente. A década de 80 tornou-se uma lembrança tênua na versão definitiva,
sequer ela chega a ser citada, pois o texto iria tratar de algo muito maior,
que é o conflito universal de gerações muito recentes, não importam quais
sejam. Por outro lado, a obra não
deixaria de lado totalmente seu lado de ficção científica, pois uma nova ótica
estava nascendo. Ao invés de um ambiente virtual, o mundo de Jonas seria
simplesmente uma analogia ao sistema operacional de um computador. O jovem
teria o papel de vírus nesse “Sistema”: ele embaralharia, misturaria, fundiria
e criaria novas coisas, obrigando com isso ao “Sistema” a se atualizar também,
sob o risco de sucumbir pela inadaptação e pela obsolescência.
Obviamente criação, atualização e
obsolescência são escolhas que se faz ao longo da vida. Ninguém é jovem para
sempre; essa exuberante menininha de 17 anos que passeia, bem magrinha e feliz,
pelo shopping center hoje será a megera siliconada e cheia de cirurgias na cara
de amanhã. E esse jovem antenado dessa mesma idade será o “pai de família”
reacionário dos dias vindouros, pois tudo na vida passa – já dizia o Velho
Testamento no livro de Eclesiastes – e ninguém pode ser arvorar do direito de
ser jovem, bonito e “cool” para sempre. No entanto manter a cabeça aberta para
o novo é um desafio permanente e que depende de nosso livre arbítrio. Orgulho e
preconceito são obstáculos a serem superados para quem pretende manter a cabeça
aberta.
Qual é o ponto de equilíbrio? Como
manter a herança cultural de nossa juventude ao mesmo tempo em que permanecemos
abertos para as novidades que vêm com a nova juventude de todos os anos? Não
podemos nos envergonhar de nosso passado, de nossos topetes e calças bocas de sino.
Mas também não podemos achar que “esses jovens de hoje em dia não são mais como
antigamente e só gostam de bosta...”.
Atitudes e escolhas, escolhas e atitudes, escolher e não escolher... (eu
devo acrescentar aqui uma coisa importantíssima: hoje o jovem pode ser hippie,
punk, rockabilly, gótico, clubber... ninguém é mais obrigado a ser o que todo
mundo é. O mundo hoje é múltiplo e variado, e cada contracultura acaba por
captar uma face desse mundo. Acaba sendo extremamente válido que um menino de
16 ou 17 anos goste de uma contracultura mais velha do que ele próprio, pois
isso não significa uma mera estagnação, já que ele irá lançar sobre essa
contracultura um outro olhar, com um repertório diferente dos jovens de
antigamente, além do que ao menos para ele aquilo tudo é novo e muito
fascinante. Menos desculpas têm os pais desse mesmo moleque, de continuarem
apegados à mesma visão do mundo que tinham a vinte ou trinta anos atrás).
No final de 1996 eu comprei um tarô
para saber se uma ex-namorada iria voltar para mim (é, amiguinhos, logo vocês
percebem o porquê de haver tantos amores desencontrados em meus textos...).
Bem, ela não voltou, mas em compensação eu comecei a pesquisar a simbologia dos
arcanos. O tarô me influenciou profundamente, e continua a me influenciar.
Foi pensando em como a “escolha” estava
presente na nova versão da história que eu voltei minha atenção para o Arcano
6, o arcano das artes e do amor que tem vários nomes: O Enamorado, Os
Enamorados, Os Amantes, A Indecisão. Ninguém que fica preso dentro de sua casa
pode amar alguém. É preciso por o pé na estrada e conhecer a vida, e a partir
desse momento o ser humano passa a ter que fazer escolhas pelos caminhos que
passa. Há muitas bifurcações à frente, que levam a novas bifurcações e assim
por diante. Escolher cada uma delas requer sensibilidade, intuição e
estratégia. Mas invariavelmente tudo sai ao contrário do que a gente pensa, e a
vida é bem isso aí: a imprevisibilidade.
É assustador fazer novas escolhas que podem nos levar à ruína, como
também o é permanecer em nossa velha e arruinada escolha. Se apegar ao velho ou tentar o novo? A
cabeça de Jonas é um turbilhão que se move entre essas escolhas, como uma nuvem
entre rios (talvez os rios se chamem Tigre e Eufrates! Isso quer dizer que a
cabeça de Jonas é a Babilônia! É um Iraque prestes a ser pulverizado, mas ainda
assim lugar de antigas opulências).
As mudanças em Jonas eram minhas
mudanças.
Uma das alterações entre a velha versão
de Jonas e a nova foi com relação ao seu sobrenome. Inicialmente a história se
chamou “Jonas Doc.”. Como se pode observar, existe uma ambigüidade no “doc”,
que tanto pode ser abreviação de “doutor” – o obscuro título de Jonas – quanto
da extensão de arquivo de texto “.DOC” – o que seria um indício da possibilidade
que o próprio Jonas não existir na vida real (talvez uma futura versão em
inglês da história deixe mais nítida essa ambigüidade). Sua própria função de
antivírus depõe a favor dessa tese. É óbvio que essa dúvida existencial dele
foi inspirada na do caçador de andróides em Blade Runner – Deckard caça
andróides, mas ele também pode ser um andróide. Blade Runner, por falar nisso,
é citado logo no início de Jonas. Bem, numa dessas incríveis coincidências que
tanto deram boas coisas para a humanidade, eu, ao copiar o arquivo .doc da
unidade C de meu computador para o disquete, escrevi erroneamente o nome de
Jonas Doc. para Jonas “Dark”! Eu olhei para esse nome novo e pirei! Tinha, sem
querer, criado um dos nomes mais carregados de significados da minha vida!
Jonas Dark faz óbvia referência à Joana
d’Arc, a menina que foi traída e queimada na fogueira. O “Dark”, por sua vez,
faz referência à contracultura dos anos 80 em que a cor preta predominou, tanto
em punks quanto em góticos. Assim, foi muito melhor, pois a chamada “década
perdida” estaria subentendida sem que eu precisasse situá-la nominalmente no
tempo, ao mesmo tempo em que a analogia com a santa Joana faria o leitor supor
do possível trágico final de Jonas e também que ele, como a santa, estaria
lutando uma batalha perdida.
(há também a explicação do porquê do
nome “Jonas”, mas ela é explicada no texto propriamente dito e trazê-la aqui
seria redundância).
O que é Jonas Dark? Ele é o desespero
de um jovem que envelhece. É o organismo que se sente ficando obsoleto nessa
época de upgrades automáticos. Até que ponto isso pode acontecer na vida da
gente? A cada ano novos jovens e novas culturas que nos fazem lembrar o quão
jurássicos nós somos.
Não podemos ser eternos, a despeito dos
delírios da seita Raeliana. Um dia chegaremos ao fim da linha. Somente os
vampiros são eternos, e o preço que pagam por isso é alto demais;
transformam-se em mortos-vivos e vivem longe da luz. Jonas Dark tem como meta pulverizar seus medos numa fogueira e
aceitar com mais serenidade o passar da vida.
Sim, um dia morreremos. Aquelas noites
em que dançamos estarão para sempre perdidas na memória... nossos beijos e o
nosso sexo, nosso amor e nosso remorso... tudo estará perdido... mas sorriremos
pela última vez, e diremos à eternidade que nossa existência efêmera foi
divertida à beça e que valeu muito a pena.
E enquanto isso não ocorrer, continuem
dançando, seus velhos caquéticos! Iupiiii!
Josiel
Vieira

(ainda
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02/02/03