
IMPRESSORA (H)(P)
(H)UMAN (P)RINT
modelo genejet
impressão a
jato de genes
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A menina se aproximou da impressora.
Instruções
de uso:
a) Início:
aperte o botão “início”
Seu
coração estava descontrolado e ela respirava com dificuldade.
b) insira o disco do software
Sem
ela sentisse, algumas lágrimas foram inseridas em sua face por seus olhos.
c) coloque os cartuchos de genes
Ela colocou os grandes cartuchos na posição correta. O que importa mesmo é causar uma boa
impressão.
ERRO 666
! ATENÇÃO!
OS CARTUCHOS NÃO SÃO ORIGINAIS! PRETENDE
CONTINUAR A
OPERAÇÃO MESMO ASSIM?
O preço que se paga é apenas um detalhe sem importância
por uma boa impressão.
d) escolha o modelo a ser impresso:
1- astros da T.V.
2- astros da moda
3- astros da música
4- astros do cinema
5- astros da religião
6- astros da arte
7-astros do esporte
8-astros do direito civil
romano
9-astros da política
10- astros da
literatura de auto-ajuda
Literatura
de auto-ajuda era como aquele pão com o qual Joãozinho e Maria fizeram uma trilha de
migalhas pela floresta e que logo os passarinhos comeram, deixando os dois
perdidos sem saber como voltar à casa paterna.
Tempos atrás a menina estava derrubada num canto do
banheiro e uma trilha de sangue saía do seu corpo até o vaso sanitário.
Como nenhum passarinho se interessa por sangue de aborto,
ela tentou apagar a história daquele sangue com um pano molhado, mas de nada
adiantou.
f) escolha a qualidade da impressão:
1- otimizada
2- normal
3- rascunho
“Otimizada” gastava muito material; por outro lado
“rascunho” tinha um resultado sofrível. Escolheu “normal” – e o “normal” era
apenas mais uma impressão como qualquer outra. Conclusão sombria.
g) coloque a página
biológica a ser
impressa na bandeja da
impressora.
A menina tirou a roupa e se deitou na bandeja. A primeira impressão é a que fica.
...iniciar escaneamento genético...
...iniciando...
...aguarde por favor,...
verificando o nome e o DNA do usuário...
...aguarde por favor,...
Você optou por
alterar sua aparência geneticamente.
Tem certeza que deseja imprimir
mudanças genéticas ao seu corpo?
(X)SIM (
)NÃO
É recomendável fazer
um backup do seu antigo corpo
para fins de default
Deseja fazer isso agora?
( )SIM (X)NÃO
Tem certeza que não quer
fazer um backup?
Será impossível retornar
à sua antiga aparência
sem um backup
(X)SIM ( )NÃO
Iniciar impressão...
...imprimindo...
...................
.............
......
...
..........................................
....... A impressora naquele
prédio em ruínas era como um sarcófago. Sarcófagos eram aquelas tumbas maneiras
onde os mortos tinham a
impressão
de poderem ressuscitar. A bandeja se abriu; escuridão no início, depois o
cheiro de gelo seco. Uma réstia de sol cruzou
os escombros do saguão revelando a poeira suspensa no ar e o rosto dela. A impressão que se teve era que a própria
Marilyn Monroe estava ressuscitando totalmente nua daquele túmulo high-tech.
Ela apanhou uma bolsa onde havia o legado de seu namorado que se encontrava
preso e saiu disposta a cometer uma nova modalidade de crime.
Folhas de revistas foram agitadas dentro
dos escombros do prédio atingido por ataques terroristas em tempos imemoriais:
D. P. I.
A revista estatal das boas impressões*
* grátis um disco com modelos para imprimir
nesse número:
MATÉRIA COMPLETA
SOBRE O RECENSEAMENTO
O Estado estará fazendo
durante essa semana o recenseamento on-line. Centenas de milhões de pessoas
serão recenseadas automaticamente. Tudo graças à tecnologia das pistolas de
censo e ao método de identificação
ativo utilizado pelo Instituto de Identificação do Estado.
Os dados obtidos com o
recenseamento serão de vital importância para a economia. Permitirão traçar com
absoluta precisão e em tempo real o perfil sócio-econômico dos cidadãos. O
principal instrumento utilizado nesse processo é a pistola de censo IBN.
A pistola de censo e a história
da identificação ativa
Por décadas a
identificação dos seres humanos ficou a cargo da chamada identificação passiva,
onde as características pessoais do indivíduo eram consideradas únicas e por
isso se constituíam no elemento que o diferenciava dos outros indivíduos. Nessa época as principais fontes de
identificação eram a impressão digital
e o DNA, consideradas 100 por cento seguras. O advento da clonagem humana
simplesmente tornou superada a identificação passiva. Era impossível diferenciar duas pessoas que partilhavam o mesmo
DNA, e logo a clonagem começou a produzir embriões de matrizes genéticas em comum em escala industrial. O mundo só
começou a se dar conta do problema depois de vários anos da clonagem humana
virar algo normal. Os crimes cometidos por um
clone deixavam indícios praticamente inúteis para a perícia policial; o
material coletado poderia ser de qualquer um dos milhões de clones de uma mesma
série genética. Para contornar essa situação surgiu então a chamada identificação
ativa. A diferenciação dos cidadãos passou a ser um dos atributos do Estado. O
método utilizado atualmente é o de implantar um “número de série” virtual no
DNA – cerca de 60 a 70 por cento do DNA
é considerada apropriada por não ter função genética alguma e se presta
muito bem a esse tipo de identificação, pois dá trilhões de combinações de
números possíveis – e com isso todos os cidadãos passam a ser diferenciáveis
por aparelhagem eletrônica adequada, mesmo no caso dos clones. O nome desse número
de série se chama Registro Genético, ou
R.G., e logo passou a ter um uso que transcendia a mera identificação; o número
digital do R.G. passou a ser a senha de
cartões de crédito, contas de banco, de internet, de computadores, enfim: toda a vida sócio-econômica de um
cidadão poderia ser aberta ou fechada por um número impresso nele pelo Estado.
A leitura do Registro Genético de um
cidadão é feita pelas chamadas “pistolas de censo”, um dispositivo que tem esse
nome por ser semelhante a uma arma portátil. Basta que a pistola de censo seja
apontada a um cidadão para que o instrumento capte não só o Registro
Genético desse cidadão, mas todo o uso que esse cidadão fez do R.G. Os dados
são enviados via-satélite para o computador central do Instituto de Identificação
do Estado, que tem on-line toda a vida da população.
Esse sistema é de importância estratégica
para a economia e para a segurança da nação. Se um funcionário a serviço do
Estado lhe apontar uma pistola, colabore alegremente com ele!
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Marilyn Monroe passou na praça em frente
ao shopping center onde um missionário clone estava pregando para uma multidão
de clones da construção civil. Aproveitou para testar sua pistola de censo
neles: nenhum deles tinha Registro Genético. O missionário vociferava para os
prédios esmagadores:
— Irmãos! Irmãos! Meus irmãos!... vocês
que como eu não têm o sinal do Anticristo! E que por causa disso não podem
comprar ou vender! E que são discriminados pelos filhos da Grande Babilônia!
Alegrem-se, meus irmãozinhos! Pois está chegando a hora do Apocalipse!
“Irmãos! Já bem disse o Nosso Senhor que
é mais fácil entrar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar
no reino dos céus! Irmãos, somos os filhos de Deus mais humildes da Criação,
pois não possuímos sequer o nosso próprio DNA! E por isso somos mais do que
abençoados!”
“Vivemos
uma provação, meus irmãos. Para ser cidadão é preciso ter o Registro Genético,
e para ter o Registro Genético é preciso ter dinheiro. Clones nunca têm
dinheiro, portanto nunca são cidadãos. Mas não precisamos ser cidadãos da
Grande Babilônia! Não precisamos do sinal do Anticristo! Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão
o Reino dos Céus!”.
“Irmãos! Hoje a grande nação sem país somos nós, os clones! Nos fabricam às
centenas para os trabalhos mais degradantes! Robôs industriais não podem ser
demitidos e chutados, mas nós, clones, sem Registro Genético e sem nenhum amparo
legal, podemos, e é por isso que continuam a nos produzir e empregar em
trabalhos braçais! Quando não sabem quem colocar na cadeia, os lacaios de Satã
pegam o primeiro clone que aparece pela frente e o condenam! E o que fazer? O
que adianta clamar pela justiça dos homens? Cordeiro de Deus, que tirai os
pecados do mundo, tende piedade de nós!”
“ Não temos nada, mas possuímos o bem
mais elevado que é a fé! Irmãos, não percam a sua fé porque Deus sabe de todas
as coisas!”
O seu namorado era um clone.
E ao ouvir que Deus sabe de todas as
coisas, Marilyn lembrou do vaso sanitário de sua casa. Que teatro:
O
TEATRO DA FAMÍLIA FELIZ
PARA
CRIANÇAS
(Lá
estava a família feliz ao redor da mesa para mais um nutritivo café da manhã
preparado pela mamãe. O Sol amarelo brilhava, o galo cacarejava e o gato
ronronava).
Papai (com uma voz entusiasmada): Bom dia, minha querida família!
Filha 1: bom dia, papai!
Filho: bom dia, papai!
Mamãe: bom dia, meu amado esposo!
Filha 2 (com
uma cara de náuseas): fala aí, pessoal...
(A
família olha para a filha com espanto).
Mamãe: Marian, querida!...
Isso são modos de falar para seu papai?
Filha 2 (passando a mão no rosto abatido): foi mal... putz, eu
estou meio mal, caralho... que noite da porra...
Mamãe: Papai do céu castiga
menina de boca suja!
(O Papai que não era do céu lança um olhar oblíquo para a
Filha 2 por alguns segundos. Um olhar mortal).
Filha 1: Papai, me dá dinheiro
para comprar cartucho de genes? Vai ter uma festa na casa da minha amiga e eu
preciso urgentemente mudar minha aparência para um corpo de modelo Ultrafashion
B-612.
Papai: O cartucho já acabou?
Mamãe: Ora, vamos, querido.
Está fazendo um dia tão dourado! Além disso, sabe como são esses jovens de
hoje! Precisam de uma aparência nova todos os dias. Querem causar uma boa impressão.
Filho: Ei, eu também quero!
Tem um novo software para impressoras genéticas aí que vai me deixar com um
corpo sarado!
Papai (sorrindo): Muito bem, meus
queridos filhos, é assim que se faz. O que importa mesmo é causar uma boa
impressão. Ah, meus filhinhos... vocês são o orgulho do papai... Ainda bem que
graças a vocês passamos uma impressão muito boa para a vizinhança.
(Marian e Papai se encararam. Um silêncio pesado se fez).
Papai: Os jovens de hoje não
tem identidade própria. Qual a impressão que se tem do que não tem identidade?
Clones não têm identidade. Marginais também não.
Papai
quis ser agradável, mas ele lança umas palavras para ela como facas. Marian olhou para ele com ódio a lhe
inflamar os olhos:
Filha2, chamada Marian: escuta, isso aí é uma
indireta? O que você entende de identidade própria? Você, e todos vocês trocam
de corpo como quem troca de papel higiênico!
Papai: Mais respeito com seu
pai, menina!!
(Um
silêncio ainda pior se fez na mesa feliz da família feliz. Mamãe tentou ser
conciliadora):
Mamãe: Marian, você é a única
pessoa da família e da vizinhança que nunca modificou geneticamente sua
aparência. O que há com você? Você tem medo de perder seu corpo original? Não
precisa ter medo, Marian, é só mandar a impressora gravar a forma original do
corpo para fins de default, para o caso de você não se agradar do novo corpo
impresso. Todo mundo faz isso, não
entendo por que você...
Filha2, chamada Marian (com voz entediada): Eu sei de tudo isso, mãe. Mas vocês sabem o que
acontece dentro dessa tumba chamada impressora a jato de genes? Bem, primeiro
os solventes biológicos derretem sua carne e ossos até chegar no sistema
nervoso. Não sei quanto a vocês, mas para os meus padrões é apavorante ter o
corpo reduzido a um cérebro boiando num lodo nojento. Em seguida os cartuchos de jato de genes começam a imprimir um
corpo novo ao redor do sistema nervoso conforme as preferências estéticas do
freguês. Algumas vezes dá errado, e uma aberração monstruosa sai do...
Filha 1: Mamãe, a Marian tá me
assustando! Manda ela parar!
Papai: Cale a boca, Marian!
Foi aquele namorado clone quem encheu sua cabeça de minhoca? Quem esse clone
pensa que é? Ele acha que é algum tipo de herói por ser hacker e invadir os
computadores dos outros? Aquele marginal merece ir para a cadeia!
(Marian
levanta e dá um murro na mesa):
Marian: Ele é um ser humano!
Papai: É um idiota! Como
você!! Você envergonha a mim e a sua mãe! Você estava grávida de um clone
marginal!
Marian (espantada): como você descobriu?
Papai: A privada! Você abortou
na privada!
Marian (ainda espantada): mas como?...
Eu... eu... essa noite... você não poderia saber...
Papai (furioso, e puxando o cinturão): Você não é mais a minha filha! Suma da minha
frente. Pegue suas coisas e rua!
Marian (sobe as escadas sob furiosas cintadas de
seu pai. Pega sua bolsa
apanhando e mal tem tempo de colocar umas
roupas. Sai para sempre da família feliz envolta num turbilhão de invisíveis
arames farpados que dilaceravam seu entendimento tal qual o cinturão do seu
papai em seu jovem corpo de menina original. O papai fica parado na porta,
bufando com os olhos vermelhos. Depois que a filha desaparece nas esquinas,
comenta para a mamãe):
Papai: Foi excelente sua idéia
de instalar um vaso sanitário de alta tecnologia, querida. Ele nos livrou dessa
vergonha de filha. Ainda bem que o vagabundo do clone a essa hora deve estar
preso. Eu avisei à polícia que ele era hacker. Não vai ser difícil
incriminá-lo. O DNA dele pode ser achado em qualquer local de crime, se é que
me entende. A polícia faz milagres!
Mamãe: Que horror, meu Deus;
minha filha grávida de um clone... ainda bem que na janta de ontem eu coloquei
um abortivo na comida dela. Um dia Marian ainda vai me agradecer...
Papai: É, minha querida
esposa, a janta de ontem estava maravilhosa.
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Só para tirar a limpo essa história, Marilyn Monroe – ou
Marian – resolveu aplicar uns truques que o seu namorado hacker lhe ensinou.
Foi num computador público. Digitou alguns códigos primários e teve acesso aos
dados da casa da Família Feliz, inclusive aos dados do vaso sanitário de alta
tecnologia... vamos ver o que a
privada dizia sobre o
moralismo da família feliz:
VASO SANITÁRIO
MODELO ECO 9005
ANALISADOR DE MATERIAL ORGÂNICO
BANCO DE DADOS DA FAMÍLIA FELIZ
MARIAN: última análise de urina foi há trinta dias;
demonstra gravidez com provável clone, maiores dados clique aqui [ ]
PAPAI: análise atual
demonstra sexo anal com humano desconhecido, maiores dados clique aqui
[ ]
MAMÃE: análise atual de secreções vaginais demonstra
atividade sexual com humano desconhecido, maiores dados clique aqui [ ]
FILHA 1: análise atual demonstra sexo com PAPAI, e forte
anorexia; maiores dados clique aqui [ ]
FILHO: analise atual demonstra intenso uso de drogas,
maiores dados clique aqui [ ]
Ao ver esses dados, Marian sorriu com o canto da boca.
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A tarde já descia como um descanso de tela sobre a cidade e
Marilyn Monroe Marian logo mexeria no “mouse” que trazia dentro de sua bolsa
para agitar para sempre aquela aparente
calma que pairava no ar.
Ela foi para um bar para comer. A gordura sintética do seu
sanduíche se fundiu à música gordurenta de tão ruim que começou a tocar.
Suspirou:
— Oh, não. Mais uma banda que tem mensagens para dizer. Mais uma banda com
“conteúdo”.
— Ei, Marilyn, até que esse é um som legal.
Oh, não, Marilyn pensou. Mais um cara que curte bandas
com conteúdo. Mas ela se surpreendeu ao olhar para o lado; o cara que lhe tinha
falado era uma cópia fiel de Adolf Hitler! Ele estava com o uniforme dos
carteiros e comia um sanduíche vegetariano. Se irritou:
— Ei, cara, não leva a mal, mas que má impressão!...
— Perdão, o que disse, senhorita? – o rapaz perguntou simpático.
— Por que Adolf Hitler, cara?
O rapaz olhou para si e riu, compreendendo.
— Ah, isso! Bem, senhorita, não tenho culpa nenhuma
disso. Esse corpo não foi impresso em
mim, não tenho dinheiro para comprar uma impressora a jato de genes; trabalho
nos correios e meu salário é baixo. Eu realmente nasci assim. Sou um clone de
Hitler. Um maldito clone.
— Como isso é possível?!! – Marilyn Monroe exclamou.
— Bem, de qualquer forma é uma história desagradável – o
rapaz disse dando calmamente uma dentada no sanduíche – Sabe que o mundo anda
meio sem criatividade e ultimamente vive de revivals. Há 20 anos houve um enorme revival nazista no planeta. Coincidentemente acharam uma amostra de
sangue do Führer congelado numa instalação militar na Sibéria (lugar favorito de mamutes e outros tipos de
monstros extintos). Os russos comunistas tinham coletado o material assim que
chegaram no lugar do corpo suicida de Adolf, e o sangue ficou congelado lá até vingar a moda dos clones humanos. Havia
na época ainda muita confusão sobre como seria o comportamento de um clone e
pouca gente se deu conta de que ele não teria nenhuma ligação com o caráter
da matriz original. Mesmo assim quando
o nazismo voltou à moda, amostras desse DNA foram vendidas pelos sucessores dos
comunistas a peso de ouro a todos os que quisessem ter um Hitler como filho.
Mas logo a moda nazista passou e foi substituída pela atual moda
eco-terrorista. No fundo não foi uma grande mudança pois Hitler era mesmo
vegetariano e nesse caso essas ideologias partilham do mesmo gene fundamentalista.
Quer um pedaço do meu sanduíche de alfaces?
Marilyn recusou. O clone de Hitler continuou comendo,
indiferente:
— Não é engraçado? Nós somos julgados por todo mundo por
aquilo que não cometemos – depois de uma pausa acrescenta – pela impressão que causamos... olha quem tá vindo
aí! E aí, Charles Manson, beleza?
— As pessoas hoje em dia são muito superficiais – Charles
Manson comentou ao chegar, se sentando ao lado de Marilyn Monroe Marian – se
apegam na primeira impressão que tem das coisas. Isso é terrível!
— Você também é um clone? Um clone de Charles Manson? –
ela perguntou.
— Não, eu apenas uso a impressora a jato de genes para
homenagear repulsivos assassinos seriais que cometeram os mais gratuitos crimes
que deixaram horrorizados os telespectadores inteligentes.
Marilyn Monroe sorriu.
— Ei, a nossa amiga Marilyn não gosta da banda “Sociedade
Serial”. O que me diz?
— Eu digo que ela e eu formamos um belo par: Marilyn & Manson...
— Obrigado pelo trocadilho podre, Charles Manson, mas eu
tenho que ir andando para fazer umas coisas... – e Marilyn bateu no volume que
havia em sua bolsa.
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(Naquele dia mesmo “Charles Manson” deu uma entrevista para a
televisão, que já se perguntava que estranho fenômeno era aquele de jovens
adotarem um corpo trash):
— As impressoras a jato de genes sempre estiveram a serviço
da moda, ou da estética ditada pelo “establishment”. A indústria de pessoas
famosas se desenvolveu como nunca, pois
todos poderiam ter a cara do seu
astro favorito! Mas aí vieram uns jovens malucos e impuseram uma estética
completamente underground ao imprimirem em si mesmos a aparência de pessoas
bregas ou então de pessoas execráveis. Eles foram os primeiros a usarem a
impressora a jato de genes não só como forma de contracultura, mas como
instrumento de arte. Por quê? O que querem dizer? Mas será mesmo necessário
perguntar?
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O FIM
E Marilyn Monroe subiu num prédio do centro financeiro e lá
de cima tirou da bolsa uma pistola de censo que foi adulterada pelo seu
namorado hacker para, ao invés de ler, apagar Registros Genéticos. Ela ficou lá
em cima, mirando nas pessoas que passavam e apagando para sempre a identidade
dada a elas pelo Estado. Acreditava que depois disso elas iriam aprender que
identidade não é um número, e sim uma alma.
Coincidentemente um dos
que foram “apagados” para sempre foi o multimilionário de 150 anos que
desenvolveu o método de Registro Genético – cuja criação pôde fazer ressurgir o
Estado depois da globalização. Afinal, só o Estado poderia identificar as
pessoas. O R.G. desse cidadão foi apagado para sempre, e com ele todo acesso
que esse ricaço poderia ter ao dinheiro que ganhara projetando aquela sinistra
realidade mundial onde depois da navegação pelos astros e pela internet,
navegava-se por corpos.
E é curioso também que esse homem calculista estivesse lá
dentro do corpo do simpático presidente John Kennedy. Sim, ele era um
presidente bem simpático. Ou teria sido ele mesmo o responsável pelo
assassinato de Marilyn Monroe depois de terem sido amantes?

POSFÁCIO
DO AUTOR:
A PRIMEIRA
IMPRESSÃO É A QUE FICA;
CONSIDERAÇÕES
SOBRE “IMPRESSÃO DIGITAL”
Dos
meus textos, “Impressão Digital” é o mais avançado e um dos mais polêmicos.
Essa
história, estruturalmente muito arrojada, que em seu começo imita um manual de
instruções de instalação/operação de um hardware do tipo impressora a jato de
tinta, possui muitos fãs (oi Celina!). Por outro lado, também me rendeu
incompreensões terríveis, o que me deixou um certo tempo bastante magoado.
Depois pensei que causar uma “diversidade de impressões” faz parte do espírito
do texto Impressão Digital, e isso está profundamente afinado com o propósito
metafórico que ele se propõe.
As
origens desse texto são das mais nebulosas; talvez datem de 1997 ou 1998. Só me
lembro de pensar am alguma coisa relativa a isso num certo fim de tarde, dessas
tardes que caem repentinamente como um manto escuro e opressivo. Lembro-me de
estar indo para a locadora quando uma nuvem difusa de inspiração me atingiu.
Pensei num homem de 130 ou 200 anos usando o corpo de um jovem de 20, e de uma
menina bastante feia que usa o corpo de uma top model.
Pensei
no jovem de 200 anos indo ao cemitério visitar o seu antigo corpo velho, e lhe
depositar flores. Pensei na menina-feia-que-vira-bonita se apaixonando pelo
jovem velho. Pensei que superficialmente os dois poderiam combinar muito bem
bem, mas por dentro deles havia vários abismos ao separarem. Pensei o quanto
poderiam ser fúteis, já que ele se apaixona por ela por causa da aparente beleza
dela e ela se apaixona por ele por causa da aparente juventude dele; como se
vê, se apaixonam pelas aparências, ou por causa das... impressões.
(o
leitor que está acostumado a ler esses meus “posfácios making-off” poderão
notar que essas explicações que dou poderiam gerar, por si só, outros livros
diferentes com a mesma temática!)
Bem,
quando eu pensei nessa palavra “Impressão”, um mundo de possibilidades se
descortinou à minha frente. Primeiro que, quando pensei nessa palavra,
imediatamente já obtive a explicação de por quê esse casal estar usando outros
corpos que não fossem os originiais deles. Impressão... impressora! Os corpos
teriam sido “impressos” neles, como numa impressora a jato de tinta, só que
nesse caso seria uma impressora a jato de genes!
Quando
eu começo a viajar, não paro mais: imaginei a impressora como uma enorme
casulo, semelhante a um sarcófago, onde o corpo de indivíduo seria derretido
por enzimas até chegar no sistema nervoso. Aí um novo corpo seria impresso ao
redor desse sistema nervoso, um corpo com ossos, tecidos, músculo, órgãos e
tudo o mais, rigorosamente idêntico a qualquer corpo que o usuário quisesse,
desde que tivesse o programa completo de impressão e os cartuchos de material
genético. Trocar de corpo seria como trocar de roupa, ou, nas palavras de
Marian, “trocar de papel higiênico”. Assim, velhos poderiam continuar jovens
indefinidamente, e as pessoas poderiam ter a cara do seu ídolo favorito.
Marian
merece uma atenção especial. Igual a muitos personagens que crio, ela foi
forjada em torno desse nome, inspirado numa música homônima do The Sisters of
Mercy, talvez a música em que os vocais de Andrew Eldritch estejam mais
sombrios. Como não entendo muito de inglês, conforme eu fui escutando essa voz
tão obscura cantando o refrão “Marian... Marian... Marian”, imaginei que
se tratasse de uma garota extremamente sofrida pela vida, que tem uma nova
desilusão amorosa e finalmente resolve se matar. Mais tarde, numa tradução,
percebi que o eu-lírico da música pede ajuda à tal Marian(Eu escutei essa
música pela primeira vez numa sexta-feira à noite do final de fevereiro de
2001, muito embora eu conhecesse o “Sisters” de longa data. Marian pertence ao
álbum first and Lasta And always, de 1984. coincidência ou não, foi nesse ano que
Willian Gibson lançou Neromancer, além do que esse ano é o título do livro mais
famoso de George Orwell. Bem, quem quiser conferir a letra de Marian, visite a
homepage do Sisters e clique em lyrics:
http://www.the-sisters-of-mercy.com/home.html#index
). De qualquer maneira, foi com esse perfil de menina sofrida que criei a
Marian, do Impressão Digital.
Qual
é a aparência original de Marian? Imagino-a gorda, baixinha, dessas gordas
baixinhas que têm um bundão, com óculos de aro preto e grossas lentes, jeans e
camiseta velhas.
Marian
é uma ilha de originalidade num mundo baseado na aparência. Ninguém gosta de
Marian, pelo que ela é e pelo que representa.
Gostaria
de chamar a atenção sobre a problemática dos clones abordada no texto. As
pessoas de classe média que trocam diariamente de aparência são as mesmas que
acusam os clones de classe baixa de não terem identidade.
(aqui
entra uma observação: acho que os pobres do futuro não terão direito a terem o
próprio DNA! Será a última coisa a se roubar deles; eles que por séculos sempre
foram explorados. Acho que a humanidade do futuro terá o seu DNA tão alterado e
manipulado que será estéril de berço, como algumas variedades de sementes transgênicas
de hoje, que só germinam por uma geração – o que faz com que o agricultor pague
por cada nova safra que deseja plantar. Assim, as pessoas de baixa renda terão
de recorrer aos bancos de esperma/óvulos/embriões, que venderão material
genético bem caro. Os mais caros serão os embriões modificados individualmente,
de maneira personalizada, e os mais baratos decerto serão os produzidos em
série, os clonados, que serão comprados pelos casais mais humildes – só que
esses embriões também são estéreis, num ciclo sem fim).
Convém
lembrar que, muito embora a impressora a jato de genes derreta o corpo humano
e, conseqüentemente o seu DNA, o sistema nervoso é preservado – por isso as
pessoas de classe média da época terem a ilusão de serem melhores que os
clones, já que o DNA de seus sistemas nervosos é único.
Marian
tem um plano arriscado; literalmente decide riscar o Registro Genético imposto
pelo Estado às pessoas, usando para isso uma pistola de censo adulterada.
É
irônico que tenha escolhido justamente o corpo da musa Marilyn Monroe para
perpretar seu plano, já que esta foi o objeto de desejo de milhões de homens, e
um padrão a ser seguido pelas mulheres. Mas é justamente isso que Marilyn
Monroe Marian deseja aniquilar: o padrão imposto, a ditadura da moda forçada e
forçar a sociedade a enxergar além da primeira impressão.
Bem,
finalizando, esse foi um trabalho bem divertido de fazer; o texto Impressão
Digital em si foi feito em dois ou três dias de setembro de 2001. Ele me rendeu
umas rusgas com um escritor ortodoxo, elogios rasgados de meninas e acho que
ficará para ser lembrado como um dos meus textos mais ousados.
É
isso aí, leitores, abraços do Josiel.
01/05/2003