Na verdade você não é do jeito que eu esperava...
Ele tenta vasculhar a mente em busca de um argumento para retê-la nos
braços. E toda vez o seu argumento é sempre o mesmo:
Bem... eu sou um Expert, sabe?
Meu bem, e daí?
Ele bebe o gelado sem gosto do refrigerante do seu copo e movimenta com certo nervosismo uma das rodas da cadeira:
Como "e daí?" O nosso país está em guerra, sabe? Eu sou um Expert! Bem, eu sou, tipo, um herói...
Você quer dizer o quê? Que é um herói?! Meu bem, quem você pensa que é?
O som pedante dos sapatos de salto alto se afastando rapidamente se interpôs ao se pensamento de "retê-la nos braços".
E Lázaro imóvel em sua cadeira de rodas:
Bem, acabou-se. Mas uma vez acabou-se mesmo antes de começar.
Ele girou as rodas de sua cadeira até uma lixeira e jogou o copo descartável.
Parou um pouco, meditativo, e imitou a voz daquela patricinha quando disse: "Olhe só para você. Achou mesmo que teria uma chance com uma mulher como eu?" Ela não disse isso, mas não importa. Era o que poderia fazer no momento. Depois olhou para seu relógio: já estava na hora de voltar para sua base.
Ele em sua cadeira era um estorvo que atrapalhava o fluir dos pedestres
apressados. Uma floresta de pés anônimos indo e vindo na frente dos seus pés
imobilizados, plantados firmemente no esforço de guerra daquele país. Pés inertes e anonimamente heróicos, que pisavam uma enorme responsabilidade a qual ninguém dava valor.
A base era o seu apartamento.
Havia sujeira e revistas de mulher pelada por todo o canto. Pedaços de pizza mofados, roupas sujas e baratas se amontoavam.
Ele entrou no quarto.
O quarto era repleto de monitores, CPUs enormes e sem as tampas dos lados.
Maldita webcam que só mostra parte da verdade...
A câmera do alto do monitor principal só mostrava a parte de cima dele,
saudável, para as garotas com quem flertava pela internet. Isso por um lado o irritava, mas por outro lhe dava a meia-verdade com que ele poderia flertar com as garotas dos sites de namoro. Essa sua estratégia era o pior que podia inventar muito embora sentisse um certo prazer mórbido nisso pois logo as meninas conheciam a verdade por inteiro e descobriam a outra metade de seu corpo. Mas ao menos por um curto intervalo de tempo ele se sentia desejado como um homem qualquer, e por isso essa capacidade da câmera de produzir uma meia-verdade sempre recebia uma censura recheada de conivência da parte dele.
Mas aquela era uma época de guerra, e outras meias-verdades eram
produzidas a todo instante.
Foi ligando vários computadores dispostos desordenadamente ao seu redor no pequeno quarto, enquanto comia uma banana bem madura com a outra mão. Uma mensagem apareceu na enorme tela principal:
MINISTÉRIO DA DEFESA
ÁREA DE
CAÇAS-BOMBARDEIROS
NÃO-TRIPULADOS
Com a boca ainda cheia, instalou na cabeça uns fones de ouvido com
microfone. Um sensor ótico leu sua retina. Num minuto apareceram na tela as caras dos meninos de seu esquadrão.
Ei, Lázaro, levanta-te e anda! eles o cumprimentaram.
Qual é a situação?
Nessa manhã perdemos 12 caças.
Apareceram interceptadores? Lázaro disse estranhando o número elevado de perdas.
Sim, e em maior número que nossos aparelhos.
Droga, eu não posso sair nem um pouquinho para tentar xavecar uma
maldita garota que tudo vira uma bagunça! Lázaro disse irritado aos menos os alvos foram atingidos?
Cerca de 60 por cento. As armas orientadas por satélite não valem nada com as contramedidas deles.
Os nossos satélites estão sofrendo ataques virtuais e físicos, Lázaro.
Temos de usar armas guiadas que não dependam de satélites comentou Lázaro.
Os caças estão prontos para serem rearmados.
Lázaro viu em um monitor lateral a vista de baixo de seu caça, e em outro monitor as configurações possíveis de armas. Noutro monitor, os tipos disponíveis de caças estacionados nos hangares espalhados secretamente pelos centros urbanos do país. O estranho formato do novíssimo avião apareceu na tela de Lázaro. Era achatado como um sapo esmagado. O compartimento de bombas era o maior já visto; cabiam 60 toneladas armas. E esse compartimento estava totalmente cheio de mísseis de ataque e bombas perfuradoras de concreto e de fragmentação, enquanto módulos
conformais nas asas largas e curtas de formato trapezoidal estavam infestados de trincas mísseis ar-ar de curto, médio e longo alcance.
Lázaro, os robôs já rearmaram todos os nossos caças.
Bem, pessoal, hora de brincar de guerra. Ao ataque, Experts!
O monitor principal de Lázaro se transformou na vista de dentro de um dos caças não tripulados Morcego Negro. Através do teclado sujo e de um joystick vagabundo ele ligou as duas turbinas e se dirigiu para fora do hangar. Taxiou, checando os sistemas de bordo. Conferiu num display virtual o layout do avião, os compartimentos internos cheios de mísseis com alcance de 400 quilômetros a Mach 7.
Ele mexeu as teclas de seta para ver o redor; viu seus companheiros de esquadrão numa longa fila, aguardando também o momento de alçar vôo.
Ele apertou simultaneamente as teclas "Page Up" e "Page Down", ligando assim os pós-combustores de seu caça teleguiado. Em alguns minutos seu Morcego Negro estava a 20 mil metros, e a Mach 3, velocidade de supercruzeiro sem pós-combustão.
Eles com certeza irão nos detectar, apesar de nossos caças serem stealth e de nossas contramedidas eletrônicas comentou um dos pilotos, que já teve 6 caças destruídos pela manhã que vontade de mudar de emprego...
O enxame de aviões negros teleguiados partiu de vários pontos do país.
O país inteiro depende da gente, cara.
As populações das cidades ainda não estavam acostumadas ao estrondo que esses aviões causavam quando ultrapassavam a barreira do som.
Recebemos um salário mínimo para jogar bombas de duas toneladas no nosso país vizinho nojento. Que vida horrível!
Algumas janelas dos prédios mais altos sempre se partiam. Mas afora isso, a guerra ainda não tinha chegado de fato às principais cidades do país, embora as sirenes sempre alertavam o perigo de ataque aéreo.
Hoje em dia todo mundo entende de computador e de programação, por isso nosso salário é uma merreca. Há muita mão de obra especializada desempregada por aí.
Mas nas cidades perto da fronteira a situação era devastadora. Algumas já tiveram 80 por cento de sua área destruída pelo inimigo. Dezenas de milhares de mortos já podiam ser contabilizados.
Pô, os hômi não compram nem uma interface de realidade virtual decente para a gente. Soube que o inimigo só usa interface desse tipo. Temos que nos virar com gambiarras em nossos próprios micros.
O inimigo não tinha armas de longo alcance. Por enquanto. Mas as suas armas eram tão ou mais devastadoras.
Ao menos os caças são bons, à prova de interferência inimiga... e aí,
Lázaro, que tal seu encontro com aquela mina?
Deixem isso para depois. Em primeiro lugar vem a defesa de nosso adorável país Lázaro resmungou amargo, vendo que estava entrando no espaço aéreo inimigo.
Súbito, os aparelhos AWACS do esquadrão E deram o alerta:
Interceptadores inimigos detectados!
Atenção, atenção! Há uns 50 bandidos vindo em nossa direção.
Esquadrão E, prepare seu ataque eletrônico! Esquadrão A; acelerar a Mach 5 antes de lançar a carga!
Atenção, o inimigo acelerou a Mach 10!
Mísseis inimigos lançados!
Caças de cobertura, permaneçam na linha de fogo inimiga! Temos que atrair o fogo para que os bombardeiros consigam passar!
Lázaro acompanhou no radar as dezenas de mísseis cruzando o ar. Ícones verdes, fogo amigo. Ícones vermelhos, fogo inimigo. O enxame terrível se aproximava como uma barreira de destruição. Os caças lançavam automaticamente no ar, e de maneira inútil, iscas para desviar a cabeça buscadora dos mísseis. Através das câmeras do Morcego Negro Lázaro pôde visualizar os pequenos pontos vindo inexoravelmente em sua direção.
Ele fez uma manobra de 15 g e conseguiu se desviar de três mísseis inimigos.
E com uma manobra em parafuso conseguiu escapar de mais um. Mas outro fez seu Morcego Negro em pedaços.
Imediatamente Lázaro assumiu o controle de outro caça Morcego Negro que estava voando na retaguarda, de reserva.
Lázaro, destruímos 90 por cento do inimigo! Mas fomos reduzidos a 40 por cento.
O que importa é que os bombardeiros passaram. Lançar novo ataque de mísseis contra esses palhaços e o restante abater com canhões!
No combate corpo a corpo com canhão, Lázaro era imbatível. Logo ele estava colado na traseira de um inimigo; as bocas dos motores do caça adversário produzindo uma luz alaranjada tão flamejante que ele poderia sentir o calor na sua pele, mesmo estando a milhares de quilômetros dali, no seu apartamento anônimo.
Uma rajada curta, disparos cortando o céu azul como gotas rápidas de luz branca e já era; inimigo abatido. Os sobreviventes resolveram dar no pé, pois estavam sem armas e sua velocidade era absurdamente superior aos caças comandados por Lázaro. Mas o Esquadrão E interferia no controle dos caças inimigos, e vários caíram descontrolados.
Muito bem, rapazes! É isso aí!
Mais uma feroz batalha aérea foi travada sem que houvesse uma única morte entre os pilotos.
Atenção, nada de comemoração. Quem ainda tiver combustível e armas terá de descer para dar cobertura aos caças-bombardeiros. Aposto que uma nova leva de inimigos está decolando.
Mas, felizmente, os inimigos não poderiam chegar a tempo de evitar a destruição provocada pelos caças-bombardeiros de Lázaro. Depois de uma única passagem deles, o alvo no centro da cidade inimiga estava explodindo; os prédios desabando na luz da manhã, levantando nuvens de fumaça negra e contorcida. A artilharia antiaérea atuava destruindo vários caças dos esquadrões de Lázaro, mas, depois que cumprem sua missão, os aviões teleguiados podem ser abatidos à vontade pelo inimigo, já que custam barato e nenhum piloto se fere de fato.
Lázaro deu um rasante sobre a avenida principal, coalhada de escombros e de artilharia antiaérea.
Ele possuía bombas, mas não soltou.
Hora de voltar, pessoal ele disse secamente quem quiser, pode apertar a tecla "a" no teclado para o caça volta automaticamente para nosso país. Aproveitem para ir ao banheiro ou então para assistir à sessão desenho. Não vejam os telejornais; são muito mentirosos. Eu estou pulando fora.
Lázaro tirou seu fone de ouvido, respirou profundamente com os olhos fechados e saiu do quarto onde travou o combate teleguiado.
Moveu sua cadeira de rodas até a pequena sacada de seu prédio e viu a lenta e difusa luz dos automóveis debaixo da chuva. Uma estranha dor de cabeça o atingia.
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Eu não posso mais continuar fazendo isso, senhor...
Uma voz estéreo saiu de seu celular:
Lázaro, o que há com você? É o melhor piloto do país!
Lázaro rodopiou sua cadeira pela alameda de paralelepípedos do parque.
Senhor, eu não sou um soldado. Sou apenas um civil paralítico.
Ora, e o que isso tem de mais, Lázaro? Você é um exemplo a ser seguido pelos outros que possuem a sua deficiência.
A pequena tela do celular mostrava a cara velha do brigadeiro do ar. Lázaro viu uma bela árvore, também velha, coberta por flores avermelhadas, que caiam com a brisa e depositavam um calmo tapete florido nos paralelepípedos. Um tapete vermelho e morto.
Senhor, eu nunca tive dinheiro para visitar o nosso país inimigo. Mas sempre tive essa vontade, pois lá nasceram muitos dos meus escritores prediletos. No último ataque eu dei um rasante lento numa das avenidas que estavam sendo bombardeadas por nós. Infelizmente meu alçapão de bombas não abriu.
Sabemos disso. Mas o que tem a ver?
Um desses meus escritores favoritos falava freqüentemente em labirintos... Bem, senhor, eu passei por labirintos de prédios devastados. Senhor, eu não sirvo como exemplo para outros aleijados.
Por quê?
Porque eu estou produzindo dezenas de aleijados e mortos a cada missão de ataque ao solo inimigo, senhor e Lázaro virou o rosto de lado.
Mas o tapete vermelho produzido lentamente pela velha árvore não poderia parar:
Lázaro, olhe para mim! É o brigadeiro Carvalho quem está lhe ordenando! Deixe de lado essas bobagens! A nação precisa de pessoas como você para se levantar, Lázaro!
Lázaro olhou para a imagem do brigadeiro na pequena tela de seu celular. Mais uma tela produzindo meias-verdades em tempo de guerra:
Lázaro, o país se orgulha de homens como você que andam a passos largos pela estrada da justiça!
Obrigado, senhor.
Você foi perfeito. Sua equipe destruiu o centro financeiro inimigo. Eles
tiveram um prejuízo de bilhões. Parece que a bolsa de valores deles vai fechar mais cedo hoje o brigadeiro deu um sorriso maléfico por sua destemida atuação, você e seu esquadrão passarão a ganhar talões de vale-refeição e de vales-transporte!
É muita generosidade de sua parte, senhor.
Lázaro, vou encurtar a história e ir direto ao assunto: o governo está
desenvolvendo uma arma para vencer definitivamente essa guerra.
E do que se trata, senhor?
No centro do país foi construído um imenso complexo subterrâneo para a construção de um super robô de 500 metros de altura. Quando pronto, ele será invulnerável às armas do adversário. O nome desse robô é Gólen.
Bem, senhor, e qual é o problema?
Atualmente o Gólen é uma imensa carcaça, como um superpetroleiro sendo construído. Mas estranhos acontecimentos vem ocorrendo no estaleiro subterrâneo.... algumas das torres móveis de armas do robô têm disparado acidentalmente contra os operários. Desnecessário dizer que os cadáveres são feitos em milhões de pedaços. No princípio pensamos que o inimigo estivesse se infiltrado no sistema de controle do Gólen, mas rigorosamente nada foi detectado. Estamos desenvolvendo uma interface de controle aperfeiçoada, e você é o soldado mais indicado para operá-la.
Senhor, eu disse que estou de fora! Eu não quero mais saber de destruir pessoas!
Houve um silêncio. Lázaro esperou uma resposta. Olhou para a tela de seu celular. O militar o olhava com imenso ódio:
Escute aqui, seu aleijado. Quem você pensa que é?! Você não é porra nenhuma! Nem sonhe em pular fora. Sabemos que você deliberadamente não quis jogar as bombas de seu Morcego Negro na sua última missão de bombardeiro. Isso é crime de alta traição. Pode ser fuzilado! Sua única saída é continuar a colaborar com a gente. Não tem escolha!
Veremos!!
Lázaro desligou seu aparelho e o jogou no lixo. Não adiantaria mesmo ficar com ele, pois seria facilmente detectado.
A velha árvore continuava querendo chorar sangue no meio do parque imóvel.
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Foi então a vez do inimigo atacar.
Era uma manhã normal, como todas as outras.
As pessoas caminhavam sobre seu dia-a-dia. Tudo estava normal, os homens engravatados apressados, as meninas estudantes, os mendigos, todos, enfim, compartilhando as calçadas da avenida principal imersa na penumbra azul e gelada da muralha indistinta dos prédios. Um vento frio soprava baixo, fazendo com que as pessoas procurassem caminhar pelos poucos recortes dourados que os raios do Sol deixavam nas calçadas. O vento frio soprava baixo, produzindo um zunido. Um zunido que crescia.
Algumas pessoas pararam.
O zunido crescia ainda mais.
As pessoas olharam ao redor.
O zunido rasgou todo o céu como uma gigantesca espada impiedosa.
As pessoas olharam para cima.
Mas as muralhas de edifícios tampavam todo o céu. Mesmo assim, alguns ainda tiveram chance de ver no ar uma nuvem preta de pequenas bombas, soltas pelos mísseis de fragmentação inimigos.
E então, vieram as explosões.
Cinco minutos depois, 90 por cento dos prédios daqueles quarteirões tinham sido reduzidos a escombros fumegantes.
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A notícia correu o país com a velocidade que só as coisas catastróficas
costumam possuir: o inimigo já dispunha de armas de longo alcance. Meia hora
depois, foi a vez da capital sofrer um ataque devastador. O inimigo já tinha ocupado todas as cidades da fronteira; execuções em massa era perpetradas em represália aos bombardeios que ele sofreu nos últimos dias, em especial ao dos quarteirões onde se situava a bolsa de valores, transformada num horror de chamas e escombros pelos caças Morcego Negro.
O serviço secreto buscava por Lázaro numa caçada implacável.
Mas Lázaro, pobre Lázaro, estava com um gosto de fim de mundo na boca.
Sabia que era apenas uma questão de tempo para que o inimigo fizesse ataques daquele tipo, e com toda razão. Agora ele sentia que o inimigo não pararia até destroçar toda sua pátria amada, não muito idolatrada.
Lázaro saía pela noite com essa sensação de fim de mundo, e não via muito sentido nisso e no resto. Parecia que um maldito cometa estava por cair, ou um fatídico eclipse estava por acontecer, desses previstos pelos profetas. As pessoas agiam como se não houvesse muito que esperar do amanhã. E, enquanto o amanhã não vinha, ele ultimamente fazia uma coisa que sempre teve vontade: de ir num salão de rock. Som obscuro de vinte ou vinte e cinco anos atrás, dançados por figuras igualmente obscuras, de indecifráveis idades, sexos ou esperanças. Lázaro ficava numa parede, às vezes mexendo sua cadeira ao ritmo do som gótico e da hipnótica luz estroboscópica, vendo aqueles vultos dançando num ritmo empolgante e doentio.
Nessas horas eu daria tudo por um bom par de pernas... resmungou sem muita convicção.
Mas nisso um bom par de pernas caiu sobre seu colo; era uma garota meio bêbada:
Ops... foi mal, eu pensei que essa cadeira estivesse desocupada...
Não se preocupe, o prazer é todo meu! Lázaro sorriu.
Meu... acho que não vou consegui mais levantar.... a menina falou bastante grogue.
Como você se chama?
Marta... cara, você é legal... e ela abraçou o pescoço dele.
E eu me chamo Lázaro.
Pois é, Lázaro, que tal... que tal a gente transar? e Marta, sonolenta por causa da embriaguez, pôs a mão dentro das calças de Lázaro. E adormeceu nessa posição, sentada no colo dele, um braço languidamente pendurado no pescoço de Lázaro e uma mão segurando o pau dele. Lázaro se sentia multimilionário. Bem que poderia aproveitar aquela escuridão para se aproveitar da menina bêbada.
Mas aquela figura tão frágil em seu colo, tão à sua mercê, lhe despertava a vontade de velar pelo sono dela. Com os braços aninhou-a melhor em seu colo, e fez carinho nos longos cabelos negros dela. Num minuto ela estava respirando lenta e pausadamente como uma criança. Ele se sentiu imensamente feliz.
Passou uma hora e meia. Que músicas tocaram? Bauhaus? Sisters? Siouxsie?
Ele não sabia.
Um bocejo e Marta acordou. Por um instante Lázaro teve receio dela não se lembrar de como veio parar em seu colo. Mas ele não precisou se preocupar:
Obrigada, Lázaro, por tomar conta de mim. Você é um cara legal. Tá a fim de tomar alguma coisa? Eu pago.
Não, obrigado, eu não bebo.
O quê? a menina franziu a sobrancelha.
Bem, digamos que a minha vida já é um porre sem eu precisar encher a cara, se é que me compreende...
Ele disse isso pensando no fato do governo está atrás dele. Mas ela entendeu como sendo sua condição de paralítico.
Ei, que coisa mais deprimente é essa que você está dizendo? Só porque a droga do país vai implodir de uma vez por todas não quer dizer que a gente não possa se divertir! Venha! Vamos dançar!
Mas eu não sei...
E antes que ele pudesse protestar, Marta empurrou sua cadeira para o meio da pista de dança. Estavam tocando "Killing na Arab" do The Cure. Marta dançava como uma louca, com seu vestido preto e esvoaçante, e ele começou a rodopiar a cadeira e a sacudir a cabeça. Ela se aproximou da cara dele e lhe beijou a boca.
Dançaram até as quatro. Mas as sirenes de ataque aéreo soaram e a música teve de parar, apesar dos protestos de todos (afinal, não estavam ali justamente para esquecer dessas coisas?).
Lázaro e Marta saíram pelas ruas iluminadas pela luz alaranjada e difusa dos postes em meio ao sereno da madrugada.
E aí, Lázaro, para onde?
Bom, eu não tenho para onde ir, tenho vivido uma aventura a cada dia...
Você não parece ser do tipo que não possui casa para morar.
É que... não sei se devo contar.
Ué?! Experimente.
Bem, Marta, o governo está atrás de mim... eu sou um Expert, o melhor de todos, e eles querem que eu pilote uma nova arma secreta que pode vencer a guerra para gente... mas eu recusei... e agora estou sendo caçado... é foda ser um misto de herói anônimo e covarde procurado, não é? O que será pior? O que tem menos valor para nosso país?
Lázaro deu uma risada amarga.
Quer ir ao meu apartamento? Mas não pense que isso é um convite para a gente transar, viu? Eu sei muito bem o que falo quanto estou bêbada.
Ambos sorriram.
E o que você faz, Marta? Você tem um jeito assim, como eu poderia dizer? Acho que você tem um jeito... um olhar... meio de cigana.
Cigana? Ah! Ah! Mas você chegou perto: eu sou taróloga.
Taróloga? Tão novinha assim?
Ué?! O que tem isso a ver?
É que imagino uma taróloga como sendo uma velhinha, ou algo assim...
As velhinhas foram novas um dia, não é?
E isso dá dinheiro?
Não.
então, por que você é?
Porque eu gosto.
A face de Lázaro refletiu a luz néon de um motel e também outras luzes sobre o que é ter prazer fazendo o que se gosta.
Prazer. Poder. Gostar. E ser obrigado.
Chegamos!
Entraram no prédio; ela morava no décimo quarto andar.
Um perfume indecifrável, mas nem por isso desagradável, feito de óleos e incensos, entrou profundamente nos pulmões de Lázaro.
Seu apartamento é bem legal ele disse vendo o apertado ambiente cheio de pequenos enfeites, vasos, tapetes, quadros de vários tamanhos e artefatos místicos, todos banhados por uma luz cor de pêssego.
Que bom que gostou ela disse puxando um cigarro de um maço fique à vontade. Quer tomar um refrigerante?
Acho que vou querer sim, Marta. Puxa, você tem discos pra caramba!
Mais ou menos.
Ela pôs refrigerante num copo para Lázaro e para si pegou uma garrafa de vinho e uma taça. Sentou-se sobre uma almofada e tirou um maço de cartas de cima de uma das caixas de som. Com o cigarro preso na boca, ela começou a embaralhar.
E aí? Quer tentar a sorte?
Ela deu o maço para Lázaro embaralhar. Depois ele devolveu o maço para Marta, que o abriu num leque e ordenou:
Escolha uma, querido Lázaro.
Lázaro tirou uma lâmina.
Marta olhou para a carta. Olhou para ele. Deu uma baforada. Deu um gole no vinho. Pegou a lâmina do tarô de Lázaro e mostrou a ele:
Esse, Lázaro, é o Arcano 4, O Imperador. Um homem sentado eternamente numa cadeira, e que possui uma imensa responsabilidade. A responsabilidade é por vezes maior do que a capacidade dele de suportá-la. E disso não trará nenhum mérito para ele, já que o imperador desse arcano é aquele que serve ao seu povo sem esperar nada em troca, nem reconhecimento, nem gratidão, nem nada. Em suma, é o instrumento da vontade de Deus na Terra. Lembra-se de São Francisco? "Senhor, fazei-me um instrumento de Sua vontade" .Pois é a mesma coisa. O Imperador
enquanto instrumento da vontade divina possui poderes fantásticos, mas que foram dados por Deus a ele unicamente para cumprir as enormes responsabilidades. Daí decorre dois problemas: às vezes o imperador pensa que seus poderes decorrem dele próprio, e sua vaidade passa assim a ser sua ruína, pois usará sua condição de imperador para proveito próprio, e não para ser útil ao seu povo. O outro problema é que o imperador terá de escolher entre sua missão na terra e sua vida pessoal. Não poderá ter as duas coisas ao mesmo tempo, e isso o fará infeliz, qualquer que seja o caminho escolhido. Pois sua missão na terra não lhe trará nenhuma fama ou riqueza, e sua vida pessoal também não lhe tornará o herói que espera ser.
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Marta e Lázaro passeavam pela cidade imersa numa calma cheia de tensão.
Será questão de tempo, Marta.
O quê?
Eles me encontrarem.
O ar da manhã estava realmente dourado, o sol se espalhava por pessoas, prédios e escombros, não necessariamente nessa ordem. Os dois estavam numa padaria comendo pão esquentado na chapa e café com leite.
Marta riu:
É um prazer estar com você, Lázaro. E nossos signos nem combinam.
Na velha televisão da padaria, o noticiário de início de manhã trazia informativos sobre as últimas conseqüências da guerra. A principal chamada era sobre a queda da
bolsa de valores nacional após o último ataque inimigo.
Temos 100 armas nucleares. O inimigo teve ter um número semelhante disse ele, coçando pensativamente a barba negra também é só questão de tempo para que tudo isso vire uma guerra nuclear.
Mas você falou que o governo possui uma arma secreta cochichou a menina.
É verdade. Temos o Gólen.
Essa arma evitaria a guerra nuclear?
Bem, de certo modo, sim. Mas traria uma destruição quase igual. Eu já lhe contei a respeito disso.
Marta comeu um pedaço de pão olhando para ele:
De certo modo, o fim da guerra passa pelas suas mãos.
Ei! Lázaro levantou o dedo indicador para ela não me culpe por isso por isso!
Não estou lhe culpando. As bombas atômicas ainda não caíram. Estou somente estou dizendo que você pode evitar um número maior de mortos.
Não quero ter uma responsabilidade dessa nas costas.
Mas tem.
É isso o que dá dois pequenos países terem armas nucleares resmungou Lázaro hoje em dia qualquer país que possua uma única arma nuclear acha que já pode chantagear o resto do mundo, e posa de superpotência.
Esse não deixa de ser um argumento pelas superpotências para que nenhum outro país tenha bombas atômicas Marta disse.
Pode até ser, mas o ideal seria que ninguém possuísse armas, quaisquer que fossem.
Ideal... Marta fez uma pausa, deu um gole no seu copo de café com leite e olhou para ele você é um idealista, Lázaro. No fundo, quer ser um herói e não sabe como fazê-lo.
Uma coisa é a intenção, e outra coisa é ser um herói de fato.
Marta olhou lá para fora:
Se o Batman estivesse por aqui, como ele se portaria? Como é ser um herói no meio de dois países em guerra?
Ah, sei lá. Detesto o Batman. Ele não passa de um milionário brincando com bat-bugigangas.
Ele é um humano usando tranqueiras tecnológicas. Isso o torna mais real do que qualquer outro super-herói. Qualquer um pode ser Batman.
Já eu prefiro histórias de quando um cara é atingido por um raio radioativo e adquire incríveis poderes, e aí sai voando e soltando raios e o caralho a quatro.
Vendo a condição de paralítico de Lázaro, Marta logo adivinhou por que ele gosta dessa segunda opção. Lázaro ficou girando o copo vazio sobre o balcão:
Podemos até fazer uma certa divisão: os heróis que usam bugigangas tecnológicas e os que têm realmente poderes. Qual dos dois tipos você prefere, Marta?
Bom, lembra quando eu disse que qualquer um pode ser Batman? Eu curto essa idéia. Eu gostaria de botar minha fantasia de Batman e sair por aí.
Você quer dizer, de Batmoça.
Não, a Batmoça é uma patricinha fresca. Eu queria ser é o Batman, mesmo. Nossa, eu de Batman iria fazer o maior sucesso no salão gótico!
Bem, não mudou muita coisa, já que dizem que o Batman é gay.
Você acha que ele é gay?
Nossa! E como!... O Batman é uma bichona velha. Quero dizer, nada contra, mas que ele é gay, isso tá na cara.
Os super-heróis são retratados como pessoas normais que recebem algum tipo de dom ou insight e deixam de ser normais. Mas, reparando bem, elas nunca foram pessoas normais. Todo super-herói que se preze gera várias teses com seu perfil psicológico.
O que isso quer dizer?
Talvez que não exista uma normalidade. Talvez queira dizer que todo mundo seja meio atormentado e não perceba. Os super-heróis e as pessoas comuns estão no mesmo barco.
Cara, esse papo está ficando perturbado. Vamo rapá fora, Marta?
Tá limpeza. Você vai demorar muito no centro?
Acho que não.
Você já sabe, vou ficar o dia inteiro no apartamento. Te cuida ela deu um beijo na boca dele e ambos saíram da padoca. Lázaro deu uma última olhada para trás para ver aquela menina se afastando com seu passo imponente, o cabelo sacudindo levemente com o vento frio da manhã recém-nascida, os sapatos de salto alto ecoando forte nas calçadas de uma maneira até arrogante. Teve uma ligeira sensação de saudade antecipada dela, e depois resolveu seguir também o seu caminho.
O medo de ataque aéreo pairava sobre os estreitos de céu recortados pelos edifícios escuros. As pessoas andavam olhando para cima, apreensivas, esperando pelo fim do mundo. Mas Lázaro tinha seus pés no chão (ainda que paralisados), e desde que se mudara para o apartamento de Marta estava trabalhando na manutenção virtual de sistemas industriais de algumas empresas ilegais.
Assim que chegou na região que vendia suprimentos eletrônicos, ele viu um assalto. O bandido correu como uma sombra sem rosto e passou voando a poucos centímetros de sua cadeira, e sua corrida produziu um vento que chegou à face de Lázaro misturado com cheiro de suor e atrevimento. Ele até pensou em tentar segurá-lo, mas teve muito medo.
Depois disso ficou pensando. Se ele fosse um super-herói estilo Batman, com algum tipo de equipamento adequado, certamente poderia ter capturado aquele
criminoso. Mas como adaptar bat-bugigangas à sua condição de deficiente físico? E enquanto as outras pessoas andavam nas calçadas olhando para cima, com medo de um bombardeio inimigo, ele estava devaneando em sua cadeira de rodas de cabeça baixa. Por isso não viu quando uma das rodas passou por cima do pé de uma pessoa:
Ai!... Por que não olha por onde anda, imbecil?
Me desculpe...
A pessoa foi embora, resmungando.
Lázaro sorriu. Eram essas coisas lhe chamava novamente à realidade.
Precisava comprar as malditas peças eletrônicas na loja de uma amigo seu. Maldita hora para seu computador queimar. Ele suspirou e empurrou com as mãos as rodas da cadeira na direção de loja de seu amigo. Chegou na frente da loja. Pensou sem querer em Marta. Empurrou a porta e entrou.
Atrás da porta havia uma profusão de soldados apontando uma profusão
indistinta de armas para ele.
Ao ver sangue no chão, o queixo e as mãos de Lázaro tremeram.
Está preso por trair a sua pátria!
O que fizeram com meu amigo? perguntou gaguejando.
Cale-se! e recebeu uma bofetada. E depois um soco. E outro. Vários, dados por várias mãos ao mesmo tempo. Mãos em luvas; mãos de super-heróis que lhe sacudiam lhe chamando para o fato dele ser também um super-herói que combatia os malfeitores na escuridão onde flutuava uma lua tão branca e pálida e também Lázaro, o Expert, que pairava no ar com seu uniforme cor de vinho realçando seus músculos e suas pernas sadias, pois já dizia o ditado: Lázaro; levanta-te e voa! E ele fazia o seu vôo pairado, guardião noturno da justiça e da bondade como era, enquanto o vento das estrelas balançava violentamente sua capa. Essa noite os criminosos não
lhe escapam... olhou para baixo e viu um ladrão passar ao lado de um pobre rapaz barbudo numa cadeira de rodas; mas que atrevimento desses marginais! Expert voou como um foguete humano noturno atrás do criminoso, o pegou pelo colarinho e o levou para uma cadeia. O rapaz da cadeira de rodas o agradeceu, mas Expert não olhou para trás. Na cadeia os homens da lei aplaudiram seu ato de bravura, porém Expert, como guardião noturno da justiça que era, disse que só estava cumprindo o seu dever e rapidamente voou para fora dali, com os policiais jogando os chapéus para cima em sinal de contentamento pela prisão de tão terrível bandido. Engraçado, a
cadeia possuía rodas. Mas ele não podia perder tempo prestando atenção numa cadeia de rodas, pois havia uma supervilã que aterrorizava a cidade noturna, conhecida como A Taróloga. Ela voava como um morcego e despejava suas terríveis cartas-lâminas na cabeça dos inocentes. Ela era uma ameaça às pessoas. Expert precisava urgentemente prender a Taróloga na cadeia de rodas para que ela não fugisse mais dele. Lá estava ela, flutuando no céu noturno sobre a cidade, emoldurada pela lua branca, com suas roupas esvoaçantes. "Parada aí, Taróloga!" ele gritou, ao que ela respondeu: "Eu já estou parada, Lázaro". "Como?! Você conhece minha identidade secreta? Não pense em escapar de mim, Taróloga!" Com movimentos lânguidos, em compasso com o esvoaçar em câmara lenta de seu vestido, ela disse com uma voz distante: "É você quem está escapando de mim, Lázarooo...", e em seguida ela atirou uma de suas lâminas do tarô contra ele, que o acertou bem na testa.
Expert deu um grito de dor, e quando arrancou a lâmina da testa viu um IV" escrito em sangue. "Isso não vai ficar assim, Taróloga!", ele gritou e se refugiou no alto de um obscuro edifício, tão obscuro que continuava negro mesmo sob a luz da lua cheia. Mas aquilo não era um edifício. Era um robô de 500 metros de altura chamado Gólen. Expert sabia que aquilo era seu. "Espere só eu entrar no meu robô, Taróloga, que irei derrubá-la como a um castelo de cartas!".
Na escuridão, uma réstia de luz branca, fantasmagórica, aos poucos vai
aumentando e revelando a monstruosa caverna subterrânea de concreto e aço,
cercada por guindastes enormes e plataformas elevatórias. No centro de tudo
repousava um obscuro gigante disforme, ao redor do qual um formigueiro de operários trabalhava imerso no medo.
O gigante colossal tinha uma forma difícil de entender; não parecia ter harmonia estética nenhuma, parecendo ser um trambolho negro infestado de casamatas e torres móveis, parecendo assim um gorila de metal cuja pele era formada por cadeias de bolhas de vários tamanhos e espinhos. Um gorila sem cabeça; no lugar dela havia dezenas ou centenas de torres de sensores. Holofotes nos guindastes jogavam fachos de luz sobre a estranha criatura que era o orgulho nacional.
Súbito, uma das casamatas de armas da pele da criatura é ligada
aleatoriamente e dispara no meio do formigueiro de operários. Uma explosão cegante de energia, e instantaneamente dezenas de corpos são desintegrados. Imediatamente os trabalhos param, e todos fogem correndo, inclusive o pessoal dos guindastes.
Protegidos por uma grossa parede blindada, um pessoal das forças armadas presenciou a tudo.
Viram o que eu disse? o brigadeiro Carvalho resmungou para os seus colegas.
Maldita máquina irracional! É melhor interrompermos o programa antes que esses acidentes vazem para a imprensa...
Já gastamos dois trilhões na construção dessa coisa... agora é tarde demais para voltarmos atrás... o Gólen é a esperança de vencermos a guerra sem uso de armas atômicas.
Mas e se ela fugir do controle?
Temos o controle, senhor presidente o brigadeiro Carvalho garantiu sem nenhuma convicção.
Pelo que vi, todas as tentativas de controlar essa coisa resultaram em
fracassos, com as mortes de todos os que tentaram usar uma interface virtual de controle. O que tem em mente agora, Carvalho?
Transferência de consciência. Vamos transferir a consciência de um ex-piloto Expert para o Gólen, e ele terá controle total da situação. Ele será o Gólen.
Nesse exato momento a consciência dele já está sendo transferida para o robô; o download completo se encerrará nas próximas horas.
Rapaz corajoso. Mas isso não terá seqüelas para ele?
Infelizmente, senhor presidente, é um processo irreversível. Após o download da consciência desse ex-piloto para o robô, o corpo dele será declarado clinicamente morto, e será enterrado. Ele é mais um herói a dar a vida pelo nosso país.
E como é o nome desse herói? Bem, não me importa. Mas é melhor que não haja mais falhas nem atrasos no programa! O inimigo já domina dez por cento de nosso país!
O super-herói Expert se sentou na cabine de seu robô de ataque e começou a mexer numas alavancas. O monstro se levantou. A vilã Taróloga continuava pairando no céu, indiferente. "Prepare-se para conhecer o peso de todo meu poder, Taróloga!", ele gritou de dentro do robô, e investiu com tudo contra ela. A Taróloga se refugiava dentro dos prédios, mas o robô os desintegrava em frações de segundo. A Taróloga chama seus exércitos de ajudantes-cartomantes, mas eles eram esmagados pelo robô de meio quilômetro de altura e agilidade impressionante para um ser daquele tamanho.
Jornal do País
NOVA ARMA DO GOVERNO DIZIMA EXÉRCITOS INIMIGOS!
Quando a guerra parecia perdida para nosso país, as nossas forças
armadas lançaram contra o inimigo uma nova arma fulminante que está
destruindo exército após exército. O impressionante robô teleguiado de 500 metros de altura já destruiu todos os arsenais atômicos estratégicos do inimigo antes que pudessem ser lançados, e agora esmaga as forças inimigas que tomaram conta das cidades da fronteira.
"O horror... o horror..." repetia um dos poucos prisioneiros que puderam ser capturados vivos numa dessas cidades que permanecerá não identificada. As estimativas iniciais dão conta que pelo menos um milhão e meio de soldados inimigos morreram em menos de meia hora de enfrentamento contra o Gólen, que possui uma tecnologia de combate inédita, incluindo novos tipos de armas de raios, um tipo de blindagem revolucionário e uma agilidade sem precedentes, que quase chega a desafiar as leis da física tradicional. As Nações Unidas já cobram explicações de nosso governo e ameaçam um boicote ao país caso o Gólen continue em funcionamento. Aparentemente as forças armadas só vão parar o Gólen quando o inimigo ceder parte de seu território para nós como ressarcimentos de guerra.
No mundo noturno de Expert todos o aplaudiam quando destruía as legiões enviadas pela Taróloga para lhe infernizar. Diziam que o mundo nunca tinha conhecido um super-herói como aquele, dotado de plenos poderes para a prática da justiça. Mas a Taróloga sempre fugia para outra cidade, e o Expert acionava os motores de seu robô para ir atrás dela, e nas cidades sempre havia legiões de bandidos prontos para serem destruídos pelo guardião noturno da justiça e da bondade. Eram piores que insetos, e nunca aprendiam que o crime não compensa! Expert, o super-herói, de dentro de seu robô devastava os prédios desses marginais instantaneamente, soltava raios guiados para todos os lados, desintegrando os criminosos comparsas da Taróloga. Como havia bandidos naquelas regiões! Não eram centenas, mas centenas de milhares! E todos deveriam saber que o crime não compensa! Uns deles tinha até armas nucleares em lugares secretos, que foram logo escaneadas pelos sensores de seu robô e destruídas. Bandidos com armas nucleares! Onde esse mundo iria parar!...
Jornal do País
O HORROR INTERNACIONAL AO GÓLEN
Desde a Segunda Guerra Mundial a humanidade não se depara com um
genocídio como o que está sendo causado pelo robô de ataque Gólen. Até o momento são 34 milhões de mortos, a imensa maioria de civis. A Otan ameaça declarar guerra ao nosso país caso o programa Gólen não seja imediatamente interrompido. Em todo o mundo manifestações furiosas acontecem. Em Paris os estudantes enfrentaram a tropa de choque, que revidou com granadas de gás lacrimogêneo; dois estudantes morreram. Em Belfast uma marcha contra o Gólen atraiu quinhentas mil pessoas. No Japão manifestantes passaram a noite com velas acesas, lembrando do horror em Hiroxima. Na Indonésia o grupo radical Filhos de Maomé assumiu a autoria do atentado ao consulado, que resultou em vinte mortos. Nas principais cidades nacionais, ontem foi um dia de protesto contra o horror e a insensatez. Houve enfretamentos e diversas
pessoas foram presas.
Por mais que Expert, o super-herói combatesse a Taróloga, ela continuava a passear pela noite, a noite que nunca tinha fim. Lá estava ela, flutuando como uma suave fada lunar, sobre um quarteirão que ele acabara de destroçar. Ela lhe estendeu os braços e disse com uma voz cálida: "Beije-me". Expert de repente sentiu que a havia amado em outra vida. E sentia que ainda a amava, e que sempre a amaria. Ele então tentou sair de sua cabine para beijá-la, mas não conseguiu. Tentou mais uma vez. Não conseguiu. Sua cadeira parecia uma cadeira de rodas. O que estava acontecendo? Ele, usando cadeira de rodas? Mas ele era um herói! Um super-herói! Ele não conhecia ninguém que usasse uma cadeira de rodas... espere... ele lembrava
de um cara... mas... são lembranças... lembranças vagas...e tudo estava girando, num carrossel delirante de sensações e imagens que iam e vinham, mas que aos poucos foram se tornando mais nítidas...
Os soldados que se encolhiam dentro de suas trincheiras aos poucos botaram a cabeça para fora. Por que o Gólen não os liquida de uma vez? E lá estava o monstro, inerte. Aos seus pés, somente destruição. Vapores ainda saíam de milhares de suas armas.
O monstro então se inclinou para frente, e desabou! O impacto dele no chão chegou a produzir uma onda de choque que destruiu alguns escombros de prédios que ainda continuavam em pé.
(No seu país de origem a força aérea dava a informação alarmante: "perdemos
contato com o Gólen!").
O Gólen ficou algum tempo inerte no chão. Depois foi lentamente se erguendo, e foi se apalpando, se examinando com as mãos monstruosas. Quando se ergueu novamente, não era mais o Gólen. Era a consciência de Lázaro quem agora estava no comando.
Ele deu alguns passos na terra desolada, e foi a primeira vez que teve a
sensação física de caminhar. Mas viu que na sua frente havia alguns soldados, e não caminhou mais com medo de esmagar alguém.
Seus milhões de sensores lhe informavam de bilhões de coisas ao mesmo tempo: diversos dados sobre a cidade inimiga que destruíra, condições
meteorológicas, dados de satélites espiões, informações sobre suas armas e sobre todos os sistemas do Gólen. Eram informações tridimensionais, incapazes de serem compreendidas pelo cérebro humano normal, mas perfeitamente assimiláveis por uma consciência humana numa máquina. A percepção de mundo de Lázaro também estava alterada; graças aos sensores do robô ele tinha uma percepção de 360 graus ao seu redor e em diversas faixas do espectro eletromagnético. Mas aquilo não era mais um robô de quinhentos metros de altura; agora era seu corpo. Ele comandava
tudo de maneira inconsciente e instintiva, sem precisar raciocinar.
Mas o que tinha acontecido? Num instante uma das antenas do Gólen acessou a internet à procura de notícias. Ficou sabendo de tudo o que tinha feito enquanto fora uma marionete a serviço de seu governo. Uma outra antena do Gólen acessou a ultra-secreta rede de dados das forças armadas e assim ficou sabendo o que tinha ocorrido ao seu corpo humano.
Os megafones do Gólen urraram um ódio de milhares de decibéis, e uma das mãos socou a terra em sua frente, provocando uma cratera. Os soldados inimigos, pensando que o Gólen estava atacando de novo, fugiram apavorados.
Mas viram o Gólen alçar vôo de volta ao país de origem. O que não sabiam é que ele estava sedento por vingança.
Jornal do País
GÓLEN FORA DE CONTROLE!
O robô de ataque Gólen está atacando alvos por todo o país, causando milhares de mortos. Os principais alvos são instalações militares estratégicas, que estão sendo pulverizadas em massa. Já foram disparados cerca de 40 mísseis nucleares contra o robô descontrolado, mas todos foram abatidos pelo sistema de defesa antimíssil que ele possui, que inclui armas de raios de longo alcance. Ninguém sabe que medidas as forças armadas poderão adotar contra o Gólen, e nem se essas medidas serão eficientes de fato.
Naquele dia a Taróloga Marta recebeu um estranho e-mail em seu computador de mão:
"Oi, Marta! Aqui é o Lázaro. Se eu lhe contasse onde estou, provavelmente você não acreditaria. Ou melhor, se eu lhe contasse o que me tornei você não acreditaria. Estou lhe escrevendo para que saiba que eu nunca lhe abandonei! Penso
em você todo o tempo; aliás, você é o motivo pelo qual as coisas ficaram claras para mim, depois de um período de trevas interiores. Sabe aquela história de
responsabilidade que você me disse certa vez? Que o imperador tem uma imensa responsabilidade que não será reconhecida? Pois é, andei pensando sobre isso. Sempre quis ser um super-herói, um sujeito que fizesse alguma coisa importante, que deixasse uma marca no mundo. Mas a minha árdua responsabilidade me colocou agora ao lado dos vilões da história. Sim, eu agora sei que nasci para ser um vilão.
Não, não quero que pense que acredito na maldade ou coisa do gênero. O que ocorre é que tenho de agir de uma maneira tal que faça as pessoas se unirem. Marta, eu porei um fim nessa guerra. Farei todas as pessoas se unirem contra mim. Elas terão ódio contra mim e se esquecerão de sentirem ódio umas pelas outras. Essa é a minha responsabilidade que o arcano quatro, o imperador, predisse para mim. Eu escolhi a minha responsabilidade e não a minha vida. Marta, a minha vida é você. Desculpe por não lhe escolher. Quando estou voando à noite pela estratosfera e vejo as estrelas,
penso no fato do brilho atual delas ter sido produzido no passado. Elas são como eu, Marta, que estou lhe escrevendo agora, mas que já estou em seu passado. Adeus. E te cuida.
Jornal do País
GÓLEN ATACA OS DOIS PAÍSES CO-BELIGERANTES!
Jornal do País
MATANÇA INDISTINTA DO GÓLEN LEVA A ACORDO BINACIONAL!
Jornal do País
ACORDO BINACIONAL UNE ANTIGOS INIMIGOS CONTRA O GÓLEN!
Jornal do País
TODOS UNIDOS CONTRA O GÓLEN!
Jornal do País
VILÃO GÓLEN ATINGIDO!
Jornal do País
GÓLEN NÃO DESVIA MAIS DOS ATAQUES QUE SOFRE!
Jornal do País
ATAQUE BINACIONAL CONJUNTO DESTRÓI O GÓLEN!
Jornal do País
A GUERRA ACABOU!
Jornal do País
FIRMADA PARCERIA BINACIONAL DE COOPERAÇÀO ECONÔMICA!
INTEGRAÇÃO CULTURAL CADA VEZ MAIOR ENTRE EX-INIMIGOS FIRMADO PACTO DE NÃO PROLIFERAÇÃO NUCLEAR
Caderno Cultural do Jornal do País
Saiba tudo sobre o novo super-herói que invadiu as bancas de revistas:
Usando uma cadeira de rodas high tech, ele combate o crime quebrando
a espinha dorsal dos criminosos. Se o Batman usasse uma cadeira de rodas,
certamente seria como esse novo super-herói.
FIM
24/08/03
Josiel Vieira
Posfácio do Autor :
Para o alto e avante!
Na Segunda Guerra Mundial os aviadores alemães chamavam os
seus ases de "Experten". Os Estados Unidos declararam que a partir de
2020 os seus caças serão todos teleguiados. Da Ásia vem rumores de
uma guerra nuclear envolvendo a Coréia do Norte. Nesses dias eu sonhei
com um robô gigantesco que ainda estava sendo construído, mas que já
estava escapando do controle e matando seus construtores.
A esses elementos eu misturei um antigo personagem meu de 1996,
que era um super-herói que usava uma cadeira de rodas cibernética, na
verdade a cadeira parecia mais o tórax de um robô, e possuía braços
cheios de truques. Esse robô cadeira de rodas se deslocava velozmente
sobre os punhos fechados das mãos, como um chimpanzé.
É difícil imaginar um super-herói existindo no mundo real. É por isso
que volta e meia os seus autores adaptam o mundo a eles, e não eles ao
mundo.
Mas existem heróis verossímeis. Aqui a verossimilhança ocorre não
porque esses personagens não tenham poderes sensacionais mas porque
a existência deles num mundo real não seria difícil de imaginar. Por
exemplo o Demolidor.
Por falar em arquiinimigos, eles são um outro problema. Todo herói
precisa ter seu arquiinimigo. De preferência, que exista algum contraste. O sisudo e obscuro Batman precisa ter no colorido e falastrão Coringa o seu
contraponto. Mas isso torna a existência dos super-heróis ainda mais
difícil de se imaginar no mundo real, pois em nosso mundo os vilões de
verdade não tem rosto e nem forma: miséria, ignorância, racismo,
mortalidade infantil, miséria... para amenizar esse quadro, de nada
adianta o ímpeto vingativo do Justiceiro, ou a força do Super-homem. O franzino Mahatma Gandhi fez muito mais pelo mundo do que qualquer
super-herói...
Outro ponto é o seguinte: vamos supor que eu adquira um estranho
poder. E saia por aí para acabar com os criminosos. Primeiro, isso é uma
tarefa que qualquer constituição do mundo delegas às forças policiais
mantidas pela sociedade. Agir passando por cima das leis é uma atitude
reacionária, digna de milícias neonazistas. Segundo, a probabilidade de
eu agir impensadamente e atingir um inocente achando que ele é bandido
são muito grandes. Mas os super-heróis são sempre infalíveis. Eles
sempre capturam a pessoa certa e nunca comentem erros, a não ser que
o erro faça parte de algum roteiro genial.
Acho que o melhor dos super-heróis é quando eles simbolizam
aspectos de nossas vidas e personalidades. Quem nunca teve um amor
platônico como o Super-homem? Ou nunca teve crises como as do
Batman? Ou nunca andou cheio de dívidas como o Homem-aranha? Ou
nunca se sentiu excluído como o pessoal dos X-men? Os diversos super-heróis
representam uma mitologia moderna, digna da mitologia greco32
romana. Afinal, os deuses são como nós, possuem suas paixões e seus
defeitos. Quem sabe se um dia nós também seremos os deuses
imperfeitos que um dia já foram adorados por nós?
Mas esse assunto de ser um deus eu já abordei no meu texto "Deus
Est Machina". "Expert" é vagamente semelhante, porém aqui o personagem principal sofre o infortúnio de ser um herói anônimo até perceber que precisa se tornar um vilão para unir dois países em guerra. Rasputim disse certa vez que para entrar no céu é preciso se arrepender, e para se arrepender é preciso pecar... e para pecar é preciso ceder às influências de nossos demônios, que depois são tão renegados por nós.
Quem são os super-heróis sem seus arquiinimigos? Quem somos sem a
nossa face obscura?
Abraços a todos;
Esse texto foi revisado na madrugada do dia 24 de setembro de 2004, ao som de "Bolero", do Dead Can Dance. Desde já, é a trilha sonora de Expert; baixem a música da internet!
Josiel