UM SONHO
Há quanto tempo ele estava ali? Talvez uma eternidade. Porém, o mais importante: há quanto tempo tinha consciência disso? Então já se tratam de duas eternidades, uma antes e outra depois da consciência, e a primeira é algo como o infinito sonho que existe antes do nascimento do qual não nos recordamos. Para ele, aquela tomada de consciência de existir equivaleria a um nascimento, e como tal era dura e encerrava uma dor. E a dor desse despertar mesclava-se a uma vergonha ainda maior: a de ver sua nudez refletida nas paredes da caixa de vidro em que se encontrava preso. Sim, ele estava nu dentro de uma espécie de caixa. Enquanto permanecia hibernando em seu escuro sono embrionário, sequer tinha idéia desse fato. Mas agora que estava consciente, sentia com toda intensidade a vergonha de sua nudez. E era terrível, porque as paredes internas da caixa eram como espelhos que refletiam a ele mesmo, mas não permitiam que pudesse ver através delas. Uma incômoda sensação de estar sendo observado lhe gritava; olhos acusadores o estavam vigiando. Olhos acusadores dos que se encontravam do lado de fora da caixa, que viam com reprovação e asco todo absurdo de sua nudez... Ainda tomado pela vergonha de estar nu diante de olhos estranhos, Med Ezenos acordou bem no meio da noite. Moveu-se pelo escuro em direção à janela, onde ficou parado por um bom tempo refletindo sobre o sonho. O silêncio triste penetrava em seus pulmões. Acabou voltando para a cama de casal onde dormia sozinho.
A ÁGUIA
Como de costume, o senhor Med acordou bem cedo. Desde que separou de
Dória nunca mais sentiu muita fome pela manhã. Ligou o rádio e pôs-se a preparar seu café e, enquanto comia, olhava para o quadro na parede onde repousava, soberba, uma medalha.
Era uma águia de ferro com enormes garras, do tempo da guerra. Raridade que comprou a peso de ouro. Ele começou a prestar atenção no que o rádio dizia:
—... jam o caso dessa mulher, caros ouvintes trabalhadores, que na madrugada de hoje foi estuprada e morta por um monstro que a retalhou em diversos pedacinhos e que permanece foragido. Um safado desses merece é morrer na cadeira-elétrica! Cadê os defensores dos direitos humanos numa hora dessas? Eles - também outra corja de vagabundos - só aparecem quando a polícia mata marginal. Agora quando a canalha mata pai de família, esses desocupados não falam nada. Eles dizem: "Ai, seu policial - é, com essa voz de gay, mesmo! - ai, não mata o coitado não, ele só precisa de carinho e compreensão..." Imagina, defender um monstro desses! Marginal não merece piedade nem aqui nem no inferno! Eu tenho nojo dessa raça! E tem mais...
Ele trancou a casa, indo para o trabalho com a inquietadora sensação de que algo estava prestes a acontecer. E a águia foi imersa no silêncio.
ABORTESIA
Med caminhava lentamente por aquela manhã tão cinza, ao longo das calçadas frias como lajes de sepulturas. Apesar dos seus vinte e nove anos, parecia um homem recém-saído dos anos trinta, com seu casaco bege e seu chapéu de aba curta. Ainda estava no quarteirão de sua casa quando ao cruzar a primeira esquina quase esbarrou em Andrea Ariel. Ele elevou dois dedos à aba do chapéu e se abriu num sorriso:
— Bom dia, senhorita Ariel!
— 'dia, Med - e ela continuou a caminhar na direção oposta a dele, que por sua vez indagou-se por que aquela menina era tão esquisita. Usava sempre roupa negra, e era quase careca, tendo apenas uma espécie de penugem quase transparente a encobrir a cabeça. Não usava brincos, ou anéis, ou maquiagem, ou nada do que as garotas geralmente usam. Quase nada sabia a respeito dela; de concreto mesmo sabia apenas que executava um trabalho braçal na linha de montagem de uma fábrica da periferia. E que, pelo sotaque, deveria ser estrangeira. Simpatizava muito com aquela menina de dezessete anos, mas não entendia por que sendo ela tão bonita, insistia em ter uma aparência tão hostil... Estalou os lábios; aquilo o fazia lembrar do início dos anos oitenta.
LICANTROPO
Desde criança ele foi criado sob a doutrina da igreja de seus pais e avós.
Pregava essa religião que apenas os seus membros herdariam o paraíso, sendo que todas as outras pessoas estariam irremediavelmente condenadas ao fogo do inferno.
Apenas o deus deles era verdadeiro; todos os outros eram falsos. A verdade absoluta era privilégio exclusivo dessa religião, que era fundamentada na "razão", e todas as outras religiões eram mentirosas e baseadas em superstições folclóricas. Desde cedo lhe implantaram todo o tipo de entulho moral. Mas veio a adolescência, e com ela novas influências. Passou a sair de noite com uma gangue para pixar e aprontar. Mas de manhã vinha o arrependimento, a culpa... Se continuasse se detonando daquele jeito acabaria como Sid Vicius.
Mas no final das contas ele já não se interessava mais nem pela religião nem pela rebeldia. Acabou deixando para trás todas essas coisas e se acomodando, e quando se lembrava desse período era com um sorriso de desdém por suas "grandes dúvidas".
Sorriu para uma pixação de quase vinte anos que havia num muro:
"MAD MED, O LOBISOMEM" e pensou que no fundo, no fundo, talvez ainda houvesse um pouco daquela essência rebelde dentro de si, na forma de um demônio com uma crista punk.
MED, O MEDÍOCRE.
Atravessou a esquina do cemitério; do outro lado havia uma grande banca de jornal onde ele sempre parava para ler as notícias de primeira página. Os principais jornais traziam chamadas sobre violentas manifestações, massacres, greves, fome e miséria. Nada disso representava alguma coisa ao senhor Med Ezenos. Recebia notícias desse gênero com uma indiferença tal que parecia que elas vinham de outra galáxia; como fábulas que nunca poderiam atingí-lo. Continuou a caminhar. Já estava pensando no longo dia de trabalho quando ouviu:
— Moço, me dá uma ajuda por caridade!...
Pensando que se tratava de uma mendiga, Med ignorou aquele vulto sentado na calçada e continuou a andar. Na verdade, a velhinha havia apenas escorregado e queria uma ajuda para levantar.
A NOVIDADE
Dirigiu-se ao andar em que trabalhava. Lá todos estavam com cara de enterro.
Ia perguntar que bicho os mordeu, mas achou melhor deixar para lá; esse pessoal era tão estranho... deixou o chapéu e o casaco num cabide e sentou-se em frente ao computador de sua mesa. Uma funcionária veio até ele:
— Senhor Med Ezenos, o chefe quer falar com o senhor...
— ?! Tudo bem.
Intrigado, ele se dirigiu ao escritório do chefe, do tão temido chefe. Bateu na porta; ouviu um pode entrar mecânico. Abriu a porta, e a primeira coisa que viu foi um par de olhos de águia atrás de uma mesa olhando para ele. Era o chefe.
— Senhor Ezenos, há dez anos o senhor vem sendo um funcionário exemplar. Nunca faltou nem quando esteve doente, sempre fez horas extras, nunca participou de greves, nunca reclamou. Sim, senhor, se tem uma pessoa que admiro aqui é o senhor!
Med ouvia lisonjeado como uma criança que recebe elogio. Aquilo cheirava a promoção!
— Entretanto, tenho o desprazer de lhe comunicar que a nossa empresa, forçada pela concorrência a reduzir o quadro de funcionários a fim de aumentar a eficiência, infelizmente não precisa mais do senhor.
Depois de outras palavras formais, o chefe estendeu sua mão convencional para Med, que saiu como um autômato, tão estarrecido que não se despediu de ninguém.
O ESPELHO
Ele saiu a caminhar sem destino pelas ruas. Caminhou e caminhou, com a incredulidade estampada nos olhos. Parou numa esquina em que havia um restaurante. Os vidros das janelas eram cobertos por uma película prateada que impedia que os transeuntes vissem o interior do estabelecimento, mas quem se encontrava dentro dele via perfeitamente o que se passava do lado de fora. Med, atordoado como estava, viu seu reflexo no vidro de uma das janelas e se aproximou para se ver melhor.
Viu como seu rosto estava abatido. Ajeitou o chapéu e sorriu. Até que não sou tão feio, pensou. Súbito, percebeu o ridículo da situação: o vidro daquela janela não era espelho; certamente quem estivesse do lado de dentro agora estaria olhando para ele e se perguntando o que aquele idiota estava fazendo ali parado.
Foi então que, após sair vexado da frente do restaurante, ele se lembrou do estranho sonho que tivera. Aos poucos, os detalhes foram sendo relembrados: ele estava pelado dentro de uma caixa de vidro. Não podia olhar através dela, já que seu interior era refratário e refletia a ele mesmo, mas tinha a impressão de estar sendo observado por seres que estavam por trás de seu reflexo nas paredes da caixa.
Talvez por isso, mesmo estando aparentemente só, ele tinha que agir não como queria, mas como os olhares invisíveis esperavam que ele agisse - como por exemplo ter de cobrir seu sexo com as mãos. Não havia ninguém dentro do restaurante. Ele estava fechado há meses.
SATOR
Ele continuou a caminhar sem destino por horas. Ao chegar numa avenida, seu olhar foi atraído para o outro lado como um imã: espremido entre dois prédios, viu um sebo – o que era estranho, pois muitas vezes passara por ali sem, contudo nunca ter notado a presença dele. Foi até lá.
A vitrine do sebo estava coberta por uma grossa camada de fuligem. Mesmo assim, ele pôde ver através dela as pilhas de livros usados. Ao entrar foi atingido no ato pelo pesado ar de poeira e ácaros. O ambiente era escuro e as estantes formavam um labirinto. O assoalho de tábuas rangia. Aquilo parecia um porão abandonado por mais de cem anos. Entretanto, Med tinha a impressão de que algo o atraía por ali, e ele ficou fuçando até finalmente achar: Era um livro enorme, de capa negra – feita do couro de algum animal exótico – e ostentava o seguinte nome em letras góticas: SATOR.
Med o apanhou, e mesmo sem folheá-lo para saber do que se tratava, foi procurar o dono do sebo para comprá-lo. Não encontrou ninguém. Depois de reiteradas buscas concluiu que o lugar estava mesmo abandonado. Saiu dali com o livro debaixo do braço.
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MAN IN THE BOX
Não se dera conta de como o tempo passara rápido. Já estava escurecendo. E uma garoa fina e glacial tornava tudo mais escuro. Fim de tarde. Foi então que dessa paisagem aterradora apareceu o vulto negro de Andrea Ariel, que retornava do trabalho.
— Aconteceu alguma coisa, Med?
— Mandaram-me embora do emprego.
Ela ficou em silêncio por alguns instantes.
— Eu... sinto muito.
— Ora, não foi nada... mas outro dia a gente se fala mais.
Ela fez menção de continuar também seu caminho. Deu alguns passos. Parou.
Olhou para trás, na direção de Med. E voltou.
— Med!
Ele virou para ela, com uma interrogação nos olhos.
— Você não me parece bem.
— Não, estou perfeitamente bem, senhorit...
— Espere, Med - ela disse sorrindo - me chame apenas de Andrea. Sabe, esse negócio de "senhorita Ariel..." – fez uma negativa com a cabeça.
— Mas não há nada de errado comigo, Andrea. Não se preocupe.
— Ainda que seja verdade, vou acompanhar você até sua casa.
UMA MENINA
Passaram a caminhar juntos. Havia uma fileira de árvores desfolhadas pelo frio ao longo da calçada, rabiscando contra o céu plúmbeo as contorções de seus galhos negros. Andrea olhou para o enorme livro que ele trazia debaixo do braço:
— Pelo que vejo, gosta muito de ler...
— Mais ou menos.
O vento frio vinha com o buzinar do intenso tráfego.
— Pois é, Med, essa onda de desemprego está terrível, não é mesmo? Os meus amigos todos estão procurando emprego, também.
— Mas até que não é assim tão ruim, Andrea. Vou procurar levar a situação numa boa.
A face dela se contraiu numa reprovação enorme, que ela procurou segurar, mas não se conteve:
— Numa boa? Mas é isso que o governo quer! Que todo mundo "leve" numa boa e não faça nada! Foi essa aceitação sem limite de tudo, esse conformismo... criminoso... que levou a gente a essa situação de crise permanente!
Depois de uns instantes, ela disse:
— Me perdoe, Med. Às vezes falo demais.
— O que é isso, Andrea? Não foi nada. Aliás, você tem razão; de uns anos para cá eu fiquei mesmo meio conformado. Mas era muito parecido com você quando tinha sua idade.
Andrea teve de se controlar para não ter outra explosão, porque não havia nada que a irritasse mais do que dizerem que sua posição política era um mero produto de sua idade, e que mais cedo ou mais tarde iria se acomodar também.
— Não, Med, eu tenho de pedir desculpas. Mas o fato é que eu tenho andado muito nervosa porque anda um boato lá na fábrica que vão mandar todos os funcionários do meu setor embora para colocar robôs no lugar. Meu, como vou me virar? Moro numa pensão e não tenho ninguém; se eu for mandada embora, vou estar em maus lençóis.
— Bom... - Med sacudiu os ombros - se quiser, pode vir morar comigo...
— Não, muito obrigada – Andrea quis ser gentil, mas ela mesma sentiu o quanto havia de selvagem em sua recusa. O fato é que jurou que nunca mais viveria sob a tutela de ninguém. Procurou mudar de assunto - Mas como você vai se virar?
— Bom, eu tenho algum dinheiro guardado... mas não pretendo ser um vagabundo para sempre – sorriu – conheço um velho amigo, companheiro de infância, que trabalha num jornal, e verei se ele me arranja alguma coisa. Mas talvez essa minha situação me mostre coisas que eu não via antes.
Ele disse isso enquanto observava a garota. Apesar da palidez da pele típica de quem evita a luz solar e da máquina zero empregada na cabeça, sem dúvida, Andrea era bela.
— Esse meu amigo que trabalha no jornal é muito religioso. Íamos juntos à igreja, quando éramos crianças. Mas agora sou uma ovelha rebelde – sorriu – E você, Andrea, tem alguma crença?
— Não.
A rapidez da resposta foi desconcertante.
— Mas você não crê em nada?
— Não. Não creio em nada.
Mas ela fez menção de contar alguma coisa, mas se calou por uns instantes e mudou de assunto.
A silhueta cor de sangue do telhado da casa de Med apareceu depois duma esquina, contrastando contra a negritude meio azul-cobalto do céu encoberto por nuvens baixas e pesadas. Anoitecia.
— Bom, aqui eu me despeço. Se cuida, Med.
Ela estendeu a mão para ele e se foi.
Ao entrar em casa, Med resolveu folhear o livro. Entretanto, passava página e mais página e não encontrava nada escrito. Folheou SATOR inteiro e não encontrou nada. Estranho! Resolveu encostar o livro e esquecer o caso.
SÓ
E naqueles dias Med Ezenos se viu na solidão. Embora não tivesse problemas com dinheiro em curto prazo, incomodava-o bastante a condição de desempregado, de ficar o dia inteiro sem fazer nada e sem ninguém para conversar. A monotonia só era quebrada quando saía em busca de trabalho, mas invariavelmente nada conseguia.
Então, amargo, terminava indo para algum bar, onde geralmente bebia demais.
Algumas vezes flertava com alguma garota, mas sempre em vão. Parecia ser o último ser humano do mundo. Nada mais lhe importava.
Entretanto, conforme ia se afastando de sua antiga vida de pessoa normal, mais sentia desprezo por ela. Achava que se voltasse à normalidade, isto é, se voltasse a ter um emprego sólido, uma esposa e afins, se comportaria como um ator que finge estar feliz por beber tal refrigerante, mas que na verdade está sendo pago para representar sua própria felicidade. Nesses momentos ele se lembrava da sua juventude. Sempre que, arrependido de uma noitada daquelas, tentava retornar à sua igreja, não conseguia. Isto lhe parecia entendiante. O retorno era uma ilusão.
.BOXER
Então, aquilo que no começo parecia ser apenas uma crise por estar desempregado se converteu numa busca. Qual seria a saída da mediocridade; o que seria capaz de rasgar a placenta invisível que parecia envolvê-lo e que o impedia de ser ele mesmo? Qual seria sua tábua de salvação? E quando ele olhava para a medalha em forma de águia, pensava estar próximo da resposta.
THE BOX MAN
Naqueles dias Med conversou com o seu amigo religioso que lhe havia prometido um emprego no jornal. Ele tinha uma lembrança muito boa de Med, e se lembrava do talento dele para a escrita. Por isso o convidou para escrever crônicas para o jornal, de preferência sobre assuntos sem importância. Med se entregou sem muito entusiasmo ao seu novo emprego. Entretanto, certa vez, outra coluna do jornal ficou temporariamente vaga, e então ele foi convidado também para preenche-la. Foi a chance que precisava para expor suas novas idéias.
Utilizando o pseudônimo Box Man, ele escreveu uma série de artigos que tiveram uma repercussão razoável naquela cidade. Seus artigos eram uma espécie de fábulas lisérgicas que falavam sobre um estranho ser preso desde o início do tempo numa espécie de caixa. Mas o ser não tinha consciência disso: era como uma pedra que nada sabia sobre a sensação de existir. Porém, certo dia ele começa a ter a percepção de sua existência naquela caixa prisão. Sente então uma enorme vergonha, pois percebe que está nu e tem a impressão que do lado de fora da caixa estão lhe observando. E era assim; em todas as paredes de vidro ele só via o reflexo de si mesmo, mas sabia que por trás desse reflexo se escondia seres terríveis, que vigiavam cada gesto que fizesse ou deixasse de fazer. E o ser sofreu com essa vigilância durante muito tempo. Todavia, em certa ocasião, ele se indagou por que temer o julgamento desses olhos invisíveis; afinal ele não tinha culpa de sua nudez existencial, e a consciência disso é um caminho que não permite retorno: não podia fingir que era novamente uma espécie de pedra apenas para agradar os seres que o vigiavam com intolerância. Quando ele chegou a essa conclusão teve uma terrível sensação, que era ao mesmo tempo dor e prazer; suas mãos caíram, e no lugar delas apareceram duas enormes garras de águia. Numa delas estava escrito "Idéias" e na outra, "Opiniões". E com essas garras ele investiu com todo poder e vigor contra as paredes da caixa, que outrora tão indestrutíveis se estilhaçaram em sete mil pedaços e o ser, estando liberto de sua prisão, pôde finalmente voar para a sua liberdade.
A religião se sentiu particularmente atingida, uma vez que identificou o olhar implacável e onisciente que vigiava o ser preso dentro da caixa com o olhar divino; correntes direitistas também se manifestaram, porque atribuíam ao Estado o mesmo olhar que vigiava o ser. E aí o circo pegou fogo. E a todas essas o diretor do jornal sorria bonachão, já que a polêmica aumentou sensivelmente seu "caixa". Alguns religiosos e militantes da direita tinham o prazer de comprar o jornal só para posteriormente rasgá-lo.
A intenção de Med não era provocar nenhuma polêmica; era a de simplesmente expor suas opiniões. Mas ele acabou ganhando um bom dinheiro com o barulho que provocou, e mais: a intelectualidade o elegeu como O pensador. E Med colheu seus louros sem nenhuma modéstia. Com o ego elevado, achava mesmo que era a maior antena pensante da cidade.
NUBILA
Passou a freqüentar os bares onde se reunia a burguesia intelectual, e então todas as noites essa raça ouvia embevecida à malha de opiniões de seu novo herói, e faziam toda espécie de comparação inútil; diziam que seu estilo parecia com o de Kafka, e falavam que o seu Box Man fazia referências ao filme Matrix, principalmente à parte em que o personagem Neo acorda de seu sono virtual e se vê numa espécie de casulo – muito embora sua história tivesse surgido bem antes. Essas frias noites eram regadas a baldes de álcool: Med, totalmente bêbado, ouvia tudo isso com o ego inflamado como um órgão canceroso e via um turbilhão rodopiar à sua frente – composto por mulheres bonitas, aplausos, risadas, brindes, olhares de inveja, e tudo rodopiava e rodopiava, e pediam que ele desse mais opiniões, que lhes desse uma resposta - e Med, do alto de sua embriaguez, via olhares de súplica, de pessoas querendo algo em que pudessem se agarrar, que desse sentido a suas vidas vazias. Então ele, triste palhaço de si mesmo, dava seu espetáculo, gesticulando enquanto vociferava suas opiniões. Perguntavam-lhe o porquê do pseudônimo Box Man; respondia que era uma referência às pessoas que se encontram presas na caixa metafísica, mas que ainda não têm consciência disso. São como embriões dentro duma barriga ou como uma pedra dentro de uma caixa de sapatos. Ou pior, são como uma caixa vazia, destituída de um ser em seu interior - daí o termo "homem-caixa", onde o homem é a sua própria limitação que o prende como uma caixa. Perguntam então para o novo herói se ele já saiu da tal caixa, e se as opiniões bastam para libertar o homem de si mesmo. Que perguntas mais idiotas! É claro! - grita, e a mocinha de óculos que fez a pergunta se encolhe, assustada, e ao mesmo tempo fica ainda mais fascinada por seu novo ídolo cult de temperamento arisco (como convém a um gênio, pensa ela).
Cambaleante e com uma garrafa nas mãos, Med se dirigia então para casa. As ruas eram de uma escuridão fria, e a luz dos postes desenhava círculos pálidos no asfalto. Ele parou, olhou para a lâmpada de um poste que brilhava como uma estrela gorda e teve uma estranha nostalgia das histórias que ouvia na infância, sobre a luz e as trevas. Naquele tempo tudo era tão nítido... esse é o caminho certo; aquele é o errado. Isso é o bem; aquilo é o mal. Agora o que sentia era tão confuso que receava ser profundo.
— Maldição... eu tenho uma opinião, e é isso que importa...
Tentou arremessar a garrafa na lâmpada do poste, mas o fez sem nenhuma vontade. A garrafa passou longe do objetivo e se espatifou no chão. A estrela continuou brilhando. Um cachorro latiu ao longe. Med continuou a andar.
DIAL
Numa daquelas noites Med resolveu ir mais cedo para casa. Apesar de ter bebido ele estava lúcido e - talvez por isso mesmo - bem amargo.
É que um palhaço de um jornal rival resolveu publicar uma série de textos intitulados de Anti-box man, em que dizia toda a malha de idéias de Med ao contrário.
Assim, se o Box Man queria desesperadamente sair da caixa, o Anti-box man procurava era entrar. E o autor se justificava citando exemplos como os milhares de candidatos que disputam acirradamente o mesmo emprego, ou uma vaga num vestibular, enfim, o exterior da caixa representava todo um universo de seres que queriam entrar na segurança "establishment" da caixa. Esse autor usava um humor desconcertante para mostrar que o interior da caixa representava a estabilidade proporcionada pela vida nas classes média-alta na civilização ocidental, enquanto que fora dessa caixa-fortaleza havia o universo dos excluídos que eram atraídos por ela como um enxame de mariposas pela luz.
Outro indivíduo aproveitara a deixa de Med para lançar a idéia do Boxnauta: o que aconteceria se um ser humano fosse colocado dentro de uma caixa como a imaginada por Med, desde o início de sua vida? Afora problemas técnicos, como a alimentação, a evacuação e a respiração, e a ética (é claro que ninguém faria isso com um ser humano na vida real, isso é mais do que óbvio), o objetivo seria descobrir o que se passaria na cabeça de um ser humano que passa décadas a fio olhando para seu próprio reflexo nas paredes internas dessa caixa, sem ter contato com nenhuma outra pessoa, e muito menos a qualquer cultura ou a simples imagens ou sons, simplesmente passando hora após hora vendo a si próprio refletido nas paredes da famosa caixa e - importante - sem saber que está sendo observado do lado de fora por seres semelhantes a ele. Seria o Boxnauta capaz de produzir qualquer vestígio de cultura, estando só e privado de estímulos naturais?
E outro, um cartunista, não ambicionou ir tão longe com especulações metafísicas e criou um personagem no pior estilo trash; ele tinha a forma de caixa, com braços e pernas ridículos, e numa das faces dessa caixa havia uma caricatura escrachada de Med. O nome dessa cômica criaturinha era Box-boy, e sempre dizia trocadilhos do tipo "Depois eu é que sou quadrado".
Isso tudo havia desagradado Med. Não gostou de terem feito antíteses a partir de sua tese, muito embora não fossem necessariamente antíteses, como no caso do Boxnauta e do Box-boy, e mesmo a que era antítese - o Anti-box man - era tão válida quanto a sua tese. Mas, do jeito que seu ego estava inflado com os elogios da crítica, todos esses novos artigos foram um duro golpe ao orgulho que lhe adoçava o bico.
E de doce, então, salgado ficou amargo. Com esse fel no coração ele caminhava pelas ruas noturnas encobertas pelo nevoeiro espesso. Como sempre, estava usando um capote e um chapéu que estava caído para um lado da cabeça. Suas mãos estavam socadas nos bolsos das calças. Ia lentamente, sentindo o ar gélido do nevoeiro lhe encher os pulmões, ouvindo seus próprios passos ecoarem solitários, olhando os reflexos prateados que a luz dos postes deixava nas calçadas úmidas... e começou a se lembrar do dia em que caminhara sem destino logo após ser despedido. Entrara naquele sebo e pegara o raro livro SATOR. Med franziu a testa.
DEVANEIOS, DELÍRIOS, DESVARIOS
Deviam faltar poucas horas para o amanhecer; a estrela da manhã brilhava no céu cor de sonho que a janela aberta emoldurava. A aragem gélida balançava lentamente as cortinas de outra janela. O silêncio era absoluto. E Med não sabia o que estava fazendo sentado na escuridão de sua sala.
Ele estava sentado no piso, tendo suas costas escoradas por uma enorme pilha de livros velhos. Estava sem camisa ou calça, mas usava seu capote e seu chapéu, cuja aba estava abaixada sobre os olhos. As mãos, entrecruzadas sobre os joelhos. Fazia horas que se encontrava nessa posição. Começou então a sentir-se poderosa e irresistivelmente atraído por algo ali perto. Caminhou no escuro, sentindo no corpo o vento frio. O chamado aumentava de intensidade conforme ia se aproximando. Chegou numa estante; da negritude dos livros enfileirados um se destacava por estar brilhando como um néon. Puxou e viu as letras fosforescentes de sua capa: SATOR.
Med abriu o livro. Havia algo escrito:
"E o anjo falou ao profeta: toma o livro e devora-o".
O que aquilo queria dizer? Med estava intrigado. Mas antes que pudesse pensar, rasgou uma boa parte da primeira página e começou a devorá-la. Era estranho. Em sua boca, o gosto daquela página era doce, comparável ao mel.
Após isso ele ficou num dos cantos, esperando algo acontecer. Med fixou seu olhar no canto da sala oposto ao seu, onde se encontravam duas paredes e o teto, e desse lugar seus olhos não mudaram de direção. Ali era o encontro das três dimensões: comprimento, largura e altura; bem parecia uma das extremidades duma caixa...
Embora não percebesse, seus olhos estavam há um bom tempo sem piscar.
Então a sua visão começou a escurecer gradativamente, ao compasso das batidas de seu coração, que por sua vez aumentavam ao ritmo da respiração cada vez mais ofegante... o que estava acontecendo?
Passou a sentir uma pavorosa amargura no estômago, tão forte que passou a gritar de dor. Tudo parecia girar loucamente e zumbia. Cada vez mais o vórtice psicodélico o arrastava para dentro de si. Ele procurava ainda se debater, agarrando-se à sua lucidez, mas o poderoso vórtice pulverizou esse objeto frágil.
E a dor em seu estômago aumentava num ritmo enlouquecedor, e se generalizou para toda a barriga. Med se contorcia imerso em grandes gotas de suor como se estivesse recebendo uma descarga elétrica, e tamanha era a dor que sentia que já não saía mais nenhum som de sua boca. E a dor se converteu em delírio, delírio de estar caindo da camada mais alta da atmosfera, caindo, caindo, vendo o mundo se aproximar de forma cada vez mais aterradora, caindo, caindo, caindo...
Das alturas vertiginosamente alucinantes em que fora lançado Med caiu como uma estrela cadente sobre si próprio. Quando a sua percepção voltou ao normal, ele teve um susto como nunca antes tivera: sua barriga tinha crescido! Parecia a de uma mulher que está no nono mês de gravidez. Visão repugnante. Porém, repugnante foi o que veio depois: o ser que estava em sua barriga passou a dar pequenos chutes e esses chutes aumentaram de intensidade e se transformaram em violentos golpes – a cada um deles Med fechava os olhos de dor e desespero. Era um animal selvagem, um Alien, tentando angustiosamente sair.
A dor de Med atingiu proporções insuportáveis. Sentia que garras rasgavam internamente as paredes de sua barriga. O ser estava preste a sair.
Como se houvesse uma granada dentro de sua pança, ela explodiu num jorro de sangue e pedaços de carne, e junto voou também uma escura criatura que logo desapareceu na escuridão da sala.
Assim que sentiu o choque da explosão, ele fechou os olhos. Ao abrí-los novamente, descobriu muitas coisas: já não sentia nenhuma dor, não havia nenhum rombo em sua barriga e...
... em sua frente, um monstruoso ser olhava para ele com olhos que brilhavam na escuridão.
Med, paralisado de medo, fitava boquiaberto o gigantesco monstro. Uma voz sombria, mistura de som de disco em baixa rotação, rosnado de lobo e alarido de uma multidão, se fez ouvir:
SATOR, O DEMÔNIO
— SAUDAÇÕES, BOX MAN . EU SOU SATOR.
Uma espécie de bola de fogo surgiu na palma da mão esquerda do ser, e com a luminosidade criada por ele, Med pôde ver com maior nitidez o aspecto da criatura em sua frente: sem dúvida era um monstro. Tinha a aparência de um enorme lobisomem escuro. Possuía unhas afiadas e presas maiores que as de um leão. O focinho era alongado como o de um lobo, fazendo-o parecer com certo deus com cabeça de chacal. E... estranho lobisomem: a cabeça tinha uma vistosa crista punk!
— Você... você... é o ser que saiu de mim?
— SOU.
Med se ergueu e se aproximou do demônio.
— O que você quer?
— SINTO QUE ACREDITA EM MIM, BOX MAN . ISSO ME AGRADA . TENHO UM DESAFIO PARA VOCÊ.
Surgiu então nas costas da criatura um par de asas negras e peludas. SATOR estendeu sua mão direita para Med:
— VENHA COMIGO , PROFETA EZENOS .
AS VISÕES
Batendo suas asas vigorosamente, SATOR vira sua cara de lobo para Med e pergunta:
— O QUE ESTÁ VENDO, PROFETA?
— Vejo a superfície de um grande mar.
— SIM, PROFETA EZENOS , É A SUPERFÍCIE . É AÍ QUE VIVE A MAIORIA DOS SERES HUMANOS. E AGORA, O QUE VÊ?
Med olhou para o mar, e viu incontáveis ilhas, a perder de vista.
— Vejo muitas ilhas.
— TEM RAZÃO , PROFETA , SÃO ILHAS . ILHAS NA SUPERFÍCIE. BOA PARTE DOS HUMANOS SE REFUGIA NESSAS ILHAS . CONSEGUE LER O NOME DELAS?
Med olhou para as ilhas, sobre as quais estavam escritos seus nomes:
—... são muitos os nomes das ilhas, demônio. Vejo também que as ilhas formam arquipélagos.
— CERTO, BOX MAN . E SABE O QUE ESSAS ILHAS TÊM EM COMUM?
— Não sei...
Os olhos de uma fosforescência avermelhada de SATOR encontraram os de Med. Então o soltou. Como se fosse uma pena caindo, o profeta Ezenos aterrissou lentamente numa das ilhas. Quando ele pôs os pés ma ilha, que era uma das mais famosas, imediatamente foi criada em torno dele uma caixa de vidro, que parecia espelhada por dentro e... etc. O profeta olhou para seu corpo: estava nu, dentro da caixa. Entretanto, ele pensou já ter a chave para sair daquele maldito lugar, gerado em torno de quem habita a ilha: abriu os braços como quem é crucificado e gritou:
— Eu tenho uma opinião!
Imediatamente suas mãos caíram e em seu lugar surgiram enormes e pontiagudas garras de águia. E com elas investiu com todo poder e vigor contra a prisão metafísica em que se encontrava, estilhaçando-a.
Ele levantou então os braços como se fosse um boxer que tivesse dado um nocaute no adversário e olhou triunfante para SATOR, que a todas essas permanecia voando e olhando (cinicamente?) para seu profeta.
Med já estava prestes a dar um urro de vitória, quando algo aconteceu:
Brotando do solo daquela pequena ilha, uma nova caixa surgiu e o prendeu.
Desesperado diante do fato novo, o profeta Ezenos aplicou novamente um furioso golpe contra as paredes da caixa, que se estilhaçaram numa fina poeira de cristal. Med lançou um olhar de interrogação para o demônio, que o encarava pairando de braços cruzados. Mas a visão que ele tinha desse estranho anjo foi novamente coberta por mais uma caixa metafísica que brotou do chão. Nova investida violenta. Novo estilhaçamento da caixa. E novamente surgiu outra em seu lugar. E outra. E outra. Todas exatamente iguais.
Desesperado, ele pulou daquela ilha para a Reabanho-O. Mal pisou no solo da ilha e brotou uma caixa em torno de si. Estilhaçou-a com suas garras e antes que pudesse surgir outra, pulou rapidamente para a ilha Rebanho-R. O fato se repetiu. E se repetiu. E se repetiu.
Ouviu então uma pavorosa risada vinda de SATOR:
— BOX MAN, NÃO SEJA TOLO! SIMPLES OPINIÕES GERADAS POR SEU TOSCO E PRIMITIVO CÉREBRO HUMANO JAMAIS O SALVARÃO! VOCÊ VIVE SOB AS ORDENS DE UMA CULTURA DESDE QUE NASCEU, E POR MAIS QUE ELABORE OPINIÕES CONTRA ELA, NUNCA ATRAVÉS DE TAL INSTRUMENTO PODERÁ SE LIVRAR DELA. E, COMO PODE NOTAR, NÃO ADIANTA MUDAR DE CULTURA, DE PAÍS, DE FILOSOFIA, DE RELIGIÃO, POIS CADA UMA DELAS SERÁ UMA PRISÃO ESPERANDO POR VOCÊ.
Med estilhaçou mais uma vez a eterna caixa metafísica que o cercava e saltou da ilha para a superfície do infinito mar transcendental, gritando:
— Não, eu me recuso a acreditar nisso! A minha opinião é a tábua de salvação que me impede de afundar de vez!
Dito isso, suas poderosas garras de águia se transformaram em uma tábua de salvação, em que ele se agarrou para não afundar no estranho mar. O demônio, estático a pairar no ar como um lobisomem alado, pôs as mãos na cintura e seus olhos vermelhos fosforescentes fulminaram o profeta.
— MUITOS SE REFUGIAM NAS ILHAS INSIGNIFICANTES CHAMADAS DE SOCIEDADE, RELIGIÃO OU FILOSOFIA. OUTROS PREFEREM FICAR BOIANDO NA SUPERFÍCIE DA VIDA, COMO OS PENSADORES PRIMÁRIOS QUE TÊEM EM SUAS OPINIÕES A TÁBUA DE SALVAÇÃO, OU QUER PORQUE FORAM MARGINALIZADOS, COMO OS MENDIGOS E CRIMINOSOS. ANTES VOCÊ SE ENCAIXASSE NESSE SEGUNDO GRUPO, BOX MAN.
— Por quê?
— PORQUE OS HUMANOS DESSE SEGUNDO GRUPO BOIARÃO NA SUPERFÍCIE ATÉ O DIA DE SUAS MORTES, AO PASSO QUE VOCÊ, NÃO. . .
— Não entendo por quê, demônio, se eu sinto total confiança na tábua de salvação em que estou agarrado, que é minha opinião... mas... mas... o que está acontecendo com ela?!
A tábua de salvação de Med, a sua bela tábua de salvação, se transformou numa pesada esfera de metal unida por uma corrente a uma algema, dessas que antigamente se prendia nos detentos para que não fugissem. Como se tivesse vida própria, a algema se prendeu numa das canelas de Med e o infeliz, devido ao peso extra, começou a afundar...
Embora se debatesse sofregamente, depois de alguns instantes estava abaixo da linha da superfície do mar. Sentiu então ao seu lado a queda borbulhante de algo grande e escuro: SATOR também tinha entrado no mar. Seus contornos não eram muito nítidos, devido à água, mas o brilho vermelho de seus olhos estava mais intenso. E sua voz sombria não sofreu alteração:
— PROFETA, SEJA BEM-VINDO À PROFUNDIDADE.
A PROFUNDIDADE
Med abriu os olhos e viu o extraordinário mundo, rico em cores, formas e de vida, existentes nas águas claras imediatamente abaixo da superfície daquele estranho mar. Viu infinitas e multicoloridas colônias de seres semelhantes a corais que brotavam ao redor das terras submersas das ilhas, que, como montanhas, se prolongavam abaixo da superfície do mar. Viu também cardumes brilhantes de seres que se pareciam com águas-vivas, mas que a cada momento mudavam de forma e de cor. "Mas é fantástico!", pensou. Sem dúvida aquelas formas que habitavam o alto da profundidade eram as mais belas que jamais vira em toda sua vida.
— ATENTE PARA O QUE VOU FALAR, PROFETA. ESTE LUGAR É A
PROFUNDIDADE, OU O SEU UNIVERSO INTERIOR. OS SERES, AS CORES E AS FORMAS QUE VÊ SÃO AS IDÉIAS, OS PENSAMENTOS, AS ASPIRAÇÕES QUE SURGIRAM, SURGEM OU SURGIRÃO. TODOS OS HUMANOS QUE, COMO VOCÊ, DESENVOLVEM SUAS IDÉIAS, ACABAM POR SAIR DA SUPERFÍCIE DA VIDA E ADENTRAR NA SUA PROFUNDIDADE. TORNAM-SE, POR ASSIM DIZER , PENSADORES PROFUNDOS.
Med continuava a contemplar, admirado, as belezas existentes na profundidade. Enquanto isso, imperceptivelmente, ele afundava cada vez mais...
— A PROFUNDIDADE, BOX MAN, ESTÁ NO INTERIOR DE CADA UM, E É COMUM A TODOS .
E Med afundava, afundava...
— AS PEQUENAS ILHAS QUE VEMOS NA SUPERFÍCIE SÃO OS PICOS DESSAS MONTANHAS SUBMERSAS. CONSEGUE VER A BASE DELAS?
Med olhou para baixo; só havia escuridão. As montanhas deviam prolongar-se por quilômetros naquela negritude antes de encontrar o fundo do mar. Sacudiu a cabeça para o demônio; não dava para ver. E continuou a afundar, com o peso de suas idéias. O demônio chegou mais perto dele:
— A ESCURIDÃO QUE VÊ ABAIXO DE VOCÊ, PROFETA, É O INCONSCIENTE HUMANO.
Med quase não ouvia mais; a cada momento afundava com maior velocidade.
E - fator gritante - precisava respirar!
— AS MONTANHAS NASCEM NO LUGAR MAIS OBSCURO DA PROFUNDIDADE E SE DIRIGEM PARA A SUPERFÍCIE, LÁ APARECENDO NA FORMA DE INÚMERAS ILHAS CONHECIDAS POR PÁTRIA, CULTURA E RELIGIÃO E ONDE OS HOMENS PUDERAM POR COM SEGURANÇA OS SEUS PÉS E DESSA MANEIRA FICAR A SALVO DOS PERIGOS DO MAR , LUGAR ONDE A VIDA E A MORTE SE REVEZAM IMPIEDOSAMENTE. ENTRETANTO TODOS OS QUE VIVEM NESSA ILHAS SEGURAS, CONFORME O PROFETA JÁ PERCEBEU, VIVEM PRESOS EM PRISÕES INVISÍVEIS E SÃO VIGIADOS.
E o profeta Ezenos afundava num ritmo cada vez mais alucinante. A beleza inicial que vira pouco abaixo da superfície do mar havia ficado para trás e agora as águas da Profundidade se tornavam mais turvas e escuras, de uma escuridão de fossa abissal. As montanhas submersas se transformaram em colossos negros, quase sem contraste com a água escura. E nos vales existentes entre as montanhas Med julgou ver flamejantes águias de fogo negro voando num ritmo furioso. E o estranho anjo SATOR acompanhava a sensacional descida de Med com indiferença, porém continuando a dar explicações.
ACUSADOR
— NA AURORA DE SUA ESPÉCIE, PROFETA EZENOS, SEUS ANTEPASSADOS SE VIRAM ENVOLTOS EM PERIGOS: A NATUREZA NOS ATACA; O QUE FAZER? ENTÃO UMA MONTANHA BROTOU DO ESCURO LEITO DO MAR, ATRAVESSOU A PROFUNDIDADE ATÉ SEU PICO APARECER NA SUPERFÍCIE. E NELA OS HOMENS SE VIRAM A SALVO. E ASSIM, CONFORME FORAM APARECENDO NOVOS PROBLEMAS COM O PASSAR DAS ERAS, NOVAS ILHAS FORAM SURGINDO E SERVINDO AOS HOMENS CONFORME SUAS NECESSIDADES. VEJA ESSAS PEQUENAS MONTANHAS QUE AINDA NÃO ATINGIRAM A SUPERFÍCIE, BOX MAN: SÃO ESTRUTURAS QUE SÓ IRÃO APARECER NO FUTURO E SERÃO NOVAS RELIGIÕES, NOVAS CIVILIZAÇÕES.
Med já estava prestes a se afogar, arrastado como um cometa para o fundo do mar pelo peso de suas opiniões.
— ESSE É UM PROCESSO QUE VAI DE DENTRO PARA FORA. MAS TAMBÉM HÁ O INVERSO, QUANDO PENSADORES COMO VOCÊ, BOX MAN , DEIXAM A REALIDADE PARA FAZER UMA VIAGEM PARA DENTRO DE SI MESMO.
A angústia de Med se prolongava de maneira horrível.
— ESSES FARISEUS MAL VISUMBRAM A PROFUNDIDADE DAS COISAS E JÁ SE INTITULAM "PENSADORES PROFUNDOS", E RIEM DAS PESSOAS "SUPERFICIAIS". TOLOS! BERRAM AOS QUATRO VENTOS: "EU TENHO UMA OPINIÃO" E FAZEM DELA O SEU REFÚGIO. CEGOS! SUA CEGUEIRA É O QUE DEPOIS AMARGA SUA VAIDADE; E SE A SUA NÃO FOSSE TÃO IMENSA TERIA PERCEBIDO QUE A ARGUMENTAÇÃO DO ANTI-BOX MAN SE MOSTRA TÃO VÁLIDA QUANTO O DELÍRIO QUE ESTÁ TENDO AGORA , E DA MESMA FORMA TERIA DADO OUVIDOS QUANDO AQUELA MOCINHA DE ÓCULOS INDAGOU SE SIMPLES OPINIÕES SERIAM CAPAZES DE DESTRUIR ALGO TÃO PODEROSO QUANTO SUA CAIXA , SUA PRISÃO .
As águias que voavam nos vales das montanhas submersas passaram a realizar vôos circulares ao redor de Med, como se ele já fosse uma presa.
CONSIDERAÇÕES
— BOX MAN, REPARE QUE ESTÁ DANDO UM MERGULHO FATAL EM SI MESMO. NO INÍCIO AS ÁGUAS ERAM CLARAS E RICAS EM FORMAS LUMINOSAS. TODAVIA, CONFORME VOCÊ TÊM SE DEIXADO LEVAR PELA APARENTE IMPORTÂNCIA DE SUAS IDÉIAS, TEM SIDO ARRASTADO POR ELAS PARA UM ABISMO INTERIOR. LOGO SE VERÁ ENVOLTO PELA ESCURIDÃO E MORRERÁ. O INCONSCIENTE É UM BURACONEGRO QUE ATRAI E DESTRÓI ASTROS PRETENSIOSOS QUE ACHAM QUE PODEM COM A FORÇA DELE; É UMA VIÚVA-NEGRA QUE ATRAI IDIOTAS QUE SE JULGAM GALANTEADORES E OS DEVORA.
Med estava agonizando.
— SAIBA, PORÉM, QUE A IDA À PROFUNDIDADE É NECESSÁRIA PARA TODO AQUELE QUE QUER SABER O QUE HÁ POR TRÁS DISSO TUDO , ASSIM COMO O É PARA QUEM QUER SABER O QUE É DOR , SENTÍ-LA NA PRÓPRIA CARNE APENAS PARA PERCEBER QUE ISSO NÃO TRARÁ RESPOSTA ALGUMA . SE EU CHAMEI A VOCÊ, É PORQUE SEI QUE TEM CAPACIDADE VENCER O MEU DESAFIO.
Ele já sentia sua vida se esvair sem sentido. Talvez fosse suicida.
— EIS QUE O MEU DESAFIO É ESTE: TERÁ DE DESCOBRIR COMO EVITAR O SEU MERGULHO FATAL. E ESTE É O MEU ENIGMA: TENTE VER QUEM VIGIA OS QUE ESTÃO DENTRO DESSA PRISÃO. SAIBA QUE ELES ESTÃO ATRÁS DE SEU REFLEXO NO INTERIOR DA CAIXA, APESAR DELA SÓ REFLETIR A VOCÊ MESMO. SE ASSIM PROCEDER, GANHARÁ A CHAVE PARA SUA LIBERDADE ; MAS TER A CHAVE NÃO SIGNIFICA SABER USÁ-LA . CUIDE PARA QUE A CAIXA NÃO SEJA O SEU CAIXÃO.
Med acordou com uma forte dor de cabeça. O dia já ia alto.
O BEIJA-FLOR
Nas últimas semanas daquele terrível inverno Med começou a cultivar o hábito de dar longas caminhadas solitárias. A repercussão do Box Man continuava, e a todo instante era solicitado para maiores esclarecimentos sobre sua teia de idéias.
Continuava a fazê-lo, mas sem o entusiasmo de outrora, e sua vida boêmia havia terminado.
Os dias eram cinzas e extremamente frios; parecia que nunca mais o sol iria novamente aparecer e despejar calor e sobre os seres. Malgrado esse fato, as primeiras flores já estavam desabrochando, o que o levou a optar por caminhar no parque municipal. Ia encolhido em seu tão querido capote, ouvindo o estalar solitário dos seus sapatos nas calçadas.
Sentiu então uma mão agarrar o seu braço, e diante desse ato inesperado teve um estremecimento..
— Calma, Med. Eu não mordo.
— Andrea!
— Para onde está indo?
— Para lugar nenhum; estou apenas caminhando sem destino. Se bem que venho fazendo isso desde que nasci.
— Que coincidência. Eu também. Se importa se o acompanhar?
— Será um prazer.
Med olhou obliquamente para sua companheira enquanto caminhavam. Chegou à conclusão que lhe era impossível imaginá-la em uma roupa que não fosse preta, e da mesma maneira não podia visualizá-la com um cabelo longo. No início achava estranho uma garota cortar o cabelo bem rente, mas agora tinha certeza que as quase transparente franjas que caíam sobre a testa dela eram muito simpáticas. Elas, junto com os olhos de uma pureza desconcertantemente infantis davam ao rosto dela uma esquisita expressão de inocência - que as sobrancelhas eternamente franzidas (como as de quem lê algo interessante) pareciam lutar por desmistificar, mas em vão.
O que mais agradava a Med era aquele jeito dela de não precisar dar satisfações a ninguém.
— É horário de almoço na fábrica - Andrea apontou com o cigarro entre os dedos uma direção - está vendo? Ela fica pra lá. Então aproveito e venho passear aqui.
Soltou uma baforada e pôs uma das mãos no bolso. Caminhavam perto de um lago. Andrea parou e disse, sorrindo:
— Mas dá uma olhada nisso!
Mais para frente havia uma dessas exposições artísticas que sempre há em parques, e do lado uma placa do patrocinador do evento: uma rede de fast-food.
— Sabe, Med, antes eu achava que a imagem que melhor sintetizava o ser humano que procura uma explicação para o que vê era a o Pensèur, de Rodin. Agora creio que a imagem mais sensata é a do Retrato do dr. Gachet, de Van Gogh. De alguém que já se cansou de pensar demais e não chegar a nenhuma conclusão.
Med notou que a mão dela era cheia de calos.
— Você é inteligente, Andrea. Por que não faz uma faculdade?
Ela soltou a fumaça do cigarro pelas narinas enquanto via algumas jovens fazendo cooper:
— Quero me dar ao luxo de não desenvolver meus potenciais.
Um casal de patos ou algo que o valha nadava lânguido pela lagoa. Andrea e
Med sentaram-se num banco.
— É casado?
— Fui.
— E o que houve?
— Por que nós nos separamos? - ele respirou fundo com desconforto – Poderia dar várias respostas, todas insatisfatórias. E você?
— Meu caso é que não acredito no amor.
Med não perguntou nada, apesar de não acreditar naquela resposta dela, porque viu algo que lhe chamou a atenção:
— Olha!
No céu um beija-flor, desses que aparecem no fim do inverno, estava atacando uma ave muito maior que ele - provavelmente se tratava duma ave de rapina. Voando agilmente ao redor dela, o beija-flor usava seu bico finíssimo como uma arma terrível contra sua rival mais forte.
— Isso me faz lembrar daquela história do incêndio da floresta, em que o beija-flor faz sua parte no combate ao fogo levando um pouquinho de água no bico. – Andrea soltou a fumaça pelas narinas. Ficou em silêncio refletindo, e depois completou - Quem inventou essa história deve ser um idiota.
Mas Med não ouvia mais nada. Estava muito mais do que fascinado pela cena. Ou pelo que estava oculto nela.
1
O que SATOR quis dizer com seu enigma? Med se perguntava, intrigado. E quem era esses seres? Que vigias invisíveis eram esses, que davam a quem estivesse consciente dentro da caixa metafísica a desagradável sensação de que o estavam vendo pelado?
Era noite, e ele estava se preparando para dormir. Após escovar os dentes, ficou observando seu reflexo no espelho do banheiro; era a mesma imagem que tinha quando se encontrava dentro da caixa, com a sensação de estar sendo observado por olhares invisíveis e críticos – como os olhares que os velhos costumam lançar sobre as coisas que sua moral considera obscenas e abomináveis.
Med se mirava no espelho, enigmático, e refletia sobre as palavras de SATOR: dentro da caixa só se pode ver ao próprio reflexo... ao próprio reflexo... a frase ecoou mantricamente no seu entendimento até que...
...Súbito, como que atingido por um relâmpago, ele percebeu: era isso!
Ora, se dentro da caixa-prisão só se podia ver ao próprio reflexo e os vigias que estavam por trás desse reflexo, isso significava que na verdade esses vigias estavam dentro da pessoa presa na caixa! Por que não pensara nisso antes? Afirmar que os olhos acusadores estão dentro da cada um corresponderia dizer que quem na verdade reprova sua nudez existencial é a própria pessoa. Não há nenhum perigo do lado de fora da caixa, mas o medo do Box Man gera fantasmas que criticam sua nudez. E esses fantasmas realmente estão detrás do reflexo do Box Man - que é a imagem invertida das coisas: o que parece ser direita, é esquerda, e o que parece estar fora, está dentro.
Intuitivamente ele desceu até a sala, caminhou até a estante e dela tirou o livro SATOR. Ele rasgou um pedaço de uma folha e comeu.
Em seguida apagou a luz e sentou-se num canto da sala, esperando algo acontecer.
Dessa vez demorou mais tempo para que ocorresse alguma coisa.
Ele já estava quase dormindo, escorado a uma das paredes, quando começou a ouvir a princípio um quase inaudível sussurro. A intensidade desse sussurro foi crescendo e se transformou em dois sons distintos: o som do galope dum cavalo e o guinchar semelhante ao produzido por um chimpanzé. Esses dois sons aumentavam gradativamente, como se esses dois animais estivessem correndo ao encontro de
Med, o que o deixou aterrorizado; ademais, quem não ficaria se no interior de uma sala escura começasse a ouvir o galope de um cavalo e o guinchar de um macaco, ambos invisíveis?
Num piscar de olhos a sala se transformou numa grande caixa cujas paredes internas pareciam feitas de vidro uma vez que Med, agora nu, se via refletido nelas. E o delirante barulho de galope de cavalo aumentava cada vez mais, assim como os guinchos enlouquecidos de macaco. Os sons desses animais estavam deixando Med quase morto de medo; eram sobrenaturais.
Então, aconteceu: a parede onde ele via seu reflexo explodiu numa chuva de estilhaços de cristal, o que o obrigou a fechar os olhos instintivamente. Uma voz tão aterradora quanto à de SATOR foi ouvida:
— VEM E VÊ.
Med abriu os olhos, e eles quase estouraram de espanto. Diante da parede estilhaçada havia uma bizarra figura. Um enorme cavalo branco, que escarafunchava impaciente uma das patas, e sobre ele um singular cavaleiro: uma espécie de chimpanzé do tamanho de um homem, que usava um avental branco desses que os cientistas costumam usar, tendo em sua cabeça uma coroa, um arco na mão direita e uma maçã na mão esquerda!
— VEM E VÊ, BOX MAN.
Med se aproximou da figura insólita. O mais estarrecedor de tudo era o olhar do macaco-hominídeo. Era o olhar de um grande conhecedor, mas extremamente amargurado por seu conhecimento, tal um cientista que vê suas descobertas sendo usadas para a construção de armas de grande poder letal. O olhar dele expressava um sofrimento desse gênero.
— ESSA COROA E ESSE ARCO ME FORAM DADOS PARA EU SAIR VENCENDO E VENCER NA NATUREZA, E NA MINHA MÃO ESQUERDA SEGURO O FRUTO DO CONHECIMENTO DO QUAL PROVEI .
Como uma frágil bolha de sabão que estoura no ar, toda aquela cena desapareceu e Med mais uma vez se encontrou só na sala. Seu coração batia descompassado e sua respiração era difícil. Dias depois ele escreveria na sua coluna no jornal:
O PECADO ORIGINAL
"... Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás".
O imaginário popular costuma associar o pecado ocorrido no Jardim do Éden
com a descoberta do sexo. Comer do "fruto proibido" assumiu a conotação de se perder a virgindade. Os sacerdotes, por sua vez, interpretam esse fato como sendo a desobediência do homem perante Deus, que desde então já nasceria imerso em pecado por ter rompido o cordão umbilical que o unia ao Senhor; então a primordial tarefa dos homens durante a vida seria religar esse contato - religare - religião.
Entretanto, há mais uma explicação possível para o ocorrido lá :
No filme "2001 - Uma Odisséia no espaço" há uma cena memorável em que
um hominídeo se aproxima da ossada de um animal e, curioso, começa a manipular um dos ossos. Cada vez mais fascinado, ele bate o osso violentamente no provou do fruto proibido, o fruto do conhecimento, e se tornou distinto dos outros seres chão, fazendo voar estilhaços dos outros ossos e depois, compreendendo a grandiosidade de sua descoberta, ele urra vitorioso, com os braços erguidos. Nesse momento
ancestral da civilização que o ser humano. No Jardim do Éden havia também a chamada árvore da vida. A espécie humana teria provado do fruto dessa árvore se, diante da ossada, o hominídeo mostrasse apenas indiferença. O Homo sapiens seria então apenas uma espécie entre as demais e sua civilização não teria ocorrido: era uma bifurcação de caminhos que divergiam.
E que não permitiam volta.
O ato de provar do conhecimento pôs a humanidade a coroa com a qual ela iria reinar sobre as demais espécies. Do ponto de vista cósmico, pouco tempo separa aquele momento ancestral e que o ser humano pela primeira vez usou a inteligência, das atuais conquistas aeroespaciais. Uma vez dado o impulso inicial, foi só uma questão de tempo para que isso ocorresse.
Entretanto, a coroa do conhecimento que enfeita a cabeça do homem às vezes tem um peso insuportável. A primeira conseqüência que sobreveio ao casal que provou do fruto proibido foi descobrir que estavam nus, e de se envergonhar disso..
Está claro que, desde que a humanidade se fez humanidade, ela vem sentindo com maior pungência a vergonha de sua nudez. Essa nudez metafórica pode ser resumida nas três irrespondíveis perguntas que vêm sendo feitas desde eras imemoriais: De onde viemos? O que somos? Para aonde vamos? O ser humano, ao contrário das outras espécies que permanecem hibernando no eterno e obscuro sonho do não saber, descobriu que existia no espaço-tempo, e desde então ele se questiona sobre o sentido dessa existência. Sobre a humanidade recai o desespero de uma pessoa que passa um longo tempo em coma e quando desperta encontra-se num lugar estranho
e sem a menor noção de quem realmente é ou o que está fazendo ali.
Afinal, o que podemos fazer contra a imensidão do espaço e a imensidão do
tempo? O conhecimento é uma serpente que morde o próprio rabo: quanto mais se aprende, menos se sabe. Tudo o que descobrimos parece insuficiente, terrivelmente insuficiente, e então nos colocamos numa furiosa busca à procura de novas descobertas e invenções. Mas, como se estivéssemos numa pista de automóveis de corrida, nunca chegaremos a lugar algum, por mais que nosso veículo desenvolva velocidades cada vez maiores. E então, vem o desespero de nossa raça.Ela, imersa em tanta dor, começa a se questionar se não seria melhor nunca ter posto a coroa de "rainha da natureza" na cabeça. Os adultos, afogados em problemas, têm saudades das suas infâncias e juventudes, quando estavam livres de maiores responsabilidades; sentimento análogo ao de uma criancinha que, diante do perigo, fecha os olhinhos, esperando que tal escudo a proteja. Ou seja, no fim só há o desejo de fuga, de se refugiar no sono por saber que quem está acordado tem maiores responsabilidades do que quem dorme.
A menina dos olhos da fuga é o medo de existir. Qual então seria nossa defesa?
Não estou bem certo, mas acho que tem a ver com aquela história do animal que corre em círculos para tentar pegar a sua cauda. Se ele parasse e virasse a cabeça para trás veria que a resposta estava com ele o tempo todo, e era tão óbvia que beirava às raias da tolice.
O LADRÃO DE TANQUE DE GUERRA
Os encontros de Med com Andrea estavam acontecendo com certa regularidade. Ele se surpreendia como a garota captava fatos aparentemente sem relevância, mas que a sensibilidade dela reputava da maior importância.
— Você soube do ladrão de tanque de guerra, Med?
— Não.
— Tudo bem; os detalhes da história também não sei. O caso foi que um cidadão desempregado roubou um tanque e saiu esmagando tudo o que estava na sua frente. No fim, acabou sendo morto pela polícia.
— Hum.
— Mas o que me chama atenção é o significado dessa história.
— E qual é?
— As pessoas constroem sua sociedade. É algo extremamente, mas extremamente complexo; chega a parecer com um ser vivo gigantesco. E como na história de Frankenstein, esse gigante está escapando ao controle do criador.
— Tem razão.
— E conforme escapa do nosso controle, ela começa a nos oprimir. O que ocorre agora é que nós estamos servindo, como escravos, à nossa própria criação. Mas acho que o limite de opressão que as pessoas podem tolerar está chegando ao fim.
Embora ouvisse o que Andrea estava dizendo, Med tinha a cabeça baixa. Estava preocupado com as críticas, cada vez mais freqüentes, ao Box Man. Ao que parece, a intelectualidade viu no Box Man uma espécie de moda que vem, faz sucesso e depois se vai. Ainda mais agora, com sua nova concepção de que as garras chamadas opinião e idéia não conseguem mais quebrar a caixa metafísica.
— Veja só, Med, quantos filmes de catástrofe apareceram nos últimos tempos.
Sempre há neles uma ameaça indestrutível rondando o mundo. Essa ameaça é justamente a vontade da multidão de acabar com aquilo que as oprime: a sociedade.
Ele continuava refletindo sobre seu caso; isso havia desagradado a crítica, que tinha suas opiniões formadas sobre tudo em alta conta - e nem poderia deixar de ser diferente, pois suas opiniões eram seu ganha-pão. Talvez por isso ela estivesse querendo acabar com Med. Diziam que ele era contraditório e sem coerência, e em parte estavam certos. Havia uma espécie de campanha velada para cercá-lo com armadilhas de retórica para que ele próprio acabasse se condenando, pois se fizesse um papel ridículo, entrando em contínuas contradições, o seu Box Man cairia em descrédito.
— Mas o pior é que os donos da situação, percebendo que não poderiam fazer nada contra esse potencial de destruição oculto nas pessoas, resolveram canalizá-lo, antes que todo mundo se revolte como o ladrão de tanque de guerra. Canalizá-lo, através da mídia, contra os bodes expiatórios de sempre: bandidos, mendigos, comerciantes ambulantes. Quero lhe mostrar algo.
Ela levantou uma das pernas da calça negra. Ele olhou espantado:
— Uma pistola! Por que...
— Simples. Daqui a algumas semanas iremos paralisar a fábrica e realizar manifestações no pátio interno até que os patrões resolvam nos ouvir. Med, essa cambada sugou o operariado durante séculos, e agora, como não precisam mais da gente, fazem conosco o que se faz com as frutas: depois de extraído todo o sumo, joga-se fora o bagaço. Acontece que somos seres humanos, Med! Precisamos de nossos empregos! E se for necessário, lutaremos por eles!
Med olhava fixamente para a pistola guardada no cano da bota da menina. Ela encobriu a arma e perguntou:
— O que você acha?
— Bom... deve saber o que está fazendo, senhorita Ariel.
Ante a face de desalento feita por ela com tal conselho inútil, ele completou:
— Você é a pessoa mais corajosa que já conheci em toda minha vida. Tem mais coragem no dedo mínimo do que eu tenho no corpo inteiro.
Nesse momento, o céu iluminou-se junto com o sorriso de Andrea e ouviu-se um "crack" produzido por um trovão. Do céu pesado uma chuva torrencial começou a cair. Como estavam nas escadarias de um lugar, começaram a correr. Med tirou seu casaco e deu para ela se proteger. Era a primavera que chegava chuvosa.
2
Med estava debruçado sobre o parapeito da janela da cozinha, contemplando a desolação de seu quintal totalmente coberto por cimento. Vinha de uma discussão indigesta e infrutífera durante uma mesa redonda. Uma mulher o atacara violentamente, porque ao seu ver o "Box Man" encerrava uma conotação machista e fascista. "Por que não chamou o ser preso dentro da caixa metafísica de 'Box Human Being', se queria mesmo que esse ser fosse universal e englobasse tanto homens quanto mulheres? Acaso pensa que só os homens têm direito de terem dúvidas existenciais?" Ele sentia ainda as sílabas bem escandidas ditas por ela atingindo as suas orelhas como torpedos. E se lembra da insensatez de sua resposta: "Mas... mas... minha senhora... isso é irrelevante!".
Não, era relevante. A feminista tinha razão em sua crítica. Aquela era uma falha que aos seus olhos fora invisível, mas que era bem nítida para outros olhos. Ele sentia com pungência progressivamente maior a imperfeição de sua obra - que antes julgara inatacável. Sem dúvida o ser preso dentro da caixa metafísica, gostasse ou não, era universal - por isso mesmo Med devida ter refletido mais antes escrever sobre ele. E paralelamente a fatos dessa natureza ele cada vez mais se sentia sugado pelo poderoso vórtice escuro que o atraía para dentro de si mesmo.
Seus olhos estavam fixos no manto cinza que encobria o quintal, que embora fosse grande, não tinha nenhuma planta, ou mesmo um único talo de grama. Esse cobertor de concreto em seu quintal ainda era um resquício de sua antiga ótica ortodoxa. Lembrou-se desse tempo não muito distante cronologicamente, mas que, contudo parecia perdido em obscuros milênios atrás. Só de lembrar dessa época ele contraiu a face...
Voltou-se para o interior da cozinha, e deu de frente com a sombria águia negra num quadro na parede. Era estranho, mas Med não conseguia dissociar suas antigas crenças "racionais" da imagem daquela medalha de guerra. Também ela não teria sido o produto errôneo de uma época em que se acreditava erroneamente na máquina?
Ele então foi até a estante, tirou o livro SATOR e comeu parte de uma folha.
Num piscar de olhos estava dentro duma caixa.
Começou a ouvir um longínquo galopar que se aproximava furioso. Uma das paredes explodiu numa névoa de minúsculos estilhaços. Quando essa névoa abaixou, ele pôde ver um sinistro cavaleiro em sua cavalgadura. Uma voz tão poderosa quanto a dos outros seres fantásticos foi ouvida:
— VEM E VÊ.
Hesitante, Med se aproximou. O cavalo era vermelho, cor de sangue fresco. Mas nada era comparado ao bizarro cavaleiro que o montava. Esse cavaleiro era um homem totalmente nu e sem nenhum pelo no corpo ou na cabeça, e se sentava em seu cavalo à maneira dos hindus: coluna ereta, pernas cruzadas e polegares unidos com os respectivos indicadores. Em seu colo repousava uma espada poderosa em cuja lâmina se lia: "os milagres da ciência". Ele tinha uma palidez transparente e azulada de cadáver, e embaixo dos olhos duas horripilantes manchas escuras. Mas talvez a particularidade mais assombrosa desse cavaleiro, no tocante à aparência, fosse a infinidade de cabos e fios entrando e caindo de seu corpo como se fosse cordões umbilicais cibernéticos - o que lhe conferia uma aparência de andróide, mas mais repugnante que qualquer organismo cibernético que venha a ser criado um dia. Aqui e ali no seu corpo havia placas com nomes de multinacionais - fabricantes de microprocessadores, produtores de softwares, etc. Havia cerca de Vinte Logotipos em seu corpo.
Ao redor da cabeça totalmente careca dele (nela havia dois grossos fios que brilhavam como aço polido e que saíam das têmporas e se ligavam em duas tomadas na nuca, passando sobre a cabeça) havia uma espécie de aba metálica - que tinha as singulares refulgências cor de arco-íris dos CD's. Seria como se alguém colocasse na cabeça um chapéu de metal e depois cortasse a copa. Do nariz e da boca também brotavam fios e tubos metálicos. A cabeça dele estava baixa, fazendo com que olhasse obliquamente para Med – era uma visão aterradora, porque parecia que os olhos do cavaleiro estavam injetados de ódio. E, pousada no ombro desse cavaleiro, uma águia olhava fixamente para Med.
— ESSA MINHA ESPADA FAZ COM QUE OS HOMENS SE MATEM UNS AOS OUTROS . ESTOU ESTREITAMENTE LIGADO À ÁGUIA, DEVE IMAGINAR POR QUÊ.
Num instante tudo desapareceu.
Dias mais tarde ele escreveu em sua coluna no jornal:
A CRENÇANA MÁQUINA
(E CONSIDERAÇÕES SOBRE A ÁGUIA)
"Eagle has landed".
No final dos anos 60 o mundo inteiro ouviu admirado a essas palavras. A águia havia pousado. Mas não somente na Lua; ela pousou também no coração do ser humano.
A águia está nos símbolos nacionais de vários países; está nas medalhas que são distribuídas logo após as guerras (em que ambos os lados inimigos usam aviões com águias pintadas nas asas). E está nos bancos que financiam essas guerras. A quase tudo o que sugira poder e vigor o nome da Águia está associado. Ela já estava presente nos símbolos romanos antigos. E certamente será o estandarte virtual do admirável mundo novo para o qual caminhamos, fingindo não saber que a lógica excessiva aproxima-se da loucura.
A humanidade provou do conhecimento e decidiu usá-lo para o progresso. Todavia esse progresso é visto como um fim em si mesmo e não como um meio para servir à maioria. Veremos conquistas espaciais cada vez mais impressionantes ao lado de populações famintas imersas na miséria absoluta, e infestada por epidemias facilmente tratáveis. A muralha de tecnologia que nos envolve não permite que nos apercebamos que ainda estamos imersos na lei do mais forte - que agora usa a ciência para se tornar mais forte e esmagar o fraco. Tal como a águia, que se alimenta de seres mais fracos que ela. Mas a águia tem esse hábito
não porque seja má, e sim porque a lógica que preside o seu corpo assim ordena. Da mesma maneira, os fortes e poderosos do mundo oprimem os fracos não porque sejam "malvados", mas porque faz parte da lógica do Sistema. Assim, monstruosidades antiéticas como a eugenia, a fabricação de clones humanos e a impossibilidade de compra e venda de bens de consumo se não for através da w w w (seria esse o sombrio 666?) - tudo isso, enfim, será a decorrência natural da atual ótica ocidental. Todas essas aberrações éticas não ocorrerão porque os cientistas sejam maus, mas sim porque a lógica da eficiência norteia nossa civilização.
Teorias impregnadas desse ranço é o que não falta. Basta ver a teorias que propagam que um país precisa adotar métodos anticoncepcionais para o controle populacional porque uma população muito grande exige uma igual quantidade de investimentos sociais que impedem que o referido país invista em "'áreas que realmente representem o desenvolvimento" - como rodovias, ferrovias, etc. Métodos anticoncepcionais devem ser estimulados sim, mas não por esse motivo. Pois isso seria indicativo de 'progresso'? Satélites orbitais para distrair a classe média com imagens da fome e da guerra civil grassando como um câncer pelo mundo? Viadutos faraônicos para carros aerodinâmicos passando por sobre regiões paupérrimas? Livros imbuídos dessa tecnocracia social, por assim dizer, também não faltam.
Geralmente batem na tecla da diferença de Q.I. entre as etnias - que seriam hereditárias, segundo os autores de tais obras - e propõem um tratamento diferenciado quanto aos recursos sociais destinados à pretensa etnia superior e à inferior.
Mas talvez o reflexo mais atual desse culto à tecnologia seja o desemprego progressivamente maior ocasionado pelas novas tecnologias. E um mito gerado a partir disso: o de que os desempregados são culpados por seu desemprego por não se "atualizarem", isto é, por não terem aprendido informática ou como manipular equipamentos de alta tecnologia. Pois não necessário muita imaginação para saber que, mesmo se todos os desempregados do planeta aprendessem a construir dinossauros digitais, não haveria empregos para todos. Um computador faz o trabalho de dez homens. Esses dez são descartáveis. Não interessa se são especializados ou não em informática, pois um computador necessita apenas de um operador. E isso por enquanto...
Para finalizar, enxergo a crença na máquina como um desses apresentadores de programas de TV sobre ciência que com um sorriso muito mais do que estúpido nos lábios, discorre sobre os Milagres da Ciência. Esse apresentador fala da tecnologia de ponta com um respeito na voz semelhante ao que antes era dedicado aos deuses, e zomba da máquina que fica ultrapassada com um asco na língua que se acentua quando compara o desempenho dela com o da técnica mais moderna - momento no qual sua voz adquire um timbre orgásmico. Acentua as qualidades e a velocidade do trem-bala que é a eficiente tecnologia atual e mal contém o riso quando tem de falar de maria-fumaça que é a ineficiente tecnologia antiga (a trilha sonora do tal trem-bala é futurística e solene, tocada com sintetizadores, enquanto que a da pobre maria-fumaça é semelhante ao som do piano cômico que se ouve no fundo dos documentários em preto-e-branco de oitenta anos atrás).
Só que em certo dia esse cavaleiro - que o emaranhado de fios em seu corpo de andróide o faz parecer com um Frankestein moderno - não aparece na televisão do absurdo em que trabalha como apresentador. Motivo: é mandado para o olho da rua, porque em seu lugar colocam uma animação virtual dotada de inteligência artificial.
Esse desenho computadorizado falará da velha cartilha do moderno até ficar ultrapassado e ser substituído por outra coisa, num ciclo infinito. @mém.
HELLO DARKNESS, MY OLD FRIEND
— Ora vamos, senhor Ezenos, dê-nos logo a resposta!
— Mas eu não sei!
— O senhor repentinamente cria uma nova rede de idéias, onde aparece um mar metafórico, cuja superfície é a realidade e a profundidade é o interior humano, e dessa profundidade brotam montanhas submersas que aparecem na superfície como ilhas, que seriam construções arquetípicas do inconsciente e...
— Creio que não preciso ser lembrado das minhas próprias reflexões. Apenas quero que acreditem que quando imaginei a realidade que vemos como a superfície desse mar, eu não quis dar um significado maior a esse fato. Sim, a superfície de um mar é relativamente estática. Significaria dizer que imagino que a realidade seja também estática, e isso se contrapõe ao pensamento que diz que a realidade está sempre em contínuo movimento, como as águas de um rio. É incrível como detalhes aparentemente sem importância como esses possam ser a raiz de discussões tão estéreis...
— Nenhuma discussão é estéril, senhor Med, quando feita por pessoas civilizadas e esclarecidas.
— Como o senhor, por exemplo, não?
— Ver a realidade como um rio significa dizer que nada do que vemos agora se repetirá; é um pensamento enaltecedor, senhor Ezenos! Significa dizer que nada é permanente no livro aberto que é a história, e isso nos dá o poder para modificar a realidade que nos cerca, desde que lutemos por um ideal. Ao passo que...
— ... ver a realidade como a superfície parada de um mar é vê-la com olhos conformistas. É afirmar que nada pode ser feito para modificar as atrocidades que vemos! É encarar a vida sob uma perspectiva de fatalidade religiosa, segundo a qual
só poderemos ser felizes em outra vida, senhor Ezenos!
Med respirou fundo. Deu um pigarro e encarou os militantes políticos:
— Eu nunca parei para pensar nas implicações em conceber a realidade como sendo estática ou movimentada. Talvez o meu seja o caso da obra que supera seu autor. Entretanto, caros colegas, não me arrependo de enxergar a realidade como sendo a superfície de um grande mar. Acho que enxergá-la sob o prisma de um rio seria afirmar que os erros e acertos do passado não continuam ocorrendo atualmente, o que é falso. Entretanto, embora isso não tenha ficado muito claro em minha obra, não acredito numa realidade meramente cíclica. Acho que ela evolui como numa escada em espiral. Uma espiral mística.
— Perdoe-me, meu caro amigo Med, mas o esoterismo é o novo ópio do povo.
— Vocês, da esquerda, têm um senso de humor peculiar. Vivem dizendo que o ser humano é um produto do meio em que vive. Todavia, quem, senão ele, ser humano, criou o meio em que vive? Então, em última análise, somos produtos de nós mesmos. Acaso pensam que foi uma força supraterrena a criadora do nosso meio? Então meus parabéns: vocês são mais visionários do que eu!
Todos esses detalhes de sua última mesa redonda com militantes de esquerda
Med os tinha frescos na memória quando foi visitar pela primeira vez Andrea Ariel .
A casa de pensão se situava numa viela sem movimento. Andrea estava sentada no muro baixo e de pintura descascada que havia na frente. Atrás dela havia uma roseira de caule verde-esperança. Ela estava de cabeça baixa dedilhando num violão "Sounds of Silence".
Cumprimentou a Med com os olhos e continuou calada, tocando. Med se sentou ao lado dela. Com um cansaço sem tamanho a pesar-lhe sobre a alma, ele olhava a ponta dos sapatos. Muito do que os militantes haviam dito sobre sua obra o ferira com contundência, principalmente aquela insistência deles sobre o movimento da realidade. Estavam certos; só a ação, e não a contemplação, tem o poder de alterar o aqui e o agora. As águas precisam estar em constante movimento porque, como diz o povo, quando elas passam, não podem mover moinhos.Talvez fora refletindo sobre tudo isso que ele voltou a sentir a sua velha acomodação a lhe corroer como ferrugem. Ou talvez um fato sombrio que soubera nesses dias:
— Sabe, Andrea, há um ou dois meses eu estava caminhando para o trabalho – por sinal deve ter sido o dia em que fui mandado embora – quando no percurso uma velhinha que estava sentada na calçada me estendeu a mão, pedindo ajuda por caridade, e eu fingi que não ouvi. Não sabe como... incomoda... quando me recordo disso...
Andrea continuava tocando, abstrata.
— Acontece que, numa noite do inverno passado, quando os termômetros caíram abaixo de zero, vários mendigos amanheceram mortos. Congelados. E possivelmente a velhinha para quem neguei ajuda... sabe...
Med calou-se, perturbado. Não sabia da verdade. Sem parar de tocar, Andrea procurou tranqüilizá-lo:
— Relaxe, Med. No fim das contas você agiu bem não ajudando essa velha.
— Eu não acredito que você está me dizendo isso! Como posso ter agido bem se provavelmente pela minha indiferença essa velhinha morreu?
O violão desafinou. Dessa vez, a paciência de Andrea se esgotou:
— Pense, Med! Vamos, pense! Se naquele dia você tivesse enfiado a mão no bolso e dado algumas moedas a essa mulher, apenas estaria massageando um pouco o seu ego.
Med a olhava espantado. Um pouco mais calma, ela continuou:
— Por alguns míseros trocados, que certamente para a mendiga representariam uma extraordinária soma – mas que sei que para você não seria nada – você sentiria a sua consciência mais aliviada e pensaria: "Sou uma boa pessoa! Mereço ir para o paraíso!" e esqueceria o caso. Se depois viesse a saber da morte da velha, você encolheria os ombros com indiferença e murmuraria: "Bem, pelo menos disso não tenho culpa". Entende?
Sim, Med entendia:
— Acho que a maioria das pessoas são como eu: uma espécie de antiprostituta moral. Pagamos para fingir que temos belos sentimentos. E fingindo que temos belos sentimentos, procuramos evitar o trabalho de ter sentimentos autênticos.
— Med, eu tenho um amigo dramaturgo que me revelou os seus planos para uma peça. Os atores, vestidos como policiais da tropa de choque, entrarão no palco num caminhão de verdade e, assim que descerem, começarão a disparar balas de borracha e gás lacrimogêneo contra a platéia. As idéias do meu amigo podem ser meio violentas, mas ele tem uma teoria da qual eu partilho: só se sabe o que é a dor quando se sente na própria carne.
Ele sacudiu a cabeça, concordando:
— Tem razão... só quando se sente na própria carne...
Isso o lembrou de algo que SATOR disse, embora não recordasse o quê.
3
Em mais um deslumbre Med se encontrava novamente no interior da grande caixa. O trotar de um cavalo (sim, trotar, que parecia vindo de um desses cavalos de raça amestrados que valem milhões) se aproximava. Uma das paredes da caixa então se estilhaçou:
— VEM E VÊ.
Estava montado num imponente garanhão negro, que trotava obediente sem sair do lugar, fingindo assim que dançava. Tinha em sua mão uma balança de ouro cujos pratos estavam desequilibrados: o mais pesado era aquele que estava cheio de pedras preciosas e dinheiro, e o mais leve era o que continha uma espécie de esfera de cristal onde se lia: liberdade igualdade fraternidade. E estava vestido de pirâmide social. Sua cara arrogante era a síntese das expressões faciais dos mais ricos que já viveram. Sua voz cósmica se fez ouvir:
— A MINHA BALANÇA REPRESENTA AQUILO A QUE O SER HUMANO DÁ MAIS VALOR.
Tempos depois Med escreveria um artigo inspirado nesse singular cavaleiro.
O CONFORMISMO
"Se o povo não tem pão, que coma brioches".
Provamos do conhecimento e enveredamos pelo caminho do progresso pelo progresso. A lei que preside essa vereda é muito clara: é a lei do mais forte, do irmão que mata irmão, do vencer sem se importar com os meios empregados para tanto. Quase simultaneamente à descoberta de sua inteligência ocorreu no ser humano que poderia ter uma vida materialmente melhor se explorasse o próximo e sugasse o produto do trabalho alheio. Por justificativas injustificáveis dessa natureza uns poucos se apossaram dos bens que eram de todos. Se no início a maioria tivesse linchado quem tivesse a pretensão de mais posses que o resto, a História que conhecemos teria sido diferente. Mas isso não ocorreu, e o comunismo primitivo em que a humanidade vivia na aurora dos tempos estará cada vez mais distante. Entretanto, tal como o velho que suspira de saudade de sua infância, a sociedade sonha em viver num mundo menos injusto, livre da fome e da pobreza absoluta - por mais que apareçam intelectuais "brilhantes" que digam que a pobreza nunca terá fim, e que sempre existirão opressores e oprimidos.
É claro que é muito romântico para a burguesia que haja sempre pessoas pobres a lhe estender a mão, humildes, pedindo restos. Isso desperta nos burgueses uma indignação aveludada muito salutar porque os fazem se sentirem bem consigo, mesmo quando dão religiosamente suas caridades de natal para instituições filantrópicas achando talvez que essas instituições tenham o poder de resolver o problema dos quatro ou cinco bilhões de miseráveis espalhados pelo mundo!
Podem contra-argumentar com a clássica historiazinha do grupo de pessoas que é colocado numa ilha, todos com a mesma quantidade de bens materiais; não demoraria para que o "gênio empreendedor" de uns poucos se apossasse legalmente dos bens da maioria, que então dispondo apenas de sua força de trabalho, teria de trabalhar para essa minoria agora detentora de todos os bens materiais. Porém, mesmo nesse "infalível" exemplo capitalista, há de se fazer importantes ressalvas. Uma minoria egoísta se aproveita da boa-fé ou mesmo da ingenuidade da maioria para, com suas garras de ave de rapina (seriam de águia?) se apossar dos bens alheios. Essa mesma minoria de ladrões legais dirá depois, talvez no intuito de aliviar a consciência, que a pobreza é uma fatalidade, um castigo divino, uma necessidade cármica - e encolherá os ombros, achando que nada têm a ver com isso. Ora, se a pobreza é decorrente da maldade do ser humano, então os primeiros que deveriam se entregar a reflexões sobre conduta são os causadores dela. Outrossim, como esperar o "mea culpa" de quem é vítima dela?
O objetivo desses apontamentos é mostrar que a humanidade não precisa esperar uma auto-iluminação coletiva para que comece a se empenhar na luta contra as injustiças sociais. Todas as pessoas por piores que sejam, por maior que seja sua capacidade de odiar a próximo e de mentir e enganar, merecem ter uma vida material que permita que não apenas sobrevivam, mas que também vivam dignamente. E isso não deve ser um privilégio apenas dos bons, mas um direito universal.
Tudo tem um limite. E o lixo social gerado pelo girar da excludente máquina capitalista também. Se nada for feito, logo virá o colapso final.
Esse é o messias tão falado pelos profetas, o Grande Mestre Akira, criado pelo desenhista Katsuhiro Otomo, que irá devastar o mundo. E há os que vivem com receio da queda de um gigantesco meteoro que traria o fim do mundo consigo, mas esse meteoro já o temos conosco rondando nossas cabeças com seus milhões de toneladas de destruição. Todo peso do lixo social vai para ele. E esse lixo não admite reciclagem.
PAREDES DE BANHEIRO
Havia tristeza no olhar de Andrea daquela vez.
— Med, o ser humano não presta.
— Por que diz isso?
— Alguém pixou numa das paredes do banheiro feminino da fábrica umas frases neonazistas: "Morte às raças inferiores!", "O IV Reich varrerá vocês da face da Terra!"
"Morre, canalha sub-humana!". Em seguida essa pessoa escreveu um extenso rol das categorias consideradas por ela como inferiores: fulanos, beltranos, sicranos... etc. Med, você sabe que sou estrangeira. O termo pejorativo que eles usam para quem vem do meu país também estava lá, pixado.
Med tentou fazer dizer alguma coisa. Mas ela, com um sorriso triste, fez um gesto para que ele ficasse calado.
— Espere. Me deixe terminar a história. Observei essa pixação durante vários dias, já que não apareceu ninguém para limpá-la. Num dia alguém riscou o "fulanos".
Noutro dia alguém riscou o "beltranos", e em outro a "sicranos", e assim por diante.
Percebe o que isso significa?
Ele tinha um raciocínio meio lento. Sem esperar resposta, Andrea continuou:
— Significa que muita gente só é contra a discriminação porque pertence a algum grupo discriminado. Veja: por que quem riscou "fulanos" também não riscou todas as outras categorias consideradas inferiores pelo pixador neonazi?
— Hum... entendo o que quer dizer. Mas você não está levando muito a sério uma simples pixação de banheiro?
O sangue dela ferveu:
— É claro que não! Ninguém obrigou essas pessoas a riscarem apenas seus respectivos grupos do rol! Med, se elas assim procederam, é porque realmente pensam dessa forma! O problema é que os indivíduos ditos conscientes vêem esses sinais e não dão a menor importância. Creio que na selva que essa maldita realidade, Med, devemos ser como os índios e saber guiar-nos através de sinais que à primeira vista passariam despercebidos por não terem "muita importância".
Med concordou, grave, com a cabeça. E murmurou:
— Boa parte do pensamento ocidental está registrado nas paredes do banheiro...
Ele tirou o chapéu e alisou os cabelos. Como uma pérola de luz, o sol do meio-dia brilhava atrás do fino véu de nuvens. Ao redor dele havia um halo luminoso.
4
A última alucinação galopante veio ao encontro de Med, finalmente.
Junto com o trovoar de uma poderosa galopada, ouvia-se os berros enlouquecidos de um cordeiro, que parecia ferido mortalmente.
— VEM E VÊ .
Med então se aproximou do último vigia.
Sua montaria era a carcaça de um cavalo de cor amarela - por baixo do couro se via os contornos bem delineados dos ossos. Seu cavalo sorria o eterno sorriso dos animais podres que já não têm carne para encobrir os dentes, e tinha dois buracos escuros no lugar dos olhos. Ele vestia uma longa batina negra. E sua cabeça era a de uma ovelha clonada.
— O MEU PODER É O DE TRAZER A MORTE ESPIRITUAL PARA AS MONTARIAS QUE ME SEGUEM CEGAMENTE – Med olhou para o cavalo cego e natimorto que o cavaleiro montava – POR ESSA RAZÃO TAMBÉM SOU CONHECIDO COMO ETROM , A MORTE AO CONTRÁRIO , ONDE O QUE SE MORRE É O ESPÍRITO .
Med posteriormente registrou o que lhe ocorreu nesse em seu espaço no jornal:
O REBANHO
"Desde que iniciamos a ocupação do planeta acumulamos uma perigosa bagagem no decurso de nossa evolução: propensões hereditárias à agressão e ao ritual, submissão aos líderes e hostilidades para com os estranhos, que põem em risco a nossa própria sobrevivência" (Carl Sagan, Cosmos).
Digamos que o rebanho aparece quando o indivíduo desaparece e surge a tirania da massa. Tomo a liberdade de contar-lhes uma fábula que trata desse assunto.
Era uma vez um rebanho de cem ovelhas que era diligentemente cuidado por um pastor chamado Unilateralidade. As ovelhas eram mansas e olhavam com doçura para ele em sinal de gratidão pelo zelo com que eram tratadas: nas noites sinistras o pastor velava o sono delas, protegendo-as dos ataques dos animais ferozes e, quando uma adoecia, lá estava ele a tratar da ovelha doente. Não deixava nada faltar às suas protegidas, e por isso era venerado por elas.
Entretanto, entre elas havia uma ovelha rebelde, que não entendia o porquê dos cuidados do pastor para com ela e suas irmãs. Perguntava-se sobre o que ele ganharia tratando-as tão bem. Porém essa sua desconfiança era pequena em relação à sua vontade de querer abandonar a limitação do rebanho em que vivia e sair correndo pelo mundo do qual só conhecia uma parte minúscula. Ela queria ser livre.
É claro que suas idéias de liberdade soavam heréticas nos ouvidos de suas noventa e nove irmãs; aquela pobre doente devia estar confusa para pensar em semelhantes blasfêmias. Ter tais idéias, pensavam, era ir contra a ordem natural das coisas: elas nasceram ovelhas, e o seu destino era o rebanho. Não se podia lutar contra isso. Mas a ovelhazinha rebelde recusava-se a pensar a sentir como o rebanho queria que pensasse e sentisse, por isso suas irmãs passaram a evitá-la. Todavia, ela não estava disposta a se entregar tão fácil; então, em certa noite de lua minguante, resolveu fugir. Nunca respirara com tanta delícia o ar noturno. Ela correu ofegante por um mundo desconhecido até então, o mundo da liberdade. Nunca havia sido tão feliz quanto naqueles momentos.
Porém, com o passar do tempo, a ovelha rebelde foi sentindo o preço a ser pago por sua liberdade: a solidão. Naquela mesma noite ela sentiu toda a sua alegria inicial se transformar numa solidão extrema. Nunca estivera só antes, e logo sua solidão se transformou em medo. Os uivos dos animais ferozes, antes distantes, agora lhe pareciam mais próximos e ameaçadores.
Ela correu como louca, agora não mais pelo simples prazer de correr livremente, mas para voltar à segurança do rebanho. Era a primeira vez que via a liberdade, e isso foi assustador. O desespero fez com que quebrasse a pata num buraco. Foram momentos terríveis, ela balindo de dor e de medo e tendo com única companhia a escuridão cortada por uivos.
Então, quando tudo parecia perdido para ela, eis que surge a figura do pastor Unilateralidade. Sorrindo por ter achado sua ovelha perdida, ele passou bálsamos nas feridas dela, a tomou entre os braços e a carregou de volta para o rebanho.
A ovelha rebelde, arrependida de seu ato, vislumbrou naquele retorno o regresso ao paraíso perdido, onde era feliz e não sabia.
O tempo encarregou-se de mostrar que estava enganada; agora que tinha a experiência da liberdade em seu coração, o rebanho lhe pareceu mais estúpido do que antes. Sentia o quanto de artificial havia em seus atos quando procurou ser, com sinceridade, uma ovelha comportada. E para piorar, as suas irmãs estavam constantemente lembrando o quão pecaminosa fora sua fuga, e que esse monstruoso pecado a havia tornado ainda mais esquisita do que antes.
A idéia de fugir novamente começou a assaltar a cabeça da ovelha rebelde.
Mas agora havia um laço de dívida entre ela e o pastor; achava-se incapaz de tamanha ingratidão para seu salvador. Depois de muito refletir, porém, chegou à conclusão de que a fuga do rebanho era sua única saída. Mas antes procuraria o pastor e Lamberia seus pés em sinal de gratidão e humildade. Só depois se retiraria do rebanho, dessa vez para sempre.
Foi então procurar o pastor, a quem devia tanto. Sabia que àquela hora ele estava no "barracão proibido". Não sabia por que esse barracão era proibido, mas o mesmo infundia um grande temor entre as ovelhas - que consideravam o lugar sagrado, uma vez que todas as ovelhas que o pastor levava para lá não retornavam se transfigurava num anjo e de lá conduzia as ovelhas que escolheu - que eram sempre as mais robustas - para o paraíso da ovelhas. Por isso não existia maior honra entre as ovelhas do que ser escolhida pelo pastor para ser conduzida até o barracão sagrado - de maneira que nenhuma se aproximava do barracão sem ter sido previamente escolhida pelo pastor. A ovelha rebelde tinha consciência do insulto que seria entrar naquele barracão sem ter sido escolhida, e até ela tinha receio de fazer tamanha afronta contra quem a havia salvado. Mesmo assim resolveu dar prosseguimento ao seu intento.
Ao se aproximar do barracão ouviu gritos de dor vindo de algumas irmãs suas que estavam lá dentro. Sem dúvida o pasto estava conduzindo essas eleitas para o paraíso, e talvez inicialmente fosse uma experiência dolorosa.
Ansiosa para presenciar tal milagre, a ovelha rebelde pôs-se a correr em direção ao barracão, pensando consigo que talvez o que estivesse ocorrendo lá dentro a fizesse finalmente ter fé nas virtudes da vida em rebanho. Momentos depois todas as ovelhas a viram correr desesperadamente para longe da porta do barracão.
Algumas delas correram para perguntar, indignadas, por que ela havia feito a semelhante heresia de se aproximar do barracão sagrado sem ter sido escolhida.
Trêmula, a ovelha rebelde disse que dentro do barracão o pastor rasgava com uma foice os pescoços das ovelhas - que agonizavam em seu próprio sangue até a morte - depois ele arrancava as entranhas delas e jogava para os cães comerem e por fim esquartejava as ovelhas mortas e pendurava os pedaços ensangüentados em ganchos. Balindo de medo, a ovelha rebelde dizia saber agora da verdade: a vida em rebanho só conduz à destruição devido a Unilateralidade.
Urrando de ódio todo o rebanho partiu para matar a ovelha rebelde, que correu para um desfiladeiro. Como ela já tinha contato com aquela região, conseguiu escapar sem maiores problemas.
Infelizmente suas irmãs não tiveram a mesma sorte: todas elas caíram penhasco abaixo, visto que as últimas sempre seguiam as primeiras.
E assim caminha a humanidade: as crianças criam seus grupinhos de amigos onde só entra quem diz: "eu tenho você não tem", os jovens se refugiam em seu underground enlatado, os adultos têm o prazer de dizer que são especiais porque têm tal carro ou tal cartão de crédito, enquanto que os velhos fazem suas jornadas rituais às igrejas e aos cemitérios - tanto na forma de visitantes quanto na condição de visitados. E todos imersos no medo de abandonar seus grupos, independente de suas idades.
O universalismo deveria ser a tônica vigente no coração de cada ser humano.
Chega da bestial devastação causada pelo culto ao sectarismo. Quando, afinal, deixaremos de dar importância ao que nos separa para dar a devida atenção ao que nos une?
QUEM GUARDA OS PORTÕES DA FÁBRICA?
— E por causa do absurdo duma greve puramente política, caros ouvintes trabalhadores; por causa duma greve política, várias pessoas morreram na manhã de hoje. Morreram de graça! É claro que a culpa é dessa corja de vagabundos agitadores, vagabundos! Que ficam usando os coitados dos trabalhadores como massa de manobra para produzir baderna! Produzir baderna! Tinha mais era que fuzilar essa canalha! E repito; essa greve foi política! Vagabundos!
Naquela manhã de início de primavera - onde no céu azul-turquesa não se via o menor vestígio das nuvens pesadas do inverno - ele amanheceu inquieto, com uma sensação terrível.. Na cozinha o ar estava pesado ao redor da águia de metal, e era algo tão sinistro que ele pegou a medalha e finalmente a jogou no lixo.
E, com efeito, algo ocorreu. Dezenas de mortos. Um outro tanto de feridos. A história nunca será realmente bem-contada. Mas, uma reconstituição criteriosa dos fatos, escrita anos mais tarde, pode dar idéia do ocorrido: milhares de trabalhadores estavam reunidos no pátio principal, bem em frente aos portões da fábrica. Protestavam contra a demissão em massa anunciada pela montadora. Então, chegou a polícia. Ninguém sabe quem começou, mas logo houve o inevitável confronto. Ambos os lados dispararam armas. Um cinegrafista, posto numa janela do prédio mais próximo da fábrica, registrou as imagens terríveis. Milhares de trabalhadores perdidos ora enfrentavam o cordão de policiais da tropa de choque, ora fugiam em levas para todas as direções. Uma nuvem de gás lacrimogêneo bailava ao som da gritaria e das explosões. Muitos pulavam as grades que cercavam a fábrica, antes se ferindo horrivelmente no arame farpado.
E essa era a fábrica de Andrea Ariel.
"MEU ESPÍRITO ASSEMELHA-SE AO CÉU"
Foi a primavera mais chuvosa dos últimos anos. Mas era uma chuva boa, que caía de mansinho sobre as flores. Med continuou a cultivar seu singular hobby de dar longas caminhadas solitárias, só que agora era debaixo da chuva miúda, sem destino, percorrendo ruas onde jamais estivera. Ia encolhido num impermeável azul-escuro, ouvindo o salpicar que suas botas causavam nas poças d'água e vendo o luminoso reflexo prateado que a água da chuva deixava no asfalto da rua - que se transformava então numa comprida chapa de cristal a refletir o céu... a refletir o céu... Através dos fios prateados d'água que escorriam pela frente da aba de seu chapéu ele via um horizonte cinza, que não era só físico, mas também psicológico.
Nunca mais soubera de qualquer notícia de Andrea.
Aquele tempo úmido que causava um frio interno em quem não tinha ninguém o fazia lembrar da obra "Os Guarda-chuvas" de Renoir, mais especificamente para o lindo e delicado rosto da moça que está em primeiro plano. Lembrava-se que Andrea havia dito certa vez que o rosto dessa moça era idêntico a um retrato que a família dela tinha de Judy Ommilenya. Movido então pela vontade de rever esse quadro em algum livro de enciclopédia, ele se dirigiu para a biblioteca municipal que ficava ali perto.
Uma vez dentro dela acabou se esquecendo de seu propósito inicial e ficou consultando distraidamente livros que tratavam de assuntos diversos - o que fazia mais para passar o tempo do que propriamente para se instruir. E de tanto folhear livros e mais livros, acabou por ler algo que o deixou eletrizado:
Era um livro sobre o Tibete. Em certa altura ele tratava dos exercícios espirituais cotidianos aos iniciados no Damnag Lana Méd Pa (escreve-se Blana Med Pa, literalmente "não existe nada superior"). De manhã, o exercício espiritual era o seguinte tema de meditação: como a cadeia de causas e efeitos que constituem o mundo e o Nirvana, que está mais além, nascem, todos os dois, do Vazio? Ao meio-dia, o tema de meditação eram as seguintes afirmações: "Meu corpo é semelhante a uma montanha"; "Meus olhos assemelham-se ao oceano" e "Meu espírito assemelha-se ao céu".
Foi sobretudo essa última afirmação que causou um forte impacto em Med. Profundamente marcado por essa afirmação ele voltou para casa.
ANGEL OF THE DEEP
— POR QUE ME INVOCOU, BOX MAN?
— Já tenho a resposta, SATOR.
— EU SABIA QUE CONSEGUIRIA.
— Leve-me para o mar!
— COMO QUISER. MAS DEVO ADMOESTÁ-LO DE QUE FICARÁ NO PONTO EM QUE ANTES HAVIA PARADO, OU SEJA, A POUCA DISTÂNCIA DA PARTE MAIS ESCURA DA PROFUNDIDADE. ISTO QUER DIZER QUE, SE DEMORAR A RESPONDER, FICARÁ PARA SEMPRE PERDIDO NA ESCURIDÃO DA LOUCURA, E DE LÁ NÃO RETORNARÁ.
O sombrio ser estalou os dedos, e Med foi conduzido até o ponto onde havia parado nas profundezas.
Seria como se tivesse despencado do alto de um arranha-céu e permanecesse inconsciente a maior parte da queda, despertando apenas quando faltassem poucos metros para o impacto fatal. Tornou a sentir a imensurável angústia de quem fica por um longo tempo sem respirar no fundo do oceano - para onde é arrastado numa velocidade estonteante devido ao peso amarrado em seus pés. Já estava atravessando a fronteira final da escuridão absoluta que reside no âmago da Profundidade, quando então, no momento em que tudo parecia estar perdido, ele fechou os olhos, abriu os braços e gritou a solução:
— O desapego!
Nesse instante, o peso que estava amarrado em sua perna se desprendeu.
Imagine-se um balão cheio de gás que é amarrado por um cordão a um tijolo e o mesmo é jogado dentro de uma piscina cheia d'água. Ao afundar, o tijolo puxa consigo o balão. Agora imagine que o cordão se rompa. O balão subirá. Foi o que aconteceu com Med.
Como se seu interior estivesse cheio de uma essência leve, ele ascendeu, e deixou abaixo de si as perigosas escuridões inconscientes da Profundidade. Naquele momento ele era flecha que tinha sido disparada contra o alvo. E o arco fora o desapego da furiosa paixão metódica – de que só os intelectuais são capazes – que sentia acalentando o bebê abstrato parido por seu cérebro. Esse bebê, que ele queria ver crescer e ganhar o mundo, era sua trama de idéias. Durante a trajetória de ascensão, pelo menos enquanto ainda estava no mar, ele ouviu um poderoso som que não tinha começo ou fim e parecia encerrar todo o sentido do que estava ocorrendo.
Finalmente saiu da Profundidade e atravessou a Superfície, e o ar que então respirou foi o mais limpo, o mais puro, o mais... não encontrou palavras em seu vocabulário humano que descrevesse a natureza daquele ar. Não parecia que eram seus pulmões que sorviam com delícia a substância aérea, mas o seu ser como um todo.
E ao abrir os olhos ele teve a visão mais deslumbrante, mais fantástica, mais espantosa e mais bela de toda sua vida.
— AQUI VIVEM TODOS OS ILUMINADOS, MED EZENOS.
Med contemplava aquele céu. Era um universo em si, sem começo ou fim, ele sentia-se capaz de voar livremente para qualquer região dele.
As cores e as luminosidades estavam constantemente mudando: ora o tom predominante era o rosa, ora era o violeta, ora era o verde-esperança, ora era o amarelo, ora era o azul-celeste, e nessas vastidões cromáticas desabrochavam a todo instante flores de luz, que se assemelhavam a nebulosas como a de Órion, e seus caules de cristal vaporoso se prendiam a transparentes nuvens de energia. Por todos os lugares brilhavam, coloridas como luzes de natal, estrelas pequeninas – tão pequeninas que Med podia apanhá-las com as mãos como a vaga-lumes, e essas estrelinhas brincavam alegremente umas com as outras. E, se na Profundidade existiam sombrias águias de fogo negro, no céu beija-flores vaporosos bebiam o néctar das flores de luz, e conforme se moviam deixavam um rastro luminoso que aos poucos se apagava.
Porém, para o seu desespero, ele percebeu que novamente começava a cair. Olhou então com ódio para SATOR:
— Seu demônio amaldiçoado, não disse que as pessoas que atingiram a auto-iluminação vivem aqui?
— SIM, EU DISSE.
— Então, por que estou caindo? Responda, maldito!
— SIMPLESMENTE PORQUE VOCÊ NÃO É UM ILUMINADO. E DEVE SABER O POR QUÊ.
Foi a resposta mais perturbadora que Med já recebera, principalmente o "Deve saber por quê". Ele sabia. Sentiu seus pés tocarem a superfície do mar, onde estranhamente pôde caminhar por um certo tempo. Veio-lhe então à memória os versos de uma canção: "E você estava esperando voar/ Mas como chegar até as nuvens com os pés no chão?" Sentiu medo, e começou a afundar no Mar.
— ESSE É UM DOS MOTIVOS PELOS QUAIS NÃO ATINGIU A ILUMINAÇÃO: NÃO TEM FÉ SUFICIENTE PARA TANTO. É UM CÉTICO.
E Med adentrou novamente na profundidade. Só que dessa vez era diferente: não se sentia preso a nenhum peso, pelo que não corria mais o risco de ser arrastado para o vórtice negro e fatal existente logo abaixo dele. Estava na parte imediatamente abaixo da superfície, onde as águas são claras e boas e onde existe um mundo rico e colorido - embora não sendo páreo para a beleza do céu. E toda vez que sentia falta de ar, podia subir tranqüilamente para respirar - por pouco tempo, é verdade - o incomparável ar do universo existente além da superfície da realidade.
Até que sua situação não era das piores.
— ESSE É O SEU DESTINO: O DE VIVER COMO UM MAMÍFERO MARINHO QUE VIVE NO OCEANO, MAS QUE PRECISA VIR À TONA PARA RESPIRAR. ISSO PORQUE, APESAR DE TUDO, VOCÊ É UMA PESSOA QUE GOSTA DE PENSAR, DE SINCERAMENTE SABER O QUE ESTÁ POR TRÁS DO QUE VÊ. E PARA UMA PESSOA QUE ATINGIU A AUTO-ILUMINAÇÃO ESSA É UMA ATIVIDADE DESTITUÍDA DE MAIOR INTERESSE. TODAVIA, A SUA ESTADA NA PROFUNDIDADE INTERIOR SERÁ BEM MAIS AGRADÁVEL DO QUE ANTES, JÁ QUE TEM O BOM-SENSO SUFICIENTE DE EVITAR AFUNDAR EM SUA ESCURIDÃO. NÃO É UM ILUMINADO, MAS UM PENSADOR, MED EZENOS.
Após o delírio ter passado, Med achou por bem devolver o livro mágico ao sebo.
Como da outra vez, não encontrou ninguém dentro da loja. Deixou SATOR no mesmo lugar em que encontrara e saiu.
Dias depois Med recebeu uma carta. Abriu. Era de Andrea:
Estou cansada de ouvir falar
que a resposta, a culpa e o resto
estão dentro de mim
Antes eu sonhava
mas meus sonhos desvaneceram-se
aos primeiros raios crus
do sol da ignorância que me cerca
Qual o segredo
desses dias tão tristes?
O destino é sempre amargo...
Um sentido para a vida
– que é o caminho da alma
– e a alma é como o céu
é o que peço
[já que nada parece fazer sentido
Por que tanta dor
para os seres?
Superfície e profundidade:
– duas faces de um mesmo engano
As estrelas não brilham como antes,
[no seu céu apocalíptico
e as flores exalam podridão
Partes de um mundo destruído
em cuja alma surgiu um
deserto
p.s.: pequenos milagres já não me satisfazem
Em outra folha ela pedia para ele encontrá-la em determinado lugar e em determinada hora. Assim, lá foi Med para o lugar e hora marcados. Era noite, e a lua fazia sua claridade. Med sentou-se ao seu lado. Nada havia no rosto dela: nem medo, nem remorso, nem ódio, nem tristeza, nem nada. Apenas o vazio. Suas mãos estavam enfaixadas; provavelmente ela escalou a cerca de arame farpado para escapar da polícia de choque. Ficou em silêncio por muito tempo. Quando o Sol começou a transformar a linha do horizonte num raio laser vermelho e as estrelas foram sumindo, ela, com o olhar fixo no nada, falou:
— O combate havia se iniciado na fábrica. Comecei a ouvir disparos e gritos de dor. Fechei os olhos e atirei com minha pistola. Ao abrir os olhos, vi pessoas caídas no chão: policiais e grevistas. Não sei quem eu matei. Ou se matei realmente.
E depois se calou. Med fez menção de abraçá-la.
— Não me abrace. Eu sei seu segredo.
Ele recuou.
— Mas também não me deixe sozinha.
EPÍLOGO
Uma figura de semblante confuso entrou no sebo TAO. Foi adentrando com um ar perdido. Olhou aquele mundo de livros velhos e se sentiu ainda mais perdido.
Havia uma espécie de névoa dentro do lugar que criava uma atmosfera de sonho – talvez por isso julgou ver, com o canto do olho, uma gigantesca borboleta voando. Mas era apenas um velho chinês.
— O senhor é o dono desse sebo?
— Sim.
— tem algum livro que seja recomendável?
— Veio ao lugar certo.
O sábio chinês foi até uma estante e retirou um enorme livro. Seu nome brilhou no escuro: SATOR. E entregou para ela.
— Deve haver algum engano. Não há nada escrito aqui!
O velho sorriu e disse: - Há coisas melhores que a leitura. Você já experimentou?
F I M
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POSFÁCIO:
DIÁLOGOS COM A ESCURIDÃO;
Considerações sobre a novela A Caixa, outrora chamada de The Box Man,
The Box Man, criado por mim, Josiel, foi uma das obras ganhadoras do II
Festival Universitário de Literatura de 1998, evento organizado pela revista Livro Aberto (Editora Cone Sul) e teve a primeira edição de 400 exemplares. A presente versão está revista e atualizada, além de ter sido rebatizada como "A caixa".
A metalinguagem – o código sendo usado para questionar o próprio código – bem como a metáfora, foram empregados intensamente na criação dessa obra, para a qual utilizei também conhecimentos em artes plásticas e em simbolismo antigo (notadamente o simbolismo da bíblia cristã e ocultismo medieval), mas a questão não foi só utilizar, mas saber usar esses códigos para apontar o que está pertubadoramente além deles.
Essa foi uma obra literária criada por um artista plástico jovem que sente os paradoxos que há em seu meio ambiente cada vez mais caótico e questionador do que seja ou não arte, do que deve ser experimentado (multimeios) e do que deve ser abandonado (pensamento acadêmico, do tipo que afirma que o artista é aquele que faz naturezas-mortas – porém morta é a natureza desse pensamento). Assim sendo, e pondo em prática o novo papel do artista na nossa época, eu gerenciei uma inspiração que tive.
Foi uma expressão de difícil comunicação. Pensei inicialmente em experimentar a Optical Art para traduzir esse conceito que me afigurava. Posteriormente tentei a linguagem das grafic novels, mas esse ainda não era o meio ideal. Entretanto dessa sondagem surgiram algumas nuances presentes no livro e inclusive o termo "Box Man", influenciado pelos nomes dos super-heróis da linha Marvel - DC Comics, que trazem consigo o que o super-herói é e quais os seus poderes, tudo isso concentrado num nome que ao mesmo tempo é um logotipo. Finalmente, decidi pela literatura, o que de modo algum resultou em um trabalho mais fácil de ser concretizado, haja vista as implicações em se fazer uma transmutação de meios.
É preciso frisar que a inspiração da história surgiu no segundo semestre de 1993, quando eu tinha então 17 anos. 1993 foi um ano frio e chuvoso muito marcante para mim. Houve uma longa greve na rede estadual. No mês de julho em tinha acabado de ler "Demian", de Hermann Hesse, sem dúvida o livro mais importante de minha vida, a ponto de poder dividí-la claramente no antes e no depois de ter lido essa obra (essa passagem é lembrada logo no começo de "a caixa", mas de modo muito sutil). Nesse semestre já tão distante eu costumava sair caminhando sem destino debaixo da chuva, procurando sentir o mundo e procurando transformar em palavras esse conceito da caixa metafísica do Med que me perseguia o tempo todo (posteriormente, as minhas andanças foram transferidas para o Med, que também cultiva esse hábito de caminhar solitariamente). Cumpre lembrar que na época eu ouvia muito a Legião Urbana, em especial músicas como "Angra dos Reis", "Há Tempos", "Tempo Perdido", "Fábrica" e "Daniel na Cova dos Leões". O fã da Legião Urbana encontrará facilmente citações e referências à banda no decorrer da história.
Em 1994 eu tinha acabado o 2. grau e estava desempregado, em plena fase do exército. No meu quarto eu tinha minhas primeiras experiências místicas com mantras e especulações metafísicas. Foi no decorrer desse ano que o então "The Box Man" foi tomando forma. Todas as personagens, as idéias e possibilidades desse livro eu rabisquei em dois cadernos de desenho juntamente com os sonhos que eu tive naqueles dias. Esses cadernos eu tenho até hoje.
O projeto do livro "The Box Man" foi aperfeiçoado também ao longo de1995 e finalmente em 96 eu comecei a escrevê-lo numa antiga máquina datilográfica. Se não me engano, os originais ficaram prontos no dia 15 de novembro, quando então foram imediatamente enviados para a Editora Record, que recusou. Isso me magoou muito e me deixou com um certo complexo de incompetência. Resolvi arquivar o projeto, afinal 1996 já tinha chegado e eu estava agora no 1. ano de artes plásticas da UNESP. Em 1998 eu fiquei sabendo do II Festival Universitário de literatura e decidi inscrever essa história. Evidentemente eu tive que reescrevê-la no computador, para poder mandar impressa em formato A-4, e isso me deu possibilidades de dar uma "remasterizada" na história, cortando e adicionando partes e situações. O resultado disso é que em 13 de novembro de 1998 a novela The Box Man foi uma das cinco selecionadas em mais de 700 trabalhos literários de todas as universidades do Brasil (o demônio-lobisomem deve ter ficado contente...).
A história gira em torno do personagem Med, um cidadão de classe média totalmente acomodado (muito embora tenha sido rebelde quando jovem) que começa a ter pesadelos claustrofóbicos em que se vê preso numa caixa de vidro de onde não pode ver o que se passa do lado de fora, mas quem está do lado de fora vê perfeitamente ele e sua nudez criminosa. Sua vida desestabiliza-se quando perde o emprego, mas estando assim afastado do que era, ele passa a questionar justamente o que deixou de ser. Med acaba adquirido um livro chamado SATOR, onde não há nada escrito. Então ele resolve comer o livro – aqui se vê logo uma metáfora sobre a limitação do código – e um lobisomem com crista punk, a essência rebelde que havia nele e que há muito estava adormecida, brota da sua barriga e começa a discutir com Med sobre qual a sua posição no mundo moderno - posteriormente ele será ajudado também por sua amiga Andrea Ariel, uma garota de 17 anos totalmente careca que só se veste de preto e que não obstante ser inteligente, executa um trabalho braçal numa fábrica. Aqui é necessário um parênteses: é realmente impressionante como o público feminino se identificou com essa menina, muitas das quais chegam a me perguntar se a Andrea Ariel existe realmente, tamanha a empatia que ela provoca, que ofusca o personagem principal Med.
De tudo o que ele sonha, pensa e sente, Med passa a escrever uma série de artigos intitulados "The Box Man", que na verdade são (sem que ele saiba direito) uma metalinguagem sobre onde termina o intelectual e onde começa a sua obra, sobre onde ocorre o ponto de fusão entre as duas coisas e sobre o desespero do ser humano que se vê diante de suas próprias limitações.
Logo no início eu afirmei ter gerenciado uma inspiração. Inspiração? Esse conceito atualmente está desgastado. Porém, eu acredito nele. Não no sentido como usualmente é empregado, mas, a inspiração como um salto, uma abdução, em que a percepção é levada para um lugar totalmente diferente do senso comum. Há o vislumbre, o espanto diante do nunca antes visto. Porém, depois vem o inferno: como passar para as outras pessoas o que vimos? Como um peixe que por um instante conhece o que é ficar seco pode descrever essa sensação para os outros peixes que passaram toda sua vida no molhado? É uma tarefa inglória, e muitos fracassam, apesar de terem visto o que os outros não viram ainda. Por isso é importante não só ter o que falar, mas saber falar. Os profetas da bíblia enfrentaram dificuldades ao tentarem descrever suas conversas com Deus; os artistas enfrentam esse mesmo problema com relação à inspiração. O meu personagem Med talvez não tenha sabido expressar corretamente o que ele realmente viu, e nem as coisas que ele escreve são verdades absolutas.
Mas ele ao menos tentou ser o mais sincero possível consigo mesmo.
Também não acredito que arte seja o produto da indiferença. Pelo menos para mim, para se fazer arte é preciso excessos: excesso de amor, excesso de angústia, excesso de ódio, de medo, de sexo, de paixão, de terror, de alegria. Algo que nos tire da (Med)iocridade, pois, citando Jung, "A mediocridade é a meta dos fracassados". O senhor Med teve de sair de sua monotonia burguesa medíocre para sentir um demônio chamado SATOR brotar de suas entranhas. Aqui cabe uma última nota. O nome dessa criatura surgiu espontaneamente em mim. Posteriormente descobri que esse é um famoso quadrado mágico:
R O T A S
O P E R A
T E N E T
A R E P O
S A T O R
É interessante que tanto na vertical quanto na horizontal aparecem os nomes
ROTAS e SATOR, enquanto que no miolo forma-se a palavra "perene". Incrível sincronicidade com o que eu estava desenvolvendo, a começar que se trata de um "quadrado" mágico, e quadrado mágico é onde Med sonha estar preso.
Bom, essa é a história. Espero que minhas explicações tenham sido claras. Se não, por favor, entrem em contato comigo:
Contatos com o autor: josielvis@yahoo.combr